Stanley Kubrick, 1928 – 1999
Stanley Kubrick é um diretor cinematográfico ou realizador, fotógrafo, roteirista e produtor de filmes americano; como cineasta, frequenta muitos países europeus e morre em sua residência, nos arredores de Londres. Desde jovem, destaca-se por sua personalidade inquieta e sobretudo por sua genialidade, inicialmente precoce e, posteriormente, presente em seus filmes. Já aos dezesseis anos de idade, em abril de 1945, em seu trajeto para a escola, ele consegue uma foto de um jornaleiro que estava chorando pela notícia da morte de Franklin D. Roosevelt; ele a vende para a revista Look e assim obtém seu primeiro emprego como fotógrafo, arte que ele desenvolverá no decorrer do tempo, e utilizará em suas produções, e pela qual receberá inúmeras indicações e vários prêmios, ao longo de sua carreira. Contam-se aproximadamente vinte realizações entre documentários, curtas-metragens e longas-metragens, constituindo-se, cada uma dessas produções, em verdadeiras lições de técnica cinematográfica e de imagem frondosa. Torna-se particularmente difícil destacar-se algumas de suas obras, mas como nosso espaço exige, vamos consagrar algumas linhas a seis de seus filmes: “Glória feita de sangue”, de 1957, “Spartacus”, em 1960, “O Iluminado”, exibido também em 1960, “Dr. Fantástico ou Como aprendi a amar a bomba”, de 1963, “2001, a Odisseia do espaço”, do ano de 1968, e “De olhos bem fechados”, seu último filme, estreado em julho de 1999, alguns meses após sua morte. Em 1957, sete anos após seu primeiro curta-metragem, Kubrick dirige uma película sobre o absurdo da guerra, intitulada “Glória feita de sangue”; o filme passa-se durante a Primeira Guerra Mundial, quando um general do exército francês decide lançar uma de suas unidades em ataques desesperados contra as linhas alemãs entrincheiradas em Verdun, a leste de França; após o desastroso fracasso e pesadas perdas de vidas, o Estado-Maior decide que, “para dar o exemplo”, três soldados inocentes serão fuzilados por covardia; sobressai, então, a personalidade mais maquiavélica do filme, a do general chefe do exército, cuja comunicação parece ser tão afável, quando em ambientes sociais, mas que se revela como alguém de má-fé, ardiloso e perverso; ele é o personagem amoral que ordena o fuzilamento de soldados de sua tropa, sem qualquer piedade. O filme estreou em Munique, em 1957, foi percebido como uma crítica direta ao exército francês, e causou forte impressão pela crueldade e violência, principalmente nas cenas finais. Ele recebeu vários prêmios, mas sob pressão de associações de veteranos franceses e belgas, houve protesto junto à produtora e, diante da dimensão da repulsa, decide-se não distribuí-lo, e muitos países da Europa também se recusam a divulgá-lo; foi somente dezoito anos depois, em 1975, que o filme foi finalmente exibido na França. À parte essa comoção provocada pelo filme, há de se destacar o refinamento da filmagem realizada, com um acompanhamento da câmara localizada muito próxima aos personagens quando estes estão nas trincheiras, quase como ratos capturados em uma armadilha, ou ainda a utilização de uma luz fraca, apropriada ao fosso no solo; todo esse ambiente favoriza o aparecimento de temas prediletos de Kubrick, a saber, a dupla personalidade daquele personagem que inicialmente parecia bondoso, e o colapso de uma situação que levará dezenas de homens à morte. De passagem por Hollywood, em 1960, Kubrick aceita dirigir aquele que se tornaria um dos grandes épicos do cinema americano, “Spartacus” a história de um escravo gladiador romano que se rebela e luta pela sua liberdade e pela independência de seus companheiros; as filmagens estendem-se por mais de meio ano e terminam na Espanha, onde as cenas de combate contaram com cerca de mil figurantes, oriundos do exército espanhol. Novamente, a explosão de violência, uma característica dos filmes de Kubrick, aí se faz presente, e os recursos técnicos de filmagem e de caracterização dos personagens elevam o tom dessa estética de força física e de intimidação moral. Ainda no mesmo ano de 1960, o realizador dirige uma de suas obras-primas, “O Iluminado”, onde narra-se a história de uma “descida ao inferno”, por parte de um escritor a quem falta inspiração e que aceitou ser o zelador de um hotel fechado, em pleno inverno e totalmente isolado, na região das Montanhas Rochosas; na sequência final, reaparece o ambiente claustrofóbico de uma trincheira, salvo que, desta vez, trata-se de um labirinto escavado no gelo, misterioso e assustador como uma cova na qual nos confrontamos com a morte. Três anos mais tarde, em 1963, Kubrick apresenta a seu público uma comédia-dramática intitulada “Dr. Fantástico ou Como aprendi a amar a bomba”, um filme bem apropriado à situação mundial da época: em plena guerra fria entre duas grandes potências, Estados Unidos e ex-União Soviética, um cientista originário do regime nazista e que servia, então, ao governo americano, quase provoca um desastre nuclear mundial, seja por acidente ou pela loucura que o domina; mais uma vez, a violência inconsequente é o tema central deste filme, onde, ao final, como supremo exemplo da idiotice humana, e se, antes não fora lançada a bomba, já agora, um dos aviadores que a transportam decide cavalgá-la em pleno ar, como se fosse um vaqueiro em um rodeio; essa é a imagem final do filme; para bom entendedor, meia “Imagem” basta… Em 1968, é lançado “2001, a Odisseia do espaço”, no qual apresenta-se, “somente”, a evolução do homem desde uma savana em que os macacos mais evoluídos fazem de um osso seu instrumento para matar e dominar os demais, começando, assim, nossa odisseia humana nesse espaço chamado Universo; daí em diante, chegamos à época das viagens espaciais e a confrontar-nos com o misterioso monolito que seria o fulcro de nossa criação; e, novamente, a misteriosa e instigante imagem final transporta-nos à renascença de uma nova humanidade. Indicado a quatro prêmios “Oscar”, o filme recebe um, o de melhores efeitos especiais, nos quais houve um grande trabalho pessoal do próprio diretor. No ano de 1991, este filme integra uma série de itens conservados pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, “por sua importância cultural, histórica, e estética”; o lugar primordial que ocupa”2001, a Odisseia do espaço” na história do cinema faz dele um dos maiores filmes de todos os tempos. E, finalmente, chegamos a “De olhos bem fechados”, de 1999; o roteiro conta-nos a trajetória de um médico, importante personagem na sociedade nova-iorquina, o qual erra pela noite, desesperado porque pensa que sua mulher o trai; ele está obcecado e sua “viagem” realiza-se entre o real e o imaginário; ele sai em busca de suas fantasias, já que o ciúme torna-se maior que tudo. Encontramos, neste filme, os elementos que sempre fascinaram seu autor, o “duplo” que invade tudo e que provoca a perda de identidade, nossos desejos mais íntimos, aqueles que se colocam atrás das aparências. Pode-se considerar este filme como o testamento de Stanley Kubrick, o cineasta que foi sempre reticente na conclusão de suas obras, e que por isso mesmo deixava ao espectador a liberdade de formular sua própria interpretação.
