Vem o sol, quero alegria
(Fica decretado que agora vale a verdade)
Thiago de Mello
Amadeu Thiago de Mello foi um poeta, jornalista e tradutor brasileiro; ele é natural do estado do Amazonas, nasceu em 1926 e morreu recentemente, em janeiro de 2022. O autor é um dos poetas mais influentes e respeitados de nosso país, e tem suas obras traduzidas para mais de trinta idiomas. Quando jovem, ele cursou a faculdade de medicina, mas abandonou o curso na metade e ingressou na carreira diplomática, na década de 50. Seu primeiro livro de prosa foi escrito aos 25 anos, intitulado “Silêncio e Palavra”, editado em 1951, do qual mereceu críticas de renomados autores como sendo “um dos mais típicos representantes da chamada ‘geração de 1945’ (preocupada com causas sociais e descomprometida de fórmulas rígidas de escrita) e, mais adiante, com o decorrer do tempo e da publicação de suas poesias, Thiago foi considerado como “um dos grandes poetas de sua geração”. Em pouco tempo ficou bastante conhecido, a ponto de, em 1955, ser aclamado membro da Academia Amazonense de Letras, tomando posse em janeiro daquele ano e ocupando a cadeira 29, de Castro Alves. Foi adido cultural em nações sul-americanos por aproximadamente quinze anos, mas por motivos políticos teve seu percurso profissional interrompido até meados dos anos oitenta, quando viveu exilado em países como o Chile, Argentina, Portugal, França e Alemanha; voltou ao Brasil no recente trintênio e mudou-se para Manaus, onde viveu até sua morte. O conjunto de sua obra consta de doze coletâneas de poesias e de oito antologias de livros em prosa. Dentre seus textos, destacamos dois de seus poemas; um deles tem como título “Os Estatutos do Homem”, de 1964 – esta é a sua obra mais conhecida e constantemente citada – e também “Faz Escuro, mas eu Canto: porque a manhã vai chegar”, publicada em 1966; ambos os poemas tratam dos valores simples da natureza humana e ressaltam a preservação da natureza ambiental. Thiago ganhou várias láureas pelo reconhecimento de seu trajeto literário, dentre as quais o prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras e um prêmio concedido pela Associação Paulista dos Críticos de Arte, o qual tornou nosso autor conhecido internacionalmente como um intelectual engajado na defesa dos direitos fundamentais, sejam estes do meio ambiente ou da vida em sociedade. Ainda, em homenagem aos seus oitenta anos de idade, completados em 2006, foi lançado um CD comemorativo, intitulado “A Criação do Mundo”, contendo poemas que o autor produziu nos últimos 56 anos, declamados por ele próprio. A partir de agora, dedicamos nossa atenção aos poemas maiores de sua produção, primeiramente “Os Estatutos do Homem” e a seguir “Faz Escuro, mas eu Canto: porque a manhã vai chegar”. Iniciamos com os primeiros versos dos “Estatutos”: “Artigo I – Fica decretado que agora vale a verdade, / que agora vale a vida, / e que de mãos dadas, / trabalharemos todos pela vida verdadeira.” Prosseguimos com outros versos, tais como “Artigo IV – Fica decretado que o homem / não precisará nunca mais / duvidar do homem.” “Artigo final – … A partir deste instante / a liberdade será algo vivo e transparente / … e a sua morada será sempre / o coração do homem.” Esta poesia caracteriza-se pela rebeldia, seu autor é insubmisso e realiza uma crítica social e humana bem contundentes, ele eleva sua voz para falar da insatisfação com as relações de uma comunidade cada vez mais egoísta, onde as pessoas só vivem para si mesmas, não importando-se com os outros, e além disso, não tendo a consciência do alcance de esgotamento dos recursos da natureza; é que esse tipo de pensamento primitivo não leva em consideração o fato de que nós, seres humanos, também fazemos parte desta “natureza”, de que salvar árvores implica melhor qualidade do ar que se respira, e que todos estão na mesma “barca”. A inquietação do poeta nesse tipo de texto remete aos primórdios da humanidade reunida socialmente, quando desde então – e sempre – enfrentamos os desvios éticos que só exploram nosso meio ambiente e aprisionam nosso discurso de alerta; pessoas que negam a realidade do que fazem erroneamente, tendem a oprimir a livre expressão crítica daqueles que os criticam. O autor lança mão de sua poesia para instalar uma postura ética que possa servir à coletividade, pois seu compromisso com a arte não se reduz apenas ao elemento estético, mas também atinge a composição social em que vivemos. Avançamos agora ao outro texto por nós destacado, “Faz escuro, mas eu canto”: seu texto é do gênero lírico e expressa emoções e sentimentos permeados pela função poética do autor, enfatizando, em seus versos, as dores, lutas e alegrias da sociedade. Quanto a seu conteúdo, o poema aproxima-se de uma elegia (é dotado de um tom triste, quase como uma canção de lamento), pois fala de um tempo tenebroso mas, por outro lado, também é munido de obstinação, de inquebrantável inconformismo em face do que é triste e escuro; ainda destacamos que o poema possui uma única estrofe composta de quatorze versos, composição que o “retira” deliberadamente da “fôrma”, e que cabe bem em um texto rebelde que não acata passivamente o modo de ser da tristeza e da ausência de claridade. Exemplificamos com alguns versos: Faz escuro mas eu canto, / porque a manhã vai chegar. / … / Vale a pena não dormir para esperar / a cor do mundo mudar. / Já é madrugada, / vem o sol, quero alegria, / … / amanhã é um novo dia. Que bela convocação do autor à resistência, à esperança, exatamente quando mais precisamos, pois estamos cercados de incertezas e de tristezas; seu texto é de combate, enquanto seu conteúdo é carregado de subjetivismo e intensa densidade existencial, e ainda, formalmente, o poeta faz uso de linguagem em construções simples, não ostenta palavras difíceis para não dificultar a compreensão do leitor. Por fim, exaltamos o fato de que em sua obra, Thiago de Mello atinge não somente o compromisso essencial da arte com a beleza, com o estético, mas igualmente com o ético e o social. A literatura serve também para isso: para exercer a função de afirmadora dos valores humanos e socias, e assim opondo-se às injustiças e atenuando a violação de nossos direitos.
