Ida Vitale, Louise Glück – Dois poemas

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Ida Vitale, Louise Glück – Dois poemas

 

Poesia, em grego antigo, é “poiein”, significa fazer, fabricar, construir: é um verbo, portanto; e verbo quer dizer a palavra que indica ação, situação ou mudança de estado; ela é elemento fundamental na expressão de um pensamento, na confecção de um diálogo. Nossa comunicação faz-se com palavras, com verbos, a partir dessa construção de ideias à qual chamamos, inicialmente, “poesia”. Já a palavra verso, por sua vez, expressa a linha de escrita ou ainda “virar” ou “dobrar”; mas por quê? Porque esta é uma metáfora que nos remete ao latim como idioma de agricultores: a comparação é com o ato de trabalhar a terra, quando o boi que puxa o arado completa um sulco e vira em sentido oposto para fazer outro paralelo a ele. Note-se que, em época do grego e do latim clássicos, escrevia-se até o fim da linha e depois se seguia embaixo, tal como o arado fazia. Essa maneira se chamava “boustrophedon” – ou bustrofédon – a saber, o processo de sulcar e preparar para a cultura, vincar ou marcar, por em destaque ou realçar; todas essas são palavras muito concretas, relacionadas com o ato de fabricar, de arar, de ir e voltar, até que se veja surgir aquilo que buscávamos, ou seja, um fruto palatável ou, em termos poéticos, um texto que exprima pensamentos ou sentimentos involucrados em uma composição com ritmo e sonoridade próprios e inéditos. Sim, a poesia cria, “fabrica” novidade porque ela expressa um novo olhar mesmo que seja sobre uma antiga realidade; é uma visão inédita sobre o que já vimos há tanto tempo. O inédito é um elemento essencial que compões a poesia. Na trilha do que dissemos, apresentamos hoje duas poetas – ou poetisas – que nos causam admiração, quer dizer, por elas temos respeito e sempre somos surpreendidos. Uma delas é uma senhora uruguaia, quarta geração de italianos, idade de noventa e cinco anos, Ida Vitale Cervantes, e a outra é uma autora americana, de origem húngara e judaica, com cerca de oitenta anos de idade, Louise Glück. Ida Vitale foi a ganhadora do Prêmio Cervantes de 2019, a mais alta distinção em língua espanhola, e Louise Glück foi distinguida com o Prêmio Nobel de Literatura de 2020. A primeira autora, além de poeta, é tradutora de obras literárias em francês e em italiano, ainda, ensaísta, crítica literária e também professora, nos Estados Unidos e no Uruguai. Já Louise professa classes nas Universidades americanas de Yale, Williams College, Boston, e Iowa. Antes de receberem o atual reconhecimento de Prêmio Cervantes e de Prêmio Nobel, respectivamente,  cada uma delas já havia recebido diversos prêmios literários da mais alta qualificação mundial. Em nosso texto, hoje, fazemos a difícil escolha de um poema de cada uma delas, para os apreciarmos com mais atenção. Apresento, aqui, o poema de autoria de Ida Vitale Cervantes, traduzido do espanhol para o português: “A palavra” – Expectantes palavras / fabulosas em si, / promessas de sentidos possíveis, / airosas,  / aéreas, / airadas / ariadnes. / Um breve erro / torna-as ornamentais. / Sua indescritível exatidão / nos apaga. Ida Vitale escreve, em seu poema “A palavra”, que estas são expectantes, quer dizer, que elas observam e aguardam porque elas são fabulosas, que elas criam narrativas pela imaginação que elas contêm, e que elas prometem outras realidades possíveis, dado que elas são gentis, sabem desenvolver seu voo leve como o ar, são tomadas, às vezes, de um desvario da busca e do entendimento das coisas e dos sentimentos, e ainda são muito puras, elas resistem a qualquer borrão de tinta. Coisa extraordinária: o menor erro transforma as palavras em figuras ornamentais; por outro lado, se esse deslize é cometido por nós, sua indescritível exatidão pode apagar-nos, ou seja, pode fazer desaparecer aquilo que contávamos escrever ou o que esperávamos expressar. Muito cuidado, então, com as palavras, parece que elas são dotadas de uma vida à parte de nós, alheias ao que “queríamos dizer”, e para que se evite qualquer conceito truncado, é necessário o exercício da exatidão, aquele que a boa e simples escritura nos outorga, se respeitamos os verdadeiros sentidos das palavras. Não misturar seus significados, não mascarar seus objetivos, não desprezar e logo fingir que “se disse algo” sem pensar. Como constatamos, as palavras são muito éticas, talvez, mesmo, mais que nós, seres humanos que vivemos em sociedade! A seguir, expomos o poema de Louise Glück, traduzido do inglês: “ O íris selvagem” – Ao final de minha dor / havia uma porta. / Escuta-me com atenção: o que chamas morte, / lembro-me. / Acima, ruídos, estalo de galhos de pinheiro. / Depois, mais nada. O sol pálido / tombou sobre a superfície seca. / É algo terrível sobreviver  / como consciência / enterrada na terra escura. / Então, acabou-se: o que temes, ser / uma alma e incapaz / de falar terminando de repente, a terra rígida / dobrando um pouco. E o que pensei que eram / pássaros saltando nos pequenos arbustos. / Tu que não te recordas / do passo em direção ao outro mudo, / te digo que eu poderia voltar a falar ; tudo isso que / regressa do esquecimento regressa / para encontrar uma voz: / do centro de minha vida surge / uma grande fonte, sombras / azul-escuro sobre água de mar azul. Louise Glück mostra-nos uma situação de fim da vida, mas de tal maneira que esta é superada; a autora causa-nos espanto ao falar de sua própria morte, e ainda nos diz que ela recorda-se daquilo e com detalhes, ela ouvira algum farfalhar de ramas, algum saltitar de pássaros, e logo após, tudo isso desaparece, o sol está a ponto de se pôr, e só naquele momento, ela dá-se conta de que está sozinha, “enterrada na terra escura”; então, compreendemos a verdadeira extensão de sua “dor”: é esta, agora, quando ela está consciente do esquecimento e de que não poderá voltar a falar; mas, neste exato instante, também alerta-nos para o retorno que encontrará “uma voz”: do núcleo que ainda resta, emerge um poema – sua “grande fonte” de vida e de resiliência,  e aquela é cercada de azul, não importando que ele seja sombrio, esta cor da pureza do céu estará para sempre presente! Assim como um “íris selvagem” é muito resistente, ele é igualmente bonito, impetuoso e delicado. Como vimos, a poesia revela-nos diferentes possibilidades de visão do mundo – deste e até do outro, porque ela consegue unir a realidade e a irrealidade em uma aparência repleta de fantasia.

 

 

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