Romanceiro da Inconfidência, 1953 – Cecília Meireles, 1901-1964

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Romanceiro da Inconfidência, 1953

Cecília Meireles, 1901-1964

 

Cecília Meireles é uma poetisa, professora, jornalista e pintora brasileira, e é a primeira voz feminina de grande expressão na literatura de nosso país, com acima de cinquenta obras publicadas; embora mais conhecida como poetisa, deixou contribuições no domínio do conto, da crônica, da literatura infantil e do folclore. Ainda muito jovem, participa do grupo católico que edita a Revista Festa e, com dezoito anos de idade, após sua formatura pela Escola Normal do Rio de Janeiro, estreou com o livro “Espectros”, publicado em 1919; trata-se de uma coleção de dezessete sonetos de influência marcadamente simbolista, retratando temas históricos ou religiosos. Sabemos que o simbolismo, corrente artística oriunda de França em fins do século XIX, propõe a oposição ao realismo, ao naturalismo e ao positivismo, servindo-se fartamente de metáforas e de temas como os anjos, a morte, enfim, tratando do irreal em suas obras ou de tudo que se refira à espiritualidade; esta característica inicial reproduz-se, mais adiante, e a subjetividade constituirá, para sempre, um dos fundamentos da composição poética de Cecília. Após sua formatura, estuda música e línguas, e passa a exercer o magistério em escolas oficiais do Rio de Janeiro; já em 1922, por ocasião da Semana de Arte Moderna, ela participa de grupos de escritores que defendem a preservação de certos valores tradicionais da poesia e o universalismo, ou seja, a ideia de que a literatura se dirija a todos ou abranja a totalidade das pessoas e não somente um grupo em particular. Cecília Meireles aprofunda seus estudos de literatura, folclore e teoria educacional; colabora na imprensa carioca escrevendo sobre costumes, lendas, tradições e manifestações artísticas em geral, atua como jornalista em 1930 e 1931, e publica vários artigos sobre educação, sendo que, em 1934, institui a primeira biblioteca infantil no Rio de Janeiro; seu interesse pela educação transforma-se em livros didáticos e poemas infantis. Em seu trabalho como professora, Cecília leciona Literatura Luso-Brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro, entre 1936 e 1938, e no ano seguinte, seu livro de poemas “Viagem” recebe o Prêmio de Poesia, da Academia Brasileira de Letras. Em 1940, ela visita os Estados Unidos, México, Argentina, Uruguai e Chile, e leciona Literatura e Cultura Brasileira na Universidade do Texas, a seguir, profere conferência sobre Literatura Brasileira em Lisboa e Coimbra, e ainda publica, em Lisboa, o ensaio “Batuque, Samba e Macumba”, com ilustrações de sua autoria. Logo após essa atividade tão produtiva, já em 1942, a autora torna-se sócia honorária do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, e a partir de então, e nos anos seguintes, realiza várias viagens aos Estados Unidos, Europa, Ásia e África, fazendo conferências sobre Literatura, Educação e Folclore. Como jornalista, suas colunas escritas como crônicas, quer dizer, que refletem o cotidianeno em sucessão de tempo, concentram-se mais na educação, mas também em suas viagens ao exterior no hemisfério ocidental, destacando-se Portugal, e compreendendo igualmente outras  partes da Europa, e ainda Israel e Índia, sendo que neste país ela recebe um doutorado honorário da Universidade de Delhi, por seu trabalho de tradução de poemas de Rabindranath Tagore, o polímata bengali ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, em 1913. Ressaltamos que além de poeta e jornalistista, Cecília também tem uma renomada carreira de tradutora literária, pelo que recebe mais de um prêmio e reconhecimentos internacionais; ela conhece inglês, francês, italiano, russo, hebraico e dialetos do grupo indo-iraniano, tendo aprendido o sânscrito e hindi; dentre as obras vertidas por ela ao português, destacam-se as traduções de poemas de Rabindranath Tagore, ao qual já nos referimos, além de Charles Dickens, François Perroux, Alexandre Pushkin, Rainer Maria Rilke, os livros “Orlando”, de Virginia Woolf, “Bodas de Sangue”, a peça teatral de García Lorca, e antologias de poesia hebraica e chinesa, esta última constituída por poemas de Li Po e Tu Fu, ambos do século VIII de nossa era. Como poeta, mais especificamente, Cecília Meireles nunca esteve filiada a nenhum movimento literário; sua poesia, inicialmente, apega-se às tradições da lírica luso-brasileira, e ela mostra-se consciente de seus dons e seu destino nesta estrofe definitiva: “Eu canto porque o instante existe / e a minha vida está completa. / – Não sou alegre nem sou triste: / sou poeta.” Mais tarde, a partir de seu livro “Viagem”, de 1939, a autora ingressa no espírito poético da escola modernista e brinda-nos com uma cuidadosa seleção vocabular e o verso curto, no poema “Música”: “Noite perdida / Não te lamento: / embarco a vida / No pensamento, / (…) / Noite perdida, / noite encontrada, / morta, vivida (…)”. Cecília ainda pratica a poesia reflexiva, de fundo filosófico, que aborda a transitoriedade da vida, em “Motivo da Rosa”, onde ela nos ensina o seguinte: “Vejo-te em seda e nácar, / e tão de orvalho trêmula, / que penso ver, efêmera, / toda a Beleza em lágrimas / por ser bela e ser frágil. (…)”. A seguir, chegamos ao momento de sua poesia histórica, ou seja, atingimos sua obra máxima, o poema épico-lírico “Romanceiro da Inconfidência”, calcado sobre os fatos reais da chamada Inconfidência ou Conjuração Mineira, versos nos quais encontram-se os maiores valores de sua poética e deparamo-nos com sua construção ímpar na língua portuguesa. Já “Romanceiro” é o termo que se usa para indicar um conjunto de romances e um romance é o gênero literário que trata de obras de caráter narrativo e poético. Neste caso, trata-se de uma narrativa rimada, escrita em homenagem aos heróis que lutaram e morreram pela Pátria: “Atrás de portas fechadas, / à luz de velas acesas, / entre sigilo e espionagem / acontece a Inconfidência. / E diz o vigário ao Poeta: / ‘Escreva-me aquela letra / do versinho de Virgílio…’ / E dá-lhe o papel e a pena. / E diz o Poeta ao Vigário, / Com dramática prudência: / ‘Tenha meus dedos cortados, / antes que tal verso escrevam…’ / Liberdade, Ainda que Tarde, (…)”. Vale lembrarmos que a Inconfidência mineira foi uma conspiração de natureza separatista que ocorreu na então capitania de Minas Gerais, entre outros motivos, contra a execução da derrama, a qual significava a arrecadação de 20% de todo o ouro do Brasil, e que era direcionado à Coroa portuguesa; sua repressão ocorreu em 1789. A poetisa – ou poeta – como preferia ser chamada, recebeu incontáveis prêmios e homenagens pela importância de sua obra grandiosa, mas cabe a mim, modestamente e no espaço deste texto, ressaltar sua importância em nosso país, aparentemente tão descuidado da educação de seu povo. Além de ter seu nome como canônico, ou seja, básico e normativo da cultura brasileira, e de ser julgada como uma das grandes poetas da língua portuguesa e ainda amplamente considerada a melhor poeta do Brasil, devo salientar o que considero suas características sem par, a saber, sua simplicidade no tratamento das frases ou versos, e sua sensibilidade no desvelamento da realidade cotidiana. Um bom exemplo dessas qualidades constitui seu poema “Leilão de jardim”, o qual faz parte da coletânea “Ou isto ou aquilo”, lançada em 1964. Resumidamente, a autora nos diz: “Quem me compra um jardim / com flores? / Boboletas de muitas / cores, (…) Quem me compra um raio / de sol? (…) / (Este é meu leilão!)”. Tão singelo, e ainda assim ela nos indica que esses elementos da natureza, tão “pobrinhos”, não podem ser negociados, não há energia artificial que substitua um raio de sol, não há jogo eletrônico que ocupe o lugar dos pássaros e das borboletas; quantas vezes essas criaturas passam por nós e não reparamos, outras tantas somos aquecidos pelos raios de sol e não damos valor a eles. A poesia de Cecília estimula a imaginação e nos apresenta o recurso que de forma segura, é um aliado no aprendizado e que vai além da literatura: saber valorizar o que realmente é importante para nós, reconhecer que a natureza não está à venda, não há “leilão” que a compre, e que todos nós dependemos dela para sobreviver e para continuar nosso exercício humano da comunicação.

 

 

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