O Admirável Mundo Novo, 1932 – Aldous Huxley, 1894-1963

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O Admirável Mundo Novo, 1932

Aldous Huxley, 1894-1963

 

Aldous Huxley nasce na Inglaterra, em uma família que se destaca pela inteligência e pela dedicação às ciências, sendo seu avô paterno, Thomas Henry Huxley, considerado como um dos mais importantes cientistas do século XIX, próximo de Darwin, e ainda seu irmão, Julian, é reconhecido por seus estudos sobre a teoria da evolução; já a família de sua mãe é mais dedicada à literatura. Ele é autor de aproximadamente setenta obras, entre romances, ensaios, poemas e duas óperas, mas sua produção mais importante – e impactante – é o romance de pouco mais de 300 páginas, intitulado, em português, “O Admirável Mundo Novo, lançado em sua pátria em 1932 e publicado no Brasil no mesmo ano, edição da Livraria do Globo, de Porto Alegre, com tradução de Lino Vallandro. Tradicionalmente, afirma-se que se trata de uma obra de “antecipação distópica”, o que significa dizer que seu conteúdo lida com uma situação imaginária em que as pessoas são submetidas a condições de extrema opressão, desespero ou privação, acrescentando-se que um tal texto configura-se como a antiutopia, a saber, o contrário de um local onde tudo é perfeito ou ideal. Pois bem, já o título de “admirável mundo novo” é carregado de ironia, pois inspira-se no pensamento expresso pelo personagem “João, o  Selvagem”, de Shakespeare, em sua peça “A Tempestade” (1610-1611), e ainda, segundo afirmam analistas do romance, este é também partícipe da crítica mordaz que Voltaire proporciona em seu clássico “Cândido ou o Otimismo” (1759), o qual nos expõe os acontecimentos que ocorrem no “melhor dos mundos”. O resumo do romance de Aldous Huxley é o seguinte: a história começa em Londres, no ano “632 de Nosso Ford” (o calendário gregoriano fora alterado e substituído pela versão que leva o nome do industrial americano – à semelhança de “Lord” que, em inglês, significa “Deus”, entre outras acepções – e os primeiros acontecimentos ocorrem no centro de incubação e de condicionamento de Londres-central; nesse ambiente cinzento e sombrio vive a maioria das pessoas, sendo que para os selvagens é destinado viverem em reservas naturais, eles são separados dos seres humanos produtivos e vivem como párias no mundo natural, sob o sol e a chuva, o que não é permitido aos demais habitantes do mundo “civilizado”. O ensino da história é considerado inútil, nessa sociedade, ela dispensa as datas e seu conhecimento é mínimo, só o suficiente para rejeitá-la; também, todos os aspectos de individualismo ou de pensamento autônomo é condenado, e a cultura é arduamente – e ardentemente – combatida por todos. A propósito, uma pessoa que pretendesse ser autora de um texto, ou alguém que ousasse escrever um poema, seriam rude e definitivamente excluídos desse “admirável” mundo. Também a religião é interditada, e as pessoas são reunidas durante o culto exclusivamente para serem submetidas a um cântico encantatório, onde todos parecem dominados por um Mestre-cantor comunitário oficial, isso quer dizer, todos repetem obedientemente o que ele prega. Nesta sociedade, a reprodução humana é controlada e os seres são criados em laboratório, os fetos aí evoluem e são cuidadosamente separados segundo a perfeita eugenia; esta seleção processa a quantidade exigida de humanos que serão mandatários, em contraposição àqueles que serão trabalhadores necessários aos diversos segmentos de produção; alguns são criados como uma raça superior, e os demais constituem a força de trabalho previamente determinada. Os membros das castas inferiores são produzidos em série, utilizando-se um procedimento de divisão celular e estes, juntamente com os demais, os superiores, uma vez chegados à infância, os jovens humanos recebem um ensinamento hipnótico que permanece incrustado no subconsciente de cada um. Novamente e a tempo: essa situação provoca-nos o pensamento similar de algumas pessoas quanto ao efeito mágico de aparatos portáteis sobre suas mentalidades: a realidade desaparece, assim como o raciocínio, e só permanece o que nos é exposto naqueles objetos, seja verdadeiro ou não. Ainda no romance “O Admirável Mundo Novo”, e para complementar a produção dessa “humanidade de rebanho”, o líquido chamado “soma” é distribuído a todos e seu consumo é obrigatório, já que ele lhes traz a paz, mesmo se artificial; ele  provoca uma sonolência paradisíaca e iguala a todos em sua inconsciência prazerosa. Quanto à divisão dessa sociedade em castas, mais precisamente, ela é separada em cinco categorias: as castas superiores, compostas primeiramente pelos Alfas, programados para serem altos, bonitos e inteligentes, e secundariamente pelos Betas, os quais são trabalhadores inteligentes e feitos para ocupar funções importantes; já as castas inferiores são os Gamas, uma classe média e popular, depois vêm os Deltas e os Ípsilons, destinados aos trabalhos manuais e inferiores. Cada uma dessas castas ainda é dividida em duas subcastas, os Mais e os Menos, e elas existem somente com o objetivo de manter o sistema social em estabilidade. Todos os membros desse mundo fascinante são obrigados a participar da vida em sociedade, sendo a solidão considerada uma atitude suspeita. Entretanto, João, o personagem de quem falamos inicialmente, é um selvagem, ele vive à parte desse agrupamento de seres escravizados por um pensamento único, emitido por um líder autoritário que domina tudo e todos e, como já sabemos, ele habita a natureza sozinho e não vive na cidade cinzenta e opressora; pois bem, esse personagem, no capítulo final, tenta isolar-se das pessoas, ainda mais, refugiando-se no interior de um velho farol de navegação aérea, abandonado na periferia da grande aglomeração urbana. Tal situação atiça, sobremaneira, a curiosidade de todos, intrigados por essa conduta inabitual. No final do romance, ao amanhecer, João dá fim à própria vida, enforca-se na escadaria  do farol. É interessante ressaltar a função metafórica desse farol, procedimento significativo do autor, pois aquele é, por definição, um foco luminoso que orienta – sejam os navios, ou, neste romance, poderiam ser as pessoas, perdidas nessa noite de ignorância e opressão criminosa. Esta obra de Huxley figura entre os primeiros lugares de uma lista dos cem melhores romances em língua inglesa do século XX, estabelecida por especialistas da instituição literária chamada Modern Library, de Londres, em 1998, juntamente com “1984”, de George Orwell, publicado em 1949, e “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, editado em 1953. Esta é, indiscutivelmente, uma obra que causa medo, é aterrador pensar nesse tipo de sociedade, descrita dessa forma, e mais ainda, quando nos damos conta de que poderemos vivenciar algo semelhante daqui a pouco, ou ainda pior, se é que isso já não ocorre, com todas as barbaridades e os despropósitos irracionais que nos cercam, a todo momento. Huxley, quinze anos depois de publicar seu livro, expressou seu profundo desgosto pelos acontecimentos precipitados que pareciam ter saído de seu texto e saltado para a realidade. Cabe a nós, e a mais ninguém, o trabalho de transformação deste nosso atual e terrível mundo em um possível, racional e amigável – esse sim – admirável mundo novo.

 

 

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