Ferreira Gullar, 1930-2016 – A vida inventada
Poema Sujo
Ferreira Gullar, nosso autor de hoje – e de sempre – nasceu em São Luís do Maranhão, e na vida real chama-se José Ribamar Ferreira; ele explica o codinome pelo qual é conhecido tanto no país como no exterior: “Gullar é um dos sobrenomes de minha mãe e Ferreira é o sobrenome da família, eu então me chamo José Ribamar Ferreira; mas como todo mundo no Maranhão é Ribamar, eu decidi mudar meu nome e fiz isso, usei o Ferreira que é do meu pai e o Gullar que é de minha mãe, só que eu mudei a grafia porque o Gullar de minha mãe é o Goulart francês; é, pois, um nome inventado; como a vida é inventada, eu inventei o meu nome”. Iniciamos exatamente com esse agnome criado pelo próprio autor, o qual explica bem sua poesia; afinal, ele sempre ensinou que a arte, a literatura, é necessária por ser mais ampla que a realidade e a própria vida. Chegaremos lá, mais adiante. Ferreira Gullar é um escritor, poeta, crítico de arte, biógrafo, tradutor, memorialista e ensaísta brasileiro, começou a apresentar seus poemas em público, a partir dos dezoito anos de idade, e finalmente ocupou a cadeira 37 da Academia Brasileira de Letras, da qual tomou posse em 2014. O autor é considerado um dos poetas mais importantes do Brasil; sua poesia caracteriza-se por ser muito dinâmica e por apresentar desde aspectos intimistas a aspectos críticos da realidade política e social nacional; publicou cerca de cem obras, divididas estas entre poesias, antologias, contos, crônicas, teatro, memórias, biografias, ensaios e textos para televisão e para filmes. Destacamos os prêmios e honrarias recebidos por Ferreira Gullar: em 1966, Prêmio Molière, com o texto teatral “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, indicação para o Prêmio Nobel de Literatura, em 2002, o Prêmio Jabuti de melhor livro de ficção do ano 2007, com “Resmungos”, o Prêmio Camões, a maior distinção entre os dez países e territórios cuja língua oficial é o português, em 2010, pelo conjunto da obra, e ainda foi-lhe outorgado o Título de Doutor Honoris Causa, em 2010, pela Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e o Prêmio Jabuti, em 2011, com o livro de poesia “Em alguma parte alguma”. Entre 1962 e 1966, destacam-se por sua originalidade formal, poemas como aqueles que o autor escreveu em estilo de cordel, quer dizer, os textos ficavam pendurados em uma corda, presos por prendedores, assim como o faziam os trovadores dos séculos doze e treze, e isso como uma tentativa de alcançar de forma mais direta o leitor de camadas mais populares, no Norte e Nordeste do país. A seguir, em razão de sua atuação política, foi processado e, quando solto, passa um tempo exilado, entre outros locais, em Buenos Aires, onde escreve sua obra maior, “Poema sujo”. Ferreira Gullar regressa ao Brasil em 1977, portando em sua bagagem esse poema com essa qualificação tão distante do que habitualmente pensamos que seja um texto poético. Pois bem, é exatamente sobre o “Poema sujo” que vamos dedicar nossa maior atenção. Trata-se de um longo poema de quase 100 páginas, muito impactante, tendo sido traduzido para vários idiomas. Em resumo, seus mais de dois mil versos criados na solidão do exílio são uma espécie de hino pela liberdade, e com fortes traços autobiográficos, eles constituem uma espécie de desabafo e retomam desde a infância do poeta vivida em São Luís do Maranhão até os ideais políticos que viria a desenvolver muito mais tarde. Já nas primeiras páginas, o autor relembra cenas do passado: “Que importa um nome a esta hora do anoitecer em São Luís do Maranhão à mesa do jantar … / debaixo deste teto de telhas encardidas vigas à mostra entre / cadeiras e mesa entre uma cristaleira e um armário diante de / garfos e facas e pratos louça que se quebraram já … “ – ou seja, o autor pega-nos pela mão e, ainda crianças que nada sabem, somos nós conduzidos por essa realidade um pouco obscura e desconhecida, pois é a hora do jantar entre pessoas das quais nem os nomes sabemos; e neste ponto, volvemos ao sentido do início da poesia, no qual o autor nos diz pouco importar um nome; com certeza, sim, isso é o de menos, os nomes tanto podem ser os de sua família, como os de minha ou os de qualquer outra; nesse momento, o texto expande-se e torna-se universal. E assim o texto continua, com memórias sendo trazidas à tona de maneira nostálgica e criadora; criadora de uma realidade que não é mais aquela inicial, tampouco é à qual se refere agora, ao descrever seu tempo anterior; a realidade de agora é a inventada pelo esforço poético. Analisando um pouco: em termos estilísticos, sua composição é uma mescla de vários procedimentos poéticos, exatamente porque ao autor não interessa a rigidez da forma, a esse tipo de texto impõe-se, ao contrário, a aparente anarquia criadora de uma realidade recuperada e multifacetada; em se tratando de sentimentos relativos ao afastamento do país natal ou do seio da família, tudo é permitido, porque eles impõem-se a nós, não somos nós que os buscamos e os ordenamos, não nada disso, sem nos darmos conta, em algum momento, cá estamos nós – e o poeta – engolfados nessa bruma de lembranças que se fazem claras à medida que os expressamos – como neste poema. O “Poema sujo” conjuga uma série de possíveis poemas em um único trabalho e é riquíssimo e único justamente por contemplar essa multiplicidade de estilos e temas em um só lugar. O próprio Ferreira Gullar esclarece: “A verdadeira poesia tem muitas faces. (…) No “Poema sujo”, a linguagem que vai aparecer resulta de todas essas experiências. Defendo, então, a tese de que não existe poesia pura. A poesia verdadeira não é sectária, não é unilateral.” Pergunto: podemos complementar, então, que a poesia é “suja”? ( no bom sentido, é claro!) Sabemos que Gullar decidiu escrever o “Poema sujo” como uma espécie de testemunho final, uma síntese de todas suas crenças e de toda sua poética anterior; seria como seu testamento pessoal e literário. Aproximamo-nos da definição desse título tão instigante, tratando-se de poesia; por que o título de “Poema sujo”? Em determinada entrevista, o autor afirma que há várias possíveis interpretações para a escolha do título do poema, uma delas é que o poema seria sujo porque trataria de temas torpes como o câncer, a fome, a solidão, a morte; há quem diga também que o poema é sujo porque se trata de uma espécie de desabafo; no entanto, segundo o próprio autor, este poema é sujo como o povo brasileiro, como a vida do povo brasileiro. Se quisermos trocar a qualificação de “vida suja” por “vida árdua”, tudo bem, podemos fazê-lo, a nomenclatura agradece e a realidade permanece. Um poema como este serve quase como um soco no estômago, para quem o lê e para quem tem estômago, é claro. Insistindo sempre em não renunciar a um pensamento construtivo e resistente, afirmamos que a vida deve ser inventada, ela não pode, não deve ficar só naquilo que nos oferecem ou nos impingem, esta é a versão “suja”; ainda considero ser possível transformá-la em reflexão pessoal e em ação inovadora. Para tanto, podemos contar com o apoio de uma grande amiga, a poesia de um vida inventada.
