Octavio Paz, 1914-1998
Autor libertário
Octavio Paz é um poeta, ensaísta e diplomata mexicano, considerado como um dos mais influentes autores do século XX e um dos maiores poetas de todos os tempos; obteve o Prêmio Nobel de Literatura em 1990 e o Prêmio Cervantes em 1981. Nasceu e morreu na Cidade do México, capital do país de mesmo nome; entretanto, durante boa parte de sua vida, percorreu diversos países e neles habitou por um certo período, seja devido a sua condição de diplomata, seja motivado por convites de autoridades ou ainda de reitores de universidades para proferir cursos de literatura. Já em meados de 1937, foi convidado a participar do Segundo Congresso Internacional de Escritores pela Defesa da Cultura, na Espanha, não em Madri, porque a cidade estava sob o regime franquista, mas em Valência, onde ainda se localizava a sede do governo republicano. Ainda em 1937, de Espanha se foi para França, lá permaneceu por alguns meses, em 1938 voltou à Espanha, onde foi cofundador de revista literária e sempre incentivador da cultura. Em 1943, recebeu uma bolsa de estudos da Fundação Guggenheim e iniciou seus estudos na Universidade da Califórnia, Berkeley, nos Estados Unidos. Dois anos depois, em 1945, começou a servir como diplomata mexicano e foi destinado à França, onde permaneceu até 1951, e onde conheceu diversos poetas surrealistas, então a corrente poética da moda; durante essa estada, publicou estudos e ensaios antropológicos sobre o pensamento e a identidade mexicanos. De janeiro a março de 1952, trabalha na embaixada mexicana na Índia e depois, até o início de 1953, exerce suas funções no Japão. Regressa ao México e dirige a Secretaria de Relações Exteriores. Nos anos de 1954 e 1955, participou ativamente na fundação de revistas de literatura, tanto no México, como em França. Em 1959, retorna a Paris, e três anos mais tarde, em 1962, é indicado Embaixador na Índia. Em 1968, estava em Nova Délhi quando houve uma rebelião de estudantes, na capital do México, com consequências trágicas, com muitos feridos e muitos mortos; devido a esse fato, e revoltado por isso, Octavio Paz renuncia a seu cargo diplomático na Índia. Nos próximos anos, trabalha ensinando em diversas universidades americanas, como as do Texas, Austin, Pittsburgh, Pensilvânia e em Harvard. Sempre participa da criação de publicações culturais e, entre elas, a revista “Volta”, em 1976, na qual denuncia as violações dos direitos humanos de regimes autoritários. Após sua morte, em 1998, sua casa transforma-se na sede da Fundação Octavio Paz, a qual abriga sua vasta e valiosa biblioteca. Esses são dados sobre a vida e a obra do autor; a partir de agora, dedicamos nosso espaço a uma pequena mostra da poesia de Octavio Paz. Para o autor, a poesia é a forma natural de convivência entre os homens; nela, ele realiza sua crítica e seu consequente diálogo aberto com o mundo, e seu objetivo é a busca de identidade da natureza humana na multiplicidade de signos; esta característica autoriza-nos a pensar que seus poemas, além da estrutura poética, também estão na ordem da antropologia. Octavio Paz é poeta e crítico das civilizações e, para ele, mesmo aquelas que estão mortas, na realidade, ao contrário, permanecem vivas porque seus signos circulam nessa combinação de sentimentos e símbolos de um universo histórico; como isso pode acontecer? O próprio autor nos diz, em sua coletânea “Liberdade sob palavra”, de 1949, que seu compromisso é verbal e, consequentemente, como tudo é linguagem, tudo significa, tudo compõe uma nova realidade. A seguir, destaco alguns poemas curtos, por exigência do espaço gráfico. O primeiro, “Destino do poeta”: Palavras? Sim. De ar / e perdidas no ar. / Deixa que eu me perca entre palavras, / deixa que eu seja o ar entre esses lábios, / um sopro erramundo sem contornos, / breve aroma que no ar se desvanece. / Também a luz em si mesma se perde. Neste primeiro poema, identificamos o reconhecimento da fuga do tempo, da tentativa de apreensão e eternização do mesmo, a identificação do poeta com a natureza e, finalmente, a concordância com o momento terminal. O segundo, “Irmandade”: Sou homem: duro pouco / e é enorme a noite. / Mas olho para cima: / as estrelas escrevem. / Sem entender compreendo: / Também sou escritura / e neste mesmo instante / alguém me soletra. Aqui, presenciamos o abandono de uma individualidade na imensidão do universo e também a racionalidade que se esvai e finalmente a compreensão emocional do poeta, de novo sua identificação com o mudo, muito mais vasto que uma simples personalidade. Passamos, enfim, ao terceiro, sob forma de extratos, “Vento, água, pedra”: A água perfura a pedra, / o vento dispersa a água, / a pedra detém ao vento. / Água, vento, pedra. / […] Um é outro e é nenhum: / entre seus nomes vazios / passam e se desvanecem. / Água, pedra, vento. Aí temos uma síntese da “irmandade” do autor com o mundo e a expressão perfeita de que é nele que nos diluímos, e que os elementos – naturais e humanos – se desvanecem no tempo. Mas não se perde na poesia de um autor que se abandona e compreende a finitude dessa maneira; a poesia de Octavio Paz oferece-nos uma visão fluida e ao mesmo tempo intensa da realidade e de nossa participação nesse cosmos; ele não só é um excelente escritor, como poeta e ensaísta, mas da mesma forma destaca-se como um investigador da linguagem, além de ter sempre procurado introduzir em seus escritos o pensamento crítico e a defesa dos direitos das pessoas. Saudamos Octavio Paz – por toda sua obra e seu intento contínuo de humanização – como um autor libertário!
