Mãe Coragem – Bertolt Brecht
“Mãe Coragem” é o título de uma peça teatral escrita em doze quadros pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht, em 1939, representada pela primeira vez em 1941, e com o subtítulo de “Crônica da guerra de Trinta Anos”. Ela é uma das mais famosas peças do teatro de Brecht, um grande autor teatral alemão que viveu entre 1898 e 1956, e também uma das mais dramáticas e representativas de uma guerra. Se nos damos conta, percebemos que também estamos em uma época de conflito bélico, e por isso pensamos trabalhar um pouco sobre este texto e esta situação social da época em que vivemos. Primeiramente, cabe explicar o que foi a guerra de Trinta Anos: ela engloba uma série intermitente de conflitos armados, de batalhas entre países europeus, no período de 1618 a 1648, tendo como origem as desavenças entre protestantes e a hegemonia da instituição católica de então; na real, o continente europeu pretendia reduzir a liderança soberana do chamado Santo Império sobre seus países, sobre todas suas regiões. Apresentamos, agora, o resumo da peça. “Mãe Coragem” expõe uma vida dentro da guerra: durante a guerra de Trinta Anos, a cantineira Anna Fierling, apelidada de Mãe Coragem, acompanhada de seus dois filhos e de sua filha muda, puxa um pesado carrinho pelas estradas da Europa, aproveitando da guerra para fazer seu comércio. Um encarregado de recrutar soldados aparece e quer recrutar seu filho mais velho; Mãe Coragem interpõe-se mas, atenta ao lucro que ela poderia obter em uma boa venda, ela descuida-se e assim o recrutador consegue capturar o rapaz para suas tropas. Dois anos mais tarde, Mãe Coragem reencontra seu filho em uma outra região, bem distante, e presencia que o chefe do exército o felicita por ele ter roubado vinte bois das fazendas locais, e o convida para sentar-se em sua mesa de refeições. Mãe Coragem aproveita para vender bem caro uma peça de carne ao cozinheiro. Transcorrido algum tempo, seu outro filho, o honesto, torna-se o guardião temporário do tesouro do regimento; posteriormente, sua mãe depara-se com ele, e os negócios prosperam, o cozinheiro e o capelão do regimento onde está seu primeiro filho trazem notícias deste quando, subitamente, explode um atentado, o capelão evangélico despe suas roupas eclesiásticas e refugia-se como se fosse um empregado de Mãe Coragem. O filho honesto, que pretendia devolver a caixa do dinheiro ao capelão, acaba sendo preso. Mãe Coragem poderia lançar mão desse dinheiro para salvar a vida de seu filho, mas ela negocia o tempo todo e ele termina sendo executado. Posteriormente, ela segue as tropas católicas. Ela permuta com os soldados, alinha-se a seus feitos, e chega mesmo a renunciar a fazer queixa quando esses rasgam o toldo de seu carrinho, ou ainda, quando eles exigem dela uma multa injustificada. Por outro lado, sua filha Catarina mostra ser, cada dia mais, crítica do tipo de comércio de sua mãe. Em certo momento, Mãe Coragem envia sua filha à vila mais próxima para adquirir mantimentos; a moça é atacada e tem o rosto desfigurado pelos soldados. Ainda mais adiante, quando anuncia-se a possibilidade de haver paz, Mãe Coragem teme que isto realmente aconteça, porque ela recém renovou o estoque de suas mercadorias; para ela, terminar a guerra significa um “mau negócio”. (Interrompo aqui, provisoriamente, o relato do resumo dessa peça, e questiono se não é similar ao que ocorre na vida real, em todas as guerras, entre os maiores interesses, se não esses, os comerciais, os que mais se destacam.) Continuamos com o drama de Brecht: um armistício é assinado, seu primeiro filho continua a praticar a pilhagem, acaba sendo condenado e executado – por um ato que lhe valeu honrarias em tempo de guerra. Não tendo conhecimento da morte de seu filho, Mãe Coragem regozija-se ao saber que as hostilidades recomeçaram, em três dias após a paz. Avançamos: dois anos mais tarde, os negócios vão mal, a cantineira e sua filha continuam a puxar o carrinho pelas estradas. Em um gélido mês de janeiro, as duas acompanham tropas católicas, é de noite, a Mãe vai à cidade comprar mercadorias a baixo preço para revendê-las com lucro aos fugitivos da guerra, enquanto Catarina abriga-se em uma propriedade rural. Há um aviso a todos de que não devem fazer barulho, para não serem massacrados, porque as tropas preparam-se para o assalto. Em um ato de revolta, a jovem sobe ao topo de um galpão, começa a bater em um tambor, sendo este seu último protesto desesperado contra a guerra. Ela é abatida pelos soldados, mas antes ela ainda conseguira avisar a cidade: ao longe, ouve-se o toque dos sinos avisando do perigo e o barulho do choque de armas em defesa de seus habitantes. No dia seguinte, Mãe Coragem parte sozinha, puxando seu carrinho – e suas memórias, buscando um último regimento a quem poderia vender suas mercadorias. Este é o quadro final da peça. Como vimos, o autor faz de Mãe Coragem, inicialmente, uma figura negativa, a de uma mercadora que reconhece a essência puramente mercantil da guerra, mas ao mesmo tempo ela aprende muito da catástrofe que é um combate aguerrido. Podemos afirmar que esta personagem nos comove por sua vivacidade, por sua resistência e vontade sobre-humana de continuar a fazer o que ela sempre fizera, isto quer dizer, continuar seus negócios para sentir-se viva, para praticar sua existência neste tempo que lhe é concedido nesta Terra. Podemos destacar um paradoxo em sua personalidade: ela faz seu comércio para ser uma boa mãe, mas ela não pode ser uma boa mãe fazendo este seu comércio. Pergunto: quem não possui contradições em sua vida? Qual mãe não pratica algo condenável – ou deixa de fazer algo elogiável – para alcançar o bem-estar de seu filho? Seria ótimo, seria ideal se tudo se passasse sempre às mil maravilhas, mas sabemos que isto não existe, a realidade não é assim como a queremos; ela é o que for possível, ela é o que é. Essa contradição de Mãe Coragem nos permite reconhecer nela uma ínfima engrenagem da lógica implacável da guerra e de seu lucro: quando se ouve falar os grandes próceres, podemos estar certos de que eles não fazem a guerra por temor a Deus ou pelo que é belo e bom. Quando observamos mais de perto, eles não são assim ingênuos, eles fazem a guerra pelo lucro. Nós, pequenos, devemos nos precaver, devemos “dizer não” a toda e qualquer guerra!
