A Causa Secreta
Conto de Machado de Assis
Como sabemos, Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro, em 1839, e morreu em 1908, na mesma cidade, até então capital do Império e, à época de seu falecimento, já sede da República; isso significa que ele perpassou por várias etapas políticas e sociais de nossa pátria. Sabemos também que Machado é considerado um dos maiores nomes da cultura brasileira, importante autor de romances, atuando também como dramaturgo, poeta, crítico e jornalista, e sendo reconhecido internacionalmente. Trata-se de um autor de ímpar produção literária no terreno do conto, cotado, segundo alguns analistas, como um dos maiores contistas da literatura ocidental. Dentre seus duzentos contos, destacamos, hoje, “A causa secreta”, publicado pela primeira vez em 1885 e, posteriormente, em “Várias histórias”, de 1896; trata-se do tema de sadismo e, em parte, de “voyeurismo”. Muitos especialistas consideram esta obra um de seus clássicos mais sombrios (com o qual estou de acordo); entretanto – e infelizmente – todo o sombrio e todo o sinistro não é comparável com a crueldade da realidade, ou dito de outra forma, ainda não estão à altura do que nós, chamados “seres humanos”, somos capazes de cometer. Começamos pelos nomes e caracterizações de seus personagens: Fortunato, médico, rico, comedido no falar, e sádico; ele costumava esbarrar eventualmente no outro personagem, este chamado Garcia, seja por encontrarem-se no teatro que frequentam, seja por serem ambos da área da medicina. Garcia, inicialmente, é um formando da faculdade, e a seguir já é médico, é um naturalista e igualmente uma pessoa compassiva e sensível; em certos momentos, antes de ele saber em toda extensão quem é Fortunato, Garcia acha que seu colega mais velho tem estranhos costumes – pouco a pouco, esta situação vai-se desvendando, no decorrer das oito páginas que compõem este conto. Finalmente, forma-se o triângulo, e a terceira personagem chama-se Maria Luísa, ela é casada com Fortunato, é uma jovem senhora bela e delicada que costuma ficar em casa costurando. Resumo da trama: neste ponto, faz-se necessário conhecer a trajetória dos fatos. Um ano antes, em uma certa noite, Garcia descobre que um de seus vizinhos encontra-se esfaqueado por uma turma de “capoeiristas” e, sendo ele estudante do último período de medicina, decide socorrê-lo até que um médico chegue ao local. Percebe, então, que o médico que ali acompanha o paciente é o mesmo homem (Fortunato) que ele havia encontrado anteriormente numa peça de teatro, e aproveita para conhecê-lo melhor. Passados alguns dias, Garcia é abordado por seu vizinho, aquele que fora ferido, e o qual decide agradecer seu benfeitor Fortunato, e para isso pede seu endereço a Garcia. O convalescido vai ao local, mas volta ressentido com o que vivenciou, e não diz grande coisa; Garcia acompanha com assombro os fatos, pois desde antes já estranhava os modos de Fortunato. Garcia tinha o desejo de entender aquele médico sempre tão impassível, porém, não encontrava motivos para ir além nessa curiosidade. Com os frequentes encontros profissionais, tornam-se conhecidos. Quando Fortunato casou-se, convidou seu amigo para sua casa e lá o jovem conheceu sua esposa, Maria Luísa. Em meio a diversas conversas, os dois médicos resolvem criar uma casa de saúde, já que ambos são apaixonados por medicina, e Fortunato é um exemplar cuidador, chefe da enfermaria e da administração. Depois da criação do hospital, foi necessário que Garcia se tornasse mais presente na casa de Fortunato; dessa maneira, acabou apaixonando-se por Maria Luísa (a narrativa não deixa explícito isso no começo, apenas no final do conto). Em um determinado dia, Garcia vai à casa de Fortunato e, lá, sua esposa encontra-se desesperada e diz que ele está louco, ao vê-lo torturar um rato com o maior prazer. Nesse momento, Garcia finalmente entende o porquê da dedicação extrema ao trabalho, por parte de Fortunato, e o porquê de ele demonstrar tanto prazer fazendo aquilo: o jovem descobre – ou pensa ter descoberto, inteiramente – qual é a causa que seu colega médico acalenta, ao desvelar-se nos curativos, nas suturas, sempre mantendo um olhar frígido e uma atitude apática e distante do sofrimento dos enfermos: Fortunato era médico pelo prazer de ver os outros sofrerem; sua perversão era, assim, autenticada por sua profissão. Progredimos no texto: depois de um certo tempo, a jovem esposa mostra-se doente, era a tuberculose, a qual evolui rapidamente para um estado quase terminal, enquanto seu marido não tirava os olhos dela, sentindo com muito prazer cada expressão de dor que sua mulher fazia até ela expirar. E no fim da narrativa, após sua morte, em seu funeral, Fortunato observa Garcia beijando Maria Luísa com um sentimento de amor e dor pela perda, e aprecia aquele momento deliciosamente, revelando-se com certa superioridade, onde não sentia ciúmes e nem a capacidade de amar; qualquer “sentimento humano” de Fortunato é substituído pelo prazer de observar Garcia, que agora mais que ele, sofre intensamente com a morte de Maria Luísa; nas palavras do autor, “Fortunato, à porta, onde ficara, saboreou tranquilo essa explosão de dor moral que foi longa, muito longa, deliciosamente longa.” O texto autoriza-nos a pensar que não somente os animais eram torturados, mas que também Garcia e Maria Luísa ali estavam a sua disposição para sofrerem, ambos, eventualmente, as maldades que lhes seriam impostas. Como vimos, o conto trata principalmente da crueldade, e, finalmente, descobrimos que é esta a causa secreta de todo o desenrolar da trama: logo no início do conto, quando o autor mostra-nos o jovem estudante que frequenta o teatro de S. Januário e que uma noite, (…) estando nas cadeiras, apareceu ali Fortunato, e sentou-se perto, (…) Garcia observa que o médico redobrava sua atenção nos lances dolorosos e, terminado o espetáculo, Garcia sai e vê que Fortunato (…) ia devagar, cabisbaixo, parando às vezes, para dar uma bengalada em algum cão que dormia; o cão ficava ganindo e ele ia andando, indiferente. Em outro momento, um novo indício de crueldade apresenta-se ao personagem e ao leitor, quando sabemos que Fortunato “rasgava e envenenava cães e gatos” (imagina, leitor, se Fortunato praticasse esse tipo de acinte e desvario sobre infelizes seres humanos? A ideia não lhe veio à mente – pelo menos não neste texto.) Quando Garcia tenta dissuadi-lo da sessão de tortura do rato, o jovem não foi bem-sucedido, “porque o diabo do homem impunha medo, com toda aquela serenidade radiosa da fisionomia”. Curioso esse nome “Fortunato” para um personagem tão abjeto; uma grande dose de ironia aí se encerra! A sabedoria e a profundidade do autor em tratar desse tema repulsivo permite-nos pensar que Fortunato é “feliz” com o prazer que ele tem em qualquer forma de humilhação ou sujeição; ele objetifica uma pessoa ou um animal para qualificar seu estranho desejo de sofrer; ele nunca conheceu a “fortuna” de ser feliz, suas atitudes macabras exprimem sua necessidade de achar uma sensação prazerosa no sofrimento dos outros, enquanto ele, por sua vez, jamais poderá ser feliz. A violência que dele emana e que o complementa caracteriza o extremo do mal na natureza e na sociedade. “Fortunato” é a negação dele mesmo. Esse “infeliz” é uma aberração ética, quer dizer, seus costumes são imorais, escapam da ordem normal da vida entre as pessoas, do convívio social. A palavra ética vem do grego “ethos” e significa modo se ser, caráter; ao ser adotada pelo latim, expande seu sentido de caráter e, em especial, de “costume”; não é por nada, não, que o autor do conto chama a atenção, desde seu início, aos “costumes” de Fortunato, e quando Garcia interessa-se em saber quais são seus “costumes”; se somos atentos ao que lemos, esta construção literária abre-nos a via na qual poderemos encontrar a resposta a essa “causa” considerada até então como “secreta”. A violência que se escondera até então, finalmente eclode, e o que fora secreto, agora se revela. Este texto de Machado de Assis, grande conhecedor dos “costumes” da burguesia de então, possibilita que reflitamos um pouco e que, consequentemente, sejamos cautelosos e tomemos precaução contra os monstros que trafegam por aí, estes seres não propriamente humanos que consagram seu comportamento ao que não é natural. Atenção ao que não é ético nem moral, pois quem o pratica termina por ser tomado de uma profunda e infinita “infelicidade”; nada o contenta, seu semblante exprime a ausência de sentimento e a dureza de sua mente; a vida em sociedade lhe é negada e ele está fadado ao vazio: este ser é insignificante e não significa nada na convivência humana.
