Luigi Pirandello, 1867 – 1936
Seis Personagens à Procura de Autor, 1921
“Seis personagens à procura de autor” é o título de uma tragicomédia de autoria do escritor italiano Luigi Pirandello. Uma tragicomédia, como o próprio nome indica, é uma representação teatral que contém elementos trágicos e, igualmente, passagens cômicas; esse tipo de teatro teve seu início com Aristóteles, no século IV a.C., depois progrediu durante o Renascimento europeu e, finalmente, foi revalorizado durante o século XX. Pirandello foi um intelectual brilhante, além de escritor também foi poeta, romancista e, sabemos, dramaturgo; sua obra foi recompensada com o Prêmio Nobel de Literatura em 1934. Nasceu na Sicília, o arquipélago e região localizados no extremo sul da Itália, em uma peque cidade chamada Caos, o que nos permite pensar em calamidade, confusão, desordem dos elementos naturais da vida. Entretanto, nada disso ocorre na vida pessoal do autor; ele foi um compenetrado aluno do Liceu de Letras, na Sicília, depois aperfeiçoou seus estudos literários na Universidade de Bonn, na Alemanha, especialmente dedicado à obra de Goethe, e foi um destacado professor de Estilística por trinta anos, no Instituto Superior do Magistério, em sua terra natal. Sempre escreveu poesias, a saber, desde seus treze anos de idade, e a primeira edição de seus contos, a qual ocorreu em 1922, reúne escritos produzidos a partir de 1894, sob o título de “Contos para um ano”, visto que o volume contém duzentos e quarenta e um contos; ainda escreveu romances em que explora a perda e a consequente busca da identidade (“O finado Matias Pascal”), assim como a dupla versão da verdade, vista de um ângulo em que a consideração de um descontrole psiquiátrico não está descartado (“Assim é se lhe parece“); mais adiante, o tema da loucura é exposto em seu livro histórico “Henrique IV”, e, finalmente, deparamos com seu romance mais célebre, “Um, ninguém, cem mil”, do qual faz parte uma carta autobiográfica em que Pirandello define seu livro como “a descrição mais amarga e a mais profundamente bizarra da decomposição da vida”! Damo-nos conta de que o autor navega em águas profundas e que lá ele recolhe os temas mais espessos e arraigados, frequentemente evitados devido a suas possíveis e incômodas revelações. Confesso que já não estou tão tranquila quanto à influência do nome de sua vila natal, Caos, mas por enquanto, este epônimo só se realiza nos temas dos textos do autor, porque este necessita de muita lucidez para tratar de assuntos tão complexos. Finalmente, duas peças teatrais preenchem a parte mais destacada de sua obra, “Esta noite, improvisamos”, história de um diretor de teatro cujos intérpretes recusam-se a trabalhar conforme seu comando, a eles isso não os agrada, e o diretor termina por ir-se, ficando em cena somente os rebeldes atores; há, ainda uma outra obra teatral, a mais importante de toda a trajetória de Pirandello, a tal ponto que, quando se diz seu nome, o reconhecemos em primeiro lugar, como o autor de “Seis Personagens à Procura de Autor”. É possível que Pirandello tenha escrito um texto sobre teatro, em que aquele que dirige seus intérpretes acaba por receber seis personagens que procuram seu tutor? Passemos ao resumo da peça: em um palco de teatro, o maquinista chefe ou técnico instala o cenário da peça “O jogo dos papeis” (outra obra de Pirandello), a qual será ensaiada pelo elenco. O diretor chega para o ensaio. Enquanto este organiza os detalhes com seus atores, seis personagens chegam; trata-se de uma família inteira, contando com a mãe, o pai, a nora, o filho, o jovem adolescente e a filha ; por sua vez, “os intrusos” estão à procura de um autor para que este escreva a peça deles; são seis personagens que escondem, cada um e todos eles, um drama especifico sob uma aparente tranquilidade. Estes intérpretes inesperados interpelam o diretor para que ele leve à cena o drama deles e mais, eles mostram-se descontentes com a interpretação dos atores a propósito de seus personagens. Mas o que eles alegam? Eles afirmam que não foi daquela maneira que eles viveram as situações encenadas e que não se trata de ficção, mas sim de sua realidade. Acrescentam que os atores não podem ser verdadeiros porque eles não existem como personagens: trata-se de teatro, não passa de uma imitação! É claro que personagens e atores terminam por se indispor violentamente, e o que está em jogo é a querela entre a realidade da ficção e a veracidade dessa encenação. Finalmente, os personagens terminam por interpretar, eles mesmos, suas próprias cenas já vividas anteriormente como seus fatos reais. Dessa forma, sejam atores, sejam personagens atrevidos, mais ninguém detém em seu poder a verdade. Tudo se transforma em caos. (Mais uma vez, sinto que esta palavra parece estar atrelada ao lugar de origem do autor!) O diretor se vai e, a sua saída, permanecem na tela de fundo do palco, as silhuetas dos personagens, o que nos permite pensar que toda aquela encenação tem um fundo de verdade, e mais, que a arte também é uma verdade – artística, naturalmente! Ressaltamos que as discussões entre os personagens e o diretor compõem uma análise filosófica do teatro, assim, o peso desta peça de Pirandello divide-se entre a narrativa em si e os aspectos paratextuais que ganham a cena, a saber, há um texto novo que acompanha o texto principal, e é isso precisamente que faz eclodir o elemento risível em uma situação dramática. Diretor e personagens discutindo constroem também um debate de formas de fazer teatro; a partir deste momento, a peça entra, assim, em um outro aspecto: torna-se um estudo metalinguístico do teatro, isto é, a arte discutindo a si mesma. A forma de representação proposta pelo diretor não é aceita pelas personagens. Afinal, como alguém poderia representar melhor a vida de um personagem do que ele próprio? Esta obra de Pirandello repercutiu fortemente à época em que estreou, provocando inicialmente incompreensão porque era algo inédito, mas a seguir foi altamente considerada como uma inovação genial. Todo nosso texto narra uma situação fictícia, posto que teatral; entretanto, poderíamos questionar nossa atuação na assim chamada “vida real”, em que tantas vezes somos obrigados a acatar uma direção, mesmo que desvirtuada, e que nos acomodamos a ser personagens em busca de um autor. Assim é este nosso teatro cotidiano.
Um abraço para todas e todos que encaram uma representação insatisfatória e, a seguir, propõem ser personagens atuantes de suas próprias vidas.
