Onde fica a casa de meu amigo? Abbas Kiarostami, 1940-2016

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Onde fica a casa de meu amigo?

 Abbas Kiarostami, 1940-2016

 

Abbas Kiarostami é um cineasta, roteirista e produtor de cinema iraniano, nasceu em Teerã, em 1940, e morreu em Paris, em 2016. Antes de tornar-se diretor ou realizador de filmes, ele começa sua carreira cinematográfica produzindo desenhos animados, suportes publicitários e os créditos de personagens e atores; sua capacidade técnica também foi exercida sendo editor de filmes e diretor artístico, e seu talento ainda alcançou a poesia, a fotografia, a pintura e a ilustração através de desenhos gráficos. No mundo do cinema, desde 1970, ele realiza mais de quarenta filmes, alguns documentários e outros curtas-metragens; recebeu aproximadamente um cento de honrarias vindas de Festivais internacionais de cinema como também de Universidades na Europa e nos Estados Unidos, e por sua vez, presidiu cerca de vinte júris, como os de Cannes e Veneza. Sua trajetória inicia com filmes pedagógicos realizados para o Instituto de desenvolvimento intelectual das crianças e dos jovens adultos, sendo seu primeiro título “O pão e a rua”, um curta de 10 minutos, o qual conta a história de um menino que encontra um cão, ambos à deriva, na rua, e ambos famintos. Mas é com a película “Onde fica a casa de meu amigo?”, de 1987, que ele obtém o reconhecimento internacional; neste filme com duração de 83 minutos, um menino, habitante de um vilarejo no interior do país, tenta entregar a seu colega de aula o caderno que lhe fora trocado; apesar da noite que se aproxima e do medo que o invade, o jovem enfrenta o desconhecido das ruelas que os separam e, finalmente, consegue alcançar seu objetivo, o de restituir ao colega o que era seu, por direito; durante o trajeto, o menino procura informação em várias casas, as quais são humildes mas apresentam, inesperadamente para o espectador, seus vários tipos de modelagem e de recortes artesanais característicos das portas iranianas por tradição; dessa maneira, fica-se a par do hábito nacional de cada casa, por modesta que seja, de possuir um modelo diferente daquele verdadeiro “rendado” das esculturas em suas portas. Assim fazendo, chega-se ao objetivo dessa película, a saber, a mostra de seu interesse profundo pela vicissitudes humanas e pela resiliência às mesmas, não importando qual seja o local ou a grandeza da ação; o cinema de Kiarostami é muito próximo daquele que o assiste e para isso ele utiliza, muitas vezes, atores não profissionais ou mesmo as pessoas das ruas, à maneira do neorrealismo de meados do século XX, e confesso a satisfação de espectadora de sentir-se acalentada por um tema que pertence a todos nós, por uma abordagem que nos torna mais humanos e nos facilita a compreensão dos outros, sejam eles iranianos ou brasileiros. Ao sair da projeção dessa película, em especial, se nos perguntarmos onde fica a casa de meu amigo, com certeza teremos a resposta: ela fica em nosso coração, ela é nossa responsabilidade de mantê-la e fazê-la perdurar. Já em 1994, destacamos a película “Através das oliveiras”, em que o enredo carece de reviravoltas e peripécias extravagantes, é um filme simples, parece que ali pouco acontece. Vemos um diretor selecionando o elenco de seu filme entre os moradores de uma região atingida por um terremoto. Acompanhamos a filmagem e algumas divergências entre os atores, especificamente entre Hossein e Tahereh, que interpretam marido e mulher, mas na vida real praticamente não se falam, apesar das tentativas de Hossein em convencê-la a se casar – que é ou torna-se – o mote principal do filme: a vida além da câmera, depois da câmera, depois do registro, que é fugaz e apaga-se logo depois de exibido. Logo na cena de abertura, Kiarostami cria um distanciamento no espectador. Um senhor, o ator principal da película, dirige-se à câmera e diz: “Eu sou um ator e represento o diretor do filme”; não é apenas mais uma história de filme dentro do filme, é uma discussão além e é daí que melhor podemos entender ambos os filmes, a saber, “Através das oliveiras” e aquele que está sendo rodado. É uma celebração da vida que é maior ou, no mínimo, tão boa quanto o filme; é a vida infiltrando-se pela película e pelos planos, alterando roteiro, fotografia e edição. A película tem seu tempo, dura pouco, mais precisamente, 1 hora e 43 minutos, mas a vida permanece, continua; o diretor – e sua enorme paciência – sabe disso: ele é o único que acompanha Hossein e Tahereh na longa caminhada de volta do local de filmagem, por um atalho entre oliveiras; e lá o vemos, lá está o diretor, observando o casal, escondido pela folhagem, com seu ar de sábio, de quem entende a vida e demonstra muito interesse pelas vidas ao redor, seja conversando, ou questionando, ou ainda incentivando. O cotidiano, a vida comum, simples e banal, são mais importantes do que o próprio filme, do que ambos os filmes; este, cuja filmagem nos foi mostrada pelo diretor, este nós nunca saberemos como se conclui, tampouco saberemos se entendem-se ou não os dois jovens porque eles estão distantes de nós. O que permanece próximo a nós é a obra criada por Abbas Kiarostami, ela é profundamente humanista, ela nos fala da vida e de nada mais, todos seus temas permitem-lhe explorar a natureza humana em seus aspectos mais caros, a saber, amizade, relacionamentos, beleza, obstáculos da vida, sofrimento e sua superação, também o egoísmo tem seu lugar, mas a ajuda mútua logo se apresenta, e se há vulgaridade, em seguida ressurge a delicadeza. Todos esses sentimentos coabitam em cada um de nós, e é esta complexidade que nos torna únicos e, não nos esqueçamos, parentes de todos os demais. O amor é insistente, e creio ser esta uma boa definição para este cineasta tão sábio quanto gentil.

 

 

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