Seminário dos Ratos – “Que século, meu Deus!”
Lygia Fagundes Telles
Lygia Fagundes Telles é uma escritora brasileira, ela nasceu em 1918 e morreu recentemente, em início de abril de 2022; é reconhecida como a “dama da literatura brasileira” e “a maior escritora brasileira” enquanto viva, e ainda considerada por acadêmicos, críticos e leitores como uma das mais importantes e notáveis personalidades culturais brasileiras do século XX e da história literária de nosso país; além de romancista, foi advogada, teve grande representação no pós-modernismo, e suas obras retratavam temas clássicos e universais como a morte, o amor, o medo e a loucura, além da fantasia. Na 17.ª edição do Prêmio Camões, ocorrida em 2005, sendo esta a maior láurea concedida a escritores de países que têm o português como a língua oficial, Lygia foi a vencedora. Ganhadora de todos os prêmios literários importantes do Brasil, homenageada nacional e internacionalmente, tornou-se, em 2016, quase centenária, a primeira mulher brasileira a ter sido indicada ao prêmio Nobel de Literatura. Legou-nos um acervo de quatro romances, vinte coletâneas de contos, outras tantas de crônicas, além de participações em antologias; suas publicações obtêm reconhecido sucesso no exterior e seus livros são traduzidos e lançados em diversos países: Portugal, França, Estados Unidos, Alemanha, Itália, Holanda, Suécia, Espanha, Polônia e República Checa, tendo obras suas adaptadas para a televisão, teatro e cinema. Em uma publicação americana – Huffpost – seus livros “As Meninas”, “Ciranda de Pedra”, “Verão no Aquário”, “Antes do Baile Verde” e “A Disciplina do Amor” foram considerados como textos que provam que Lygia é um ícone literário. A década de setenta foi de suma importância para a autora e marcou seu êxito literário e consagração internacional, dos quais destacamos a antologia “Seminário dos Ratos”, publicada em 1977 pela Editora Rocco, no Rio de Janeiro. O livro possui um total de quatorze contos, embasados em árduo trabalho de pesquisa da autora; a obra nasceu da obstinação da escritora em escrever contos ignorando os limites entre realidade e fantasia, fantástico e mágico, intenção e impulso, cultura e natureza; neste texto, o leitor é convidado a fazer uma viagem ao encontro dos ratos que tomam para si um seminário e que, curiosamente, passam a tomar decisões sobre o país onde vivem. Total de contos que integram o livro: “As formigas”, “Senhor diretor”, “Tigrela”, “Herbarium”, “A sauna”, “Pomba enamorada ou Uma história de amor”, “WM”, “Lua crescente em Amsterdã”, “O X do problema”, “A mão no ombro”, “A presença”, “Noturno Amarelo”, “A consulta”, “Seminário dos ratos”. É este último que analisaremos em nosso texto de hoje: como “Seminário dos ratos” é um conto fantástico, é necessário, inicialmente e para que se compreenda bem, que se identifique o que é literatura fantástica; ela é um gênero literário cujo enredo é caracterizado pela transcendência do real, pois apresenta elementos sobrenaturais que se misturam à realidade; o termo fantástico vem do latim phantasticu o qual, por sua vez, tem origem no grego phantastikós, os dois oriundos de fantasia; ele refere-se ao que é criado pela imaginação, o que não existe na realidade, o imaginário, o fabuloso; aplica-se melhor, portanto, a um fenômeno de caráter artístico, como é a literatura, cujo universo é sempre ficcional por excelência, por mais que se queira aproximá-la do real. O conto é narrado em terceira pessoa por meio de um narrador onisciente (que sabe tudo o que se passa nas 3922 palavras que o compõem). O ambiente onde desenrola-se o conto é uma mansão reformada recentemente, a fim de abrigar o VII Seminário dos Roedores, cujo objetivo é discutir medidas públicas contra o crescimento desordenado e alarmante da população roedora nas grandes cidades. No início do conto, encontramos uma epígrafe (uma citação) alusiva ao poema “Edifício Esplendor”, de Carlos Drummond de Andrade (1955), da qual provém um clima insólito introdutório: “Que século, meu Deus! / – exclamaram os ratos e começaram a roer o edifício”. Ratos ganham voz e atitudes humanas, passando, em seguida, a consumir, a carcomer o prédio. Como sabemos, ali aconteceria um evento denominado VII Seminário dos Roedores, uma reunião de burocratas, os quais não possuem nomes e são chamados somente pela ocupação que exercem. Essa reunião está sob a coordenação do Secretário do Bem-Estar Público e Privado, tendo como assessor o Chefe de Relações Públicas; mas como consequência de todo esse acontecimento inesperado, o país fictício encontra-se atravancado pela burocracia, invertendo-se a proporção dos roedores em relação ao número de homens: cem por um. Assim ambos os símbolos – voz estridente ou guinchos, e mais a destruição de um imóvel – contribuem para a inversão dos valores entre os seres humanos e os ratos, tendo a tomada do poder como último patamar dessa transposição. Ao consumir tudo que estava pela frente, expulsando todos e tudo do local, assumindo o controle do VII Seminário de Roedores, os ratos se apoderam de uma posição que, naturalmente, pertenceria aos homens. A tomada do poder e, por sua vez, o desfecho do conto, alicerçam o princípio do inusitado, do temor, da hesitação (imaginem-se, leitores, em uma situação na qual nos aterrorizam seres imundos e mais, os quais tomam nossas propriedades, nosso bem-estar habitual!). Não há quaisquer indícios de como o evento começou, ou o porquê dele se manifestar. A atmosfera de tensão e medo diante de um fato que se desconhece, e, principalmente, de algo que não se pode controlar, não possui resolução ou definição: é um caso único! O que fazer? Ao final, depois de devorarem tudo, comida, pessoas, roupas, móveis, o único sobrevivente é o secretário que organiza a festa, porque ele escondera-se dentro da geladeira. O conto deixa o leitor na ambiguidade, pois não esclarece se os líderes burocráticos também são ratos ou são humanos discutindo a situação dos ratos. Publicado em fins da década de setenta, “Seminários dos Ratos” é um conto ainda muito atual; ao utilizar os roedores como alegoria, a escritora apresenta-nos uma formidável interpretação do que vivenciamos em uma época mundialmente conturbada, tomada, em parte, pela fadiga moral, pelo caos da justiça ou pela frouxidão humana. Por mais árduo e difícil que seja este momento que vivemos, quando somos trocados e vencidos por ratos, penso que este conto pode ajudar a dar-nos conta exatamente disso, e que, a partir de então, que façamos um esforço com o intuito de superarmos essa nuvem escura que nos remete à treva e à ignorância. A propósito, é para isso mesmo que existe a arte e a literatura, em especial: elas podem acender uma luz “naquele prédio que estivera até então destruído”. Por fim, retomo as palavras magistrais de nossa autora Lygia Fagundes Telles: “No rigoroso inquérito que se processou para se apurar os acontecimentos daquela noite, o Chefe das Relações Públicas jamais pôde precisar quanto tempo teria ficado dentro da geladeira, enrodilhado como um feto, a água gelada pingando na cabeça, as mãos endurecidas de câimbra, a boca aberta no mínimo vão da porta que de vez em quando algum focinho tentava forcejar. Lembrava-se, isso sim, de um súbito silêncio que se fez no casarão: nenhum som, nenhum movimento. Nada. Abriu a porta da geladeira, espiou. Um tênue raio de luar era a única presença na cozinha esvaziada. Foi andando pela casa completamente oca, nem móveis, nem cortinas, nem tapetes. Só as paredes. E a escuridão. Começou então um murmurejo secreto, rascante, que parecia vir da Sala de Debates e teve a intuição de que estavam todos reunidos ali, de portas fechadas. Não se lembrava sequer como conseguiu chegar até o campo, não poderia jamais reconstituir a corrida, correu quilômetros. Quando olhou para trás, o casarão estava todo iluminado.”
