Natal
Boas Festas!
O Natal é a festa do nascimento de Jesus, quando comemora-se, portanto, seu nascimento ou sua primeira aparição, a manifestação inicial de sua divindade. Destacamos, aqui, os dois planos dessa data, a saber, seu lado terreno, aquele em que homenageamos sua vinda com uma reunião familiar e de amigos em volta da ceia natalina, com troca de presentes, e ainda um outro nível, este, agora, exclusivamente na esfera espiritual. Nem sempre esta festa cristã teve sua data demarcada definitivamente, mas a partir dos séculos IV e V de nossa era, ficou determinado o dia 25 de dezembro para sua celebração, primeiramente na Igreja ocidental e posteriormente, na Igreja oriental, sendo que a natividade é descrita no Novo Testamento da Bíblia. A data de 25 de dezembro foi escolhida pelas autoridades eclesiásticas com base no solstício de inverno, quando o sol encontra-se mais distante do Equador, em relação ao hemisfério norte. E por que essa preferência de época do ano? Porque Jesus Cristo é apresentado como o “sol da justiça”, o começo de uma nova era, e seu nascimento manifesta-se, assim, como a abertura do ano litúrgico, a partir da missa da meia-noite, a qual compõe o ritual de revelação “daquele que veio para nos salvar”. Ressalte-se que a narrativa evangélica sobre o nascimento de Jesus serviu durante séculos, e continua sendo propícia a uma base de grande riqueza artística, seja na pintura, ou escultura, ainda na música ou na literatura; já na Idade Média, a partir do século XII, por exemplo, a celebração religiosa é acompanhada de dramas litúrgicos, os chamados “Mistérios”, os quais colocam em cena a adoração dos pastores ou a procissão dos magos, sendo que essas apresentações são realizadas incialmente dentro da igreja, e depois, no adro ou espaço externo localizado em frente à mesma. Foi também essa constante exposição eclesiástica que reforçou o imaginário popular do presépio, a partir do século XIII e de grande difusão a partir do século XIX. O presépio concretiza a cena do nascimento de Jesus assim como descrito no Novo Testamento, acompanhado de alguns símbolos populares que a ele foram acrescentados: é colocado sobre uma mesa – e às vezes sobre o próprio solo – e ali vemos um estábulo em miniatura e a seu redor estão dispostos os seguintes personagens, a mãe e o pai do Menino Jesus, os pastores reunidos a seu redor e os animais que os acompanham, as ovelhinhas, o burrico que transportou Maria, e o boi que ocupava aquela manjedoura; eventualmente, naquele espaço, acomodam-se os anjos que anunciaram seu nascimento aos pastores; mais adiante, foram acrescentados os três Reis Magos que teriam vindo visitar Jesus logo após seu nascimento. Deve-se o primeiro presépio a Francisco de Assis, realizado em 1223, com seus personagens encarnados por pessoas reais. Já no século XX, em plena Idade Moderna, surge uma outra figura que serve de referência para as festividades da temporada, a saber, o Papai Noel, aquele simpático senhor de barba branca e de grande manto vermelho, o qual carrega os presentes para as crianças; torna-se evidente que a partir de então não mais estamos tratando do lendário nascimento de Jesus, mas – e ao contrário – referimo-nos a um ritual absolutamente “pagão” de puro interesse comercial; esta é a realidade, a tradição do Papai Noel que se propaga pelo mundo, completa essa dimensão profana à festividade evangélica, e o que temos, atualmente, é que o Natal secularizou-se e não é mais necessariamente celebrado como uma solenidade cristã. Mas voltemos às origens, e pensemos naquela manifestação de “abertura” ou cerimônia de inauguração, ou seja, em que se inicia a nomear aquilo que até então não tinha um nome; isso corresponde a dizer às pessoas que elas tinham alguém que se importava com elas, que as assistia em suas angústias e necessidades, e que esse espírito encarnara-se em um menino pobre e depois em um homem que morrera por elas, daí seu epíteto de Jesus Cristo, aquele que salva, segundo a fé cristã. A palavra Natal já nos revela muito, ela tem sua etimologia no termo “nascer”, “dar nascimento a alguém”; em latim, temos “natus” e a seguir “natalis”, isto é, o “dia do nascimento”, do advento ou da chegada de Jesus; em alemão, temos Weihnachten, o que se poderia traduzir literalmente como “nas noites sagradas”, pois no século III, em que essa palavra foi usada pela primeira vez no sentido de “nascimento de Jesus”, era no solstício de inverno que se organizavam as festas sagradas. Destaque-se, ainda, que durante os três primeiros séculos de sua existência, a Igreja cristã não se preocupara em celebrar o nascimento de Jesus, do qual, a rigor, ela ignorava a data; a primeira menção de tal festividade em 25 de dezembro aconteceu no ano 336, em Roma, sob a égide do papa Marcos e durante o império de Constantino I, e assim fazendo, o cristianismo torna-se um dos cultos e uma das religiões do Império romano do Ocidente, sediado em Roma; somente em 425, o imperador romano do Oriente, Teodósio II , codifica oficialmente as cerimônias da festa de Natal. Ficamos curiosos por saber de quem partiu a informação consagrada como a data de nascimento de Jesus; consta que foi de Hipólito de Roma – ou santo Hipólito – um sábio e teólogo que viveu entre os anos 170 e 235; segundo o papa Bento XVI, Hipólito de Roma teria sido o primeiro a afirmar com clareza que Jesus nasceu em 25 de dezembro, em seu comentário sobre o livro do profeta Daniel, o qual foi escrito em 204, aproximadamente.
Assim, amigos leitores, de uma forma ou de outra, ou seja como um simples momento de encontro de afetos, ou seja como um raro instante de afirmação da fé, deixemo-nos deslumbrar nesse período do ano, vamos permitir que o encantamento de estarmos vivos e conscientes nos desperte admiração e nos leve a pensar nos muitos “nascimentos” possíveis que podemos realizar na confirmação de nossa humanidade.
Quando lerem este texto, as festividades de Natal já terão passado, por isso expresso aqui meus votos de muita saúde, compreensão e paz no ano de 2021, e que este seja generoso para conosco.
A todas e a todos, Boas Festas!
