Akira Kurosawa, 1910 – 1998
Akira Kurosawa nasceu em Tóquio, em 1910, e morreu na mesma capital, em 1998. Ele é um diretor de cinema ou realizador, produtor, roteirista e montador, quer dizer, ele faz a montagem das cenas dos filmes. É considerado como um dos cineastas mais célebres e influentes da história da indústria cinematográfica mundial; sua técnica e genialidade artística são reconhecidas tanto no Oriente como no Ocidente; em cinquenta e sete anos de carreira, ente 1936 e 1993, ele realiza mais de trinta películas. Começa em 1936, como assistente de direção e roteirista, isto é, ele escreve o que será filmado. Em 1943, em plena Segunda Guerra mundial, ele realiza seu primeiro filme, “A lenda do grande judô”; daí em diante, destacamos somente algumas de suas obras mais marcantes. Em 1950, dirige “Rashomon”, filme onde quatro pessoas apresentam versões diferentes do mesmo fato: a história desenrola-se inicialmente em um bosque, onde um lenhador descobre um corpo e, a seguir, é aberto o inquérito e logo o processo; o primeiro depoimento é o de um bandido que confessa ser ele o autor do assassinato; a seguir, surge a mulher e diz ter sido ela quem matou seu marido; depois, a médium que frequenta um templo próximo, diz receber informação vinda do além, em que o morto afirma ter-se suicidado; finalmente, reaparece o lenhador que afirma ter sido somente testemunha da cena e que nada fizera para socorrer a vítima. Cabe àqueles que assistem ao espetáculo decidirem quem é o culpado! Esta é uma película que começa a atrair a atenção dos espectadores: suas cenas são fortes, carregadas de emoções até contraditórias, às vezes, e o enfoque técnico é dotado de uma perfeição ímpar, sendo que sobra sempre um ar de epopeia nas realizações de Kurosawa porque seus filmes apresentam uma sucessão de eventos extraordinários e surpreendentes. Quanto a estas características, é lançada, em 1954, uma das obras-primas do realizador, “Os sete samurais”, filme altamente impactante, devido às ações gloriosas e retumbantes de seus personagens, capazes de provocar a admiração de todos. Esta película recebeu a láurea do reconhecimento de diversos festivais cinematográficos, seja na Inglaterra, na Itália, na França, nos Estados Unidos, e mesmo em Finlândia; seus temas ultrapassam as divisões espaciais ou temporais, eles são universais e sempre atuais. O heroísmo é um tema central que o autor trata confrontando um pequeno grupo de homens corajosos no centro de uma cidadezinha cuja comunidade é relativamente egoísta; e é esta aldeia que eles socorrerão. Pela primeira vez, em uma película cujo tema compreende os samurais, estes vão servir não mais aos senhores, mas sim às pessoas de baixa condição social, abordando, assim, a solidariedade estendida até os desprovidos; dessa forma, Kurosawa alia a tradição à modernidade. Finalmente, os samurais defendem e salvam a população daquele local do ataque de bandidos que dizimavam tudo, todas as plantações de arroz e matavam todas as pessoas. “Os sete samurais” é frequentemente citado como um dos melhores filmes da história. Por outro lado, ou melhor, complementando a trajetória desse realizador, dedicamos também algumas linhas a sua obra “Rapsódia em agosto”, lançada em 1991, sendo esta sua penúltima película. Devo confessar minha predileção por esse “poema” narrativo de um fragmento épico de seu país natal, o Japão. Desde o título já temos nossa atenção atraída pelo mês que aí consta, agosto, o qual, na civilização japonesa, remete à época em que foram lançadas bombas atômicas sobre o Japão, durante a Segunda Guerra mundial, partindo dos Aliados e com o intuito de término da guerra, e essas bombas tombaram mais especificamente sobre Hiroshima, em seis de agosto, e dois dias depois, sobre Nagasaki, ambas ao sul do país. Resumindo: todos os anos, os netos da senhora Kane, sobrevivente dessa tragédia, encontram-se para passar as férias na casa da avó, em Nagasaki. Nesse verão de 1990, eles recebem também seu primo vindo de um dos cinquenta estados americanos, o Havaí. A avó tem seu único irmão casado com uma americana, e lá ele é um produtor de abacaxis. Desenrola-se uma história repleta de lembranças, é claro, mas igualmente plena de poesia e de delicadeza. As tomadas de cena são muito refinadas, como é também a compreensão histórica de seu diretor; é muito agradável ao espectador poder seguir aquela narração particular dentro de um universo de maldades e de incompreensões sectárias; o filme escapa de tudo isso, ele mostra-se superior a qualquer esquema falsamente patriótico; o que se mostra é aquela pequena nação que, apesar de abatida, em algum momento, ela ali permanece, com suas tradições, suas angústias e suas glórias, finalmente. E sim, ao final do filme, a avó, ou se quisermos, a tradição imbatível daquele povo, no meio de uma tempestade e de trovoadas, ela retoma uma canção que convoca seus netos a segui-la, no presente. Segui-la para onde? Pode-se pensar em um lugar mais aprazível, para além do arco-íris, o qual aparece, em algum momento do filme. Trata-se de uma bela mensagem de reconciliação entre os povos, entre as pessoas; sintetizando, o mestre japonês oferece-nos uma fotografia visualmente magnífica, o elemento épico ali está presente, e ainda uma parábola da sociedade humana, para guardarmos para sempre.
