A cartomante de Machado de Assis

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A cartomante de Machado de Assis

 

Nosso autor de hoje – e de sempre – Joaquim Maria Machado de Assis, como sabemos, nasceu no Rio de Janeiro, em 1839 e morreu na mesma cidade, em 1908; ele viveu e escreveu sua obra nesse ambiente da sede política brasileira, testemunhou a abolição da escravatura e a mudança política no país, quando a República substituiu o Império, além das mais diversas reviravoltas pelo mundo em finais do século XIX e início do XX; escreveu em praticamente todos os gêneros literários, sendo poeta, romancista, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, jornalista e crítico literário, tendo sido sempre um grande comentador e relator dos eventos político-sociais de sua época. Ousamos dizer que o autor ultrapassou toda e qualquer época poque ele aprofundou de tal forma seu conhecimento da trama social e sua percepção da chamada “alma humana”, que seu texto torna-se atemporal e universal. É o que teremos hoje, no conto “A Cartomante”, o qual foi originalmente publicado no jornal Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, em 1884 e mais adiante, a obra acabou sendo recolhida na coletânea do autor, “Várias Histórias”, em 1896. O conto estabelece o relato de uma paixão proibida, dentro de um triângulo amoroso. “Mais banal não existe”, podem dizer alguns; entretanto, a forma como é descrita essa situação é que a torna especial e digna de admiração – sobretudo em uma época em que a hipocrisia pretendia esconder o que realmente importava ou se fazia; no caso, trata-se do romance proibido entre dois amigos de infância e uma terceira ponta da figura geométrica, a saber, uma bela e sensual jovem mulher. Vamos dar os nomes e as características dos personagens principais: Rita, uma dama formosa de trinta anos, descrita como ingênua, graciosa, viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. (Sempre os olhos e os olhares femininos são atrativos para nosso autor.) Voltamos: Rita é casada com Vilela e é também amante de Camilo, amigo de infância do marido. Trata-se de uma típica mulher da sociedade burguesa, que mantém um casamento de aparências e cumpre seu papel social de esposa apesar de estar em um relacionamento que não a faz feliz. Passemos ao marido: Vilela é magistrado, depois de algum tempo no exercício de juiz, decide abrir um escritório de advocacia no Rio de Janeiro; tem vinte e nove anos e vive em uma casa em Botafogo – uma observação quanto a essa particularidade de Rita ser um pouco mais velha que seu marido, o que não era tão habitual àquela época. Vilela é casado com Rita e cumpre aquilo que é esperado de um homem burguês: provedor, Vilela tem um bom emprego e ostenta uma bela mulher (como prova de sua normalidade pessoal e social, ele exibe um comportamento aceitável). Seu amigo chama-se Camilo, o qual não demonstra ser uma pessoa de vida tão regular como a de seu companheiro de infância; Camilo é um simples funcionário público de vinte e seis anos, não seguiu o desejo do pai, que queria vê-lo médico; ele é praticamente um elo um pouco “solto” dentro da armação social desejada; depois de algum tempo, ele acaba apaixonando- se por Rita, a mulher do melhor amigo, com quem desenvolve um amor clandestino. O personagem fora desse triângulo é a cartomante, ela não ostenta um nome, só sabemos que ela é uma mulher com cerca de quarenta anos, é italiana, morena e magra, com grandes olhos, descritos como dissimulados e agudos. A cartomante era tida por Rita – e depois por Camilo – como uma espécie de oráculo capaz de adivinhar o futuro, mas na prática não conseguiu prever os acontecimentos trágicos que resultariam do caso extraconjugal. Como observamos, os personagens nos são apresentados com um só nome, e ainda a cartomante, sem nome algum, o que nos faz pensar que eles são mais propriamente tipos literários do que figuras humanas, ou seja, o autor nos permite pensar que a história por ele apresentada corresponde a uma trama muito comum, suscetível de acontecer a qualquer pessoa! A história do conto começa numa sexta-feira de novembro de 1869. Rita, angustiada com sua situação amorosa, resolve consultar, às escondidas, uma cartomante que serve como sua guia espiritual. Apaixonada pelo amante Camilo, amigo de infância do marido, Rita teme pelos relacionamentos correrem em paralelo. Camilo zomba da atitude da amante porque não acredita em nenhuma superstição. Rita, Vilela e Camilo são muito próximos, tudo parece transcorrer serenamente, e os três não se apercebem de que, pouco a pouco, começa a instalar-se um ambiente de dúvida e desconfiança. Sabemos que Rita e o marido vivem em Botafogo e, quando ela consegue escapar da casa, vai encontrar o amante às ocultas, na Rua dos Barbonos. Os leitores, nós, damo-nos conta dessas menções pontuais que nos ajudam a situar-nos no tempo e no espaço e, ainda que uma enorme parcela do público não conheça detalhadamente a zona sul do Rio de Janeiro, a narrativa desenha um mapa da cidade a partir dos caminhos feitos pelos personagens. Essa é uma maneira generosa e criativa do escritor para dar a conhecer a cidade aos leitores que por ventura desconheçam – ou desconheciam – à época, o Rio de Janeiro de então; há, portanto, uma forte presença da cidade no texto. Continuamos com o desenrolar da trama: o problema surge quando Camilo recebe cartas anônimas de alguém que revela ter conhecimento da relação extraconjugal; o jovem, sem saber como reagir, se afasta de Vilela, que estranha o desaparecimento súbito do amigo. Desesperado após receber um bilhete de Vilela convocando-o para um encontro em sua casa, Camilo, assim como Rita, segue em busca da cartomante. Após a consulta, Camilo se acalma e vai, tranquilo, encontrar o amigo, crente que o caso não havia sido descoberto. A reviravolta do conto acontece no último parágrafo, quando se revela o final trágico do casal de amantes. Ao adentrar na casa de Vilela, Camilo se depara com Rita assassinada. Por fim, toma dois tiros do amigo de infância, e também cai morto no chão. Este final quase nos permite pensar em um conto tragicômico, quer dizer, funesto mas acompanhado de incidentes quase divertidos, como o fato de a cartomante garantir, tanto a Rita como a Camilo, em momentos separados e sem saber com quem tratava, que seu romance desenvolver-se-ía tranquilamente, que ela e ele teriam, ao final, uma venturosa surpresa e que seriam felizes para sempre. Machado de Assis é mestre neste tipo de escrita fluida, em que tanto uma realidade pode ser brutal e mesmo assim ser tratada de maneira ambígua, e em que terminamos sempre por questionarmos “ou sim ou não”! A rigor, a história se encerra em aberto, o autor deixa muitos mistérios suspensos no ar; por exemplo, não sabemos com certeza como Vilela efetivamente descobriu a traição: teria sido a cartomante a contar o caso extraconjugal, ou o marido teria interceptado alguma correspondência trocada entre os amantes? Outra pergunta que paira no ar quando escolhemos acreditar que o caso foi descoberto através da leitura de cartas realizada pela cartomante: esta teria, mesmo, o dom da vidência, e porque ela fez Camilo crer que a história terminaria com um final feliz? Não caberia a ela – que detinha a função de oráculo na narrativa – alertá-lo para o perigo iminente? Paira em torno de “A cartomante” o tema do assassinato, da hipocrisia, do adultério e da sustentação de um casamento vazio em prol da manutenção da ordem social; tanto Vilela mantém um casamento de conveniência, como Rita continua em uma relação hipócrita, e ainda Camilo sustenta igualmente o véu das aparências ao alimentar uma amizade supostamente verdadeira com Vilela quando, na verdade, traía o melhor amigo com sua respectiva esposa. Diz-se que a inspiração para a criação de Machado de Assis teria surgido de uma série de casos que vinham sendo denunciados nos jornais daquela época; vale lembrar que o adultério era um tema recorrente e exposto em críticas, na sociedade burguesa do século XIX. Cabe ao leitor exercer o ânimo de detetive para descobrir qual o verdadeiro papel da cartomante neste conto que destaca sua profissão mas esconde seu nome no título!

 

 

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