“Os Ratos”, de Dyonélio Machado

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“Os Ratos”, de Dyonélio Machado

 

Hoje, vamos falar de um livro que, apesar de pouco comentado, tornou- se uma das obras mais importantes da literatura brasileira moderna, além de ter sido homenageado com o prestigioso prêmio Machado de Assis. Trata-se de “Os Ratos”, publicado em 1935 por seu autor, Dyonélio Machado, nascido em nosso estado, na cidade de Quaraí, em 1895, e formado médico psiquiatra pela Faculdade de Medicina de Porto Alegre.  A capital é adotada pelo autor, aqui é sua morada e local de trabalho durante toda sua existência, até 1985, e é nessa cidade que ocorre a ação do romance. Nele, utiliza-se uma linguagem simples e  direta, poder-se-ia dizer, econômica, onde nem o sentimentalismo nem o entusiasmo estão presentes, mas sim a preocupação e a ansiedade do protagonista, Naziazeno, em obter os 53 mil réis que lhe faltam para quitar a dívida com o leiteiro que entrega cotidianamente o leite que alimenta seu filho, o frágil Mainho. Cada um dos vinte e oito capítulos que compõem o livro tem sua própria célula de suspense, a qual será resolvida no seguinte, em que obrigatoriamente surgirá outra situação angustiante. A narrativa descreve uma sociedade contemporânea – a nossa mesma, por exemplo – excessivamente preocupada com o dinheiro. É exatamente esse linguajar coloquial e sem enfeites, posto que a situação é igualmente corriqueira e difícil, o que enquadra a obra no movimento modernista brasileiro, iniciado em 1922. Outra característica é o tempo de ação: a história passa- se em 24 horas de angústia e até de humilhação para nosso anti-herói arranjar a soma necessária. Quanto à locação do texto, esta nos situa em locais que vão desde o Mercado Público até a avenida Independência, passando por ambientes com casario operário e, finalmente, o escritório de um agiota. Também os sobrenomes chamam nossa atenção, vindos dos portugueses e chegando aos alemães, instalados nos diversos tipos de comércio da capital. Destacamos, também, uma descrição microscópica de gestos, ideias, pensamentos e impulsos dos personagens; é válido imaginar-se a influência dos estudos psicanalíticos realizados pelo autor em sua formação psiquiátrica, ele sabe que é através dos pequenos traços que se iluminam as atitudes, ações e comportamentos do ser humano, onde os valores dissolvem-se e perdem o sentido. Trata-se de uma leitura complexa onde o narrador semeia os vestígios e o leitor se converte em investigador. Resumo de “Os Ratos”: em apenas 24 horas intermináveis, Naziazeno pensa em solicitar a seu chefe o dinheiro de que necessita, mas aquele deixa-o a esperar por horas e nem comparece ao local de trabalho; enquanto aguarda seu superior, ele repara que algumas pessoas que transitam no escritório parecem ter patinhas ao invés de pés, e locomovem-se como ratos; depois, ele recorre a conhecidos que são corretores de imóveis e que poderiam adiantar-lhe algum dinheiro, mas aqueles disputam a comissão esperada entre eles mesmos, obrigando Naziazeno a ir de um lado a outro e sem resultado; como o horário de almoçar passa, ele tem fome, muita fome, mas não tem dinheiro para o almoço. Ele encontra um amigo, pede dez mil reis para comer algo, esse lhe alcança só cinco mil, nosso protagonista está zonzo de fome, pensa que a esta hora já não há mais nada de bom para comer, no restaurante em que entra, mas ao fundo do estabelecimento há uma roleta, ele aposta o dinheiro que ganhara e perde tudo, sai à rua, sob o sol, ele não tem mais noção do tempo. Sai andando sem rumo, e se depara com um senhor a quem já recorrera antes, explica-lhe suas dificuldades e solicita-lhe outro empréstimo, o qual lhe é negado; Naziazeno suplica, explica sua situação, mas o homem apenas diz que entende sua dificuldade, mas que não pode ajudar. Perdido mais uma vez, ele fica a andar sem rumo. Passa por ruas com pequenas construções, se depara com o rio e continua a vagar perdido. A tarde chega. No limite de seu desespero, ele consegue penhorar a joia de um amigo e resolve seu problema temporariamente. Compra presentes para a esposa e Mainho, seu filho, e vai para casa no início da noite. Ele deixa sobre a mesa da cozinha a soma que devia ao leiteiro. Após o jantar ele se deita, mas não consegue dormir, parece ouvir a ameaça do leiteiro, “Lhe dou apenas mais um dia”, tem pesadelos e pensa em ratos roendo seu dinheiro. Sua frio, ele tem a certeza de novas inquietações e angústias, pois ao amanhecer ele se deparará com as mesmas preocupações e dívidas e ao iniciar outro dia caminhará em busca de uma solução. Retomo, aqui, as últimas linhas do romance: “Um baque brusco do portão. Uma volta sem cuidado da chave. A porta que se abre com força, arrastando. Mas um breve silêncio, como que uma suspensão… Depois, ele ouve que lhe despejam (o leiteiro tinha, tinha ameaçado cortar-lhe o leite…) que lhe despejam festivamente o leite. (O jorro é forte, certamente vem de muito alto…) – Fecham furtivamente a porta… Escapam passos leves pelo pátio… Nem se ouve o portão bater… E ele dorme.”

A partir dessa sinopse, podemos afirmar que o tema da obra “Os Ratos” é a massificação do homem contemporâneo, sozinho na multidão, e onde o ser humano importa pouco, quase nada, talvez como um rato. E mais, o autor prima pela análise psicológica que apresenta o drama financeiro de um homem comum, que trabalha em uma repartição, cercado de pessoas preocupadas só consigo mesmas. Esse relato da história é feito em terceira pessoa por um narrador onisciente – ele tem um saber absoluto – e é praticamente invisível; as descrições são quase fotográficas, o que nos faz pensar em takes – tomadas – de filme; assim procedendo, essa forma de narração simula o estresse psicológico em que vive o protagonista da história, e por conseguinte, estabelece-se um campo de empatia entre o personagem e o leitor, e é assim que nós também nos sentimos atados em uma engrenagem que favorece alguns e que vitimiza outros muitos. No final do livro, percebemos que a saúde mental de Naziazeno está comprometida, ele não tem condições emocionais de resolver seu problema existencial, a saber, sua convivência com os “ratos”; também para nós, se refletimos um pouco, é muito difícil de tolerar todo o peso das situações mais pesadas e das criaturas que mais parecem ratos – e que agem como tais; eles são trapaceiros, corroem nossos melhores sentimentos e, em troca, provocam nossos piores pensamentos, e ainda por cima, eles procriam-se rapidamente. Restam-nos alguns pilares que nos sustentam e os quais devemos sempre preservar: nosso fortalecimento espiritual, seja através da busca contínua do saber, e também a incessante reflexão sobre nossa capacidade de mantermos atitudes racionais que nos favoreçam e que beneficiem nosso entorno social. Recomenda-se, sobre tudo para quem gosta, uma viagem na leitura, já que a vida real é insuficiente.

 

 

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