Castro Alves, 1847-1871 – O Navio Negreiro, 1868 – “Era um sonho dantesco!…”

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Castro Alves, 1847-1871 – O Navio Negreiro, 1868

 “Era um sonho dantesco!…”

 

Nosso “poeta dos escravos” e “poeta republicano”, Castro Alves, nasceu no interior da Bahia, seus primeiros estudos foram orientados por educadores particulares e em 1858, a partir dos dez anos de idade, junto aos irmãos, frequentou o “Ginásio Baiano”, este dirigido por um renomado professor da época; ali encontra um ambiente cultural fértil, com os habituais saraus, então em moda, festas de arte, música, poesia, declamação de versos e discursos; tal ambiente fez com que revelasse precocemente seu talento: suas primeiras composições foram realizadas antes dos treze anos e, de fato, as datas de seus versos iniciais vão de 1859 a 1861. Começou sua produção maior aos dezesseis anos de idade, e seus versos de “Os Escravos” foram iniciados aos dezessete, com ampla divulgação através de recitais do poema e também via a imprensa do país, o que ajudou, com certeza, a formar a geração que viria a conquistar a abolição da escravatura. À época, José de Alencar disse dele que “palpita em sua obra o poderoso sentimento de nacionalidade, essa alma que faz os grandes poetas, como os grandes cidadãos”, e para Joaquim Nabuco, Ruy Barbosa e José do Patrocínio, o jovem poeta “destacou-se na campanha abolicionista”; além desses, foi o grande Machado de Assis quem outorgou-lhe os apodos com os quais iniciamos nosso texto. Dessa forma, Castro Alves ratifica a poesia romântica que começara no Brasil a partir de 1836, sob influência de autores estrangeiros como Victor Hugo e Lamartine, Lorde Byron e Heinrich Heine, porém, ao promover novas ideias políticas no país, o autor já anuncia igualmente – e genialmente – a corrente literária do realismo, em sua atuação social por ele fortemente instalada e por isso chamado de “abolicionista” e “revolucionário”. Suas obras de maior impacto são “Espumas flutuantes”, esta editada em 1870, e a definitiva “Navio negreiro – Tragédia no Mar”, a qual foi escrita em 1868 mas que, devida ao fato de ser considerada “subversiva”, somente pôde ser publicada postumamente, em 1880.  A partir de agora, dedicamo-nos à análise de “Navio negreiro”: esta é uma poesia que integra um grande poema épico chamado “Os Escravos”, escrito em 1870, e ela relata a situação sofrida pelos africanos vítimas do tráfico de escravos nas viagens de navio da África para o Brasil; além disso, sob o aspecto formal, ela é dividida em seis partes com metrificação variada, quer dizer, o tamanho dos versos não é regular, não se repete, obrigatoriamente, o que é uma característica da poesia romântica, a qual “desobedece” a regra clássica da uniformidade e do equilíbrio entre os versos; aliás, o romantismo é um movimento intelectual e político do mais amplo espectro, esta mesma busca da liberdade poética também manifesta-se em termos políticos, econômicos e sociais. Em sua primeira parte, o céu e o mar aproximam-se do infinito, do amplo espaço, e estes são os lugares centrais da poesia; o autor observa essa cena com amor e com simpatia pela travessia poética do barco: “(…) Embaixo – o mar em cima – o firmamento… / E no mar e no céu – a imensidade!” A segunda parte mostra o poeta que começa a imaginar de que nação é aquele barco, mas a seguir, ele afirma que, na realidade, isso não faz muita diferença, pois todo navio no oceano é cheio de poesia e de saudades: “Que importa do nauta o berço, / Donde é filho, qual seu lar?”. Na terceira parte, o poeta consegue aproximar- se do navio e observar o que acontece lá; para sua surpresa, o canto que ele escutara ao longe não é de saudades ou de poesia, mas sim um canto fúnebre e o que se vê no navio é vil: “Mas que vejo eu aí… Que quadro d’amarguras! / É canto funeral! … Que tétricas figuras! … / Que cena infame e vil… Meu Deus! Meu Deus! Que horror!”. Passamos à quarta parte do poema, quando o poeta descreve a horrível cena que se passa no convés do navio; uma multidão de negros, mulheres, velhos e crianças, todos presos uns aos outros, dançam enquanto são chicoteados; as principais imagens são as dos ferros que rangem formando uma espécie de música e da orquestra de marinheiros que chicoteiam os escravos: “E ri-se a orquestra irônica, estridente. . . / (…) Qual um sonho dantesco as sombras voam!… / Gritos, ais, maldições, preces ressoam! / E ri-se Satanás!…”. Na quinta parte do poema, o poeta expressa sua indignação perante o navio negreiro e roga a Deus e à fúria do mar para que acabe tal infâmia; as condições desumanas do transporte de escravos são descritas de forma poética, realçando a desumanização deles: “Senhor Deus dos desgraçados! / Dizei-me vós, Senhor Deus, / Se eu deliro… ou se é verdade / Tanto horror perante os céus?!… / (…) Astros! noites! tempestades! / Rolai das imensidades! / Varrei os mares, tufão! …”. Finalmente, na sexta parte, o poeta questiona qual a bandeira que, hasteada nesse navio, é a responsável por tal barbaridade; se, inicialmente, a bandeira não importava, pois o que se ouvia era a poesia e o canto, agora ela é essencial diante do sofrimento que o navio carrega; o estandarte que se revela é o do Brasil, pátria do poeta, e seu sentimento de o desapontamento é grande, ele realça, ao contrário, as qualidades de seu país, a luta pela liberdade e toda a esperança que reside na nação, e que agora é manchada pelo tráfico de escravos. Neste trecho da poesia, destaca-se uma das mais belas e pungentes estrofes da língua portuguesa: “Auriverde pendão de minha terra, / Que a brisa do Brasil beija e balança, / Estandarte que a luz do sol encerra / E as promessas divinas da esperança… / Tu que, da liberdade após a guerra, / Foste hasteado dos heróis na lança / Antes te houvessem roto na batalha, / Que servires a um povo de mortalha!…”. O significado deste poema é o seguinte: esta é uma narrativa sobre o tráfico de escravos entre a África e o Brasil, e o elemento poético reside nas imagens e nas metáforas encontradas ao longo do texto, mas a beleza e a infinitude do mar e do céu são colocadas em cheque com a barbárie e a falta de liberdade nos porões do navio negreiro, como se fosse incompatível toda a beleza do oceano com a escuridão que se passa no navio. Ressaltamos que uma das características do poema é o universalismo, a saber, quando a viagem é feita pela aventura ou pelo comércio, as bandeiras e as nações não são importantes, elas só se tornam relevantes quando o objetivo da navegação é cruel. Além disso, a crítica do tráfico de escravos não impede o patriotismo do poeta, ao contrário, é seu patriotismo que leva à crítica, sua visão do Brasil como um lugar de liberdade e do futuro é incompatível com a escravidão. Mesmo sendo um liberal, Castro Alves não deixa de lado a religiosidade, clamando a Deus uma intervenção divina no tráfico negreiro.

Não há palavras mais belas nem ideais mais elevados que os deste poema, os quais, infelizmente, nem sempre são validados, mesmo até nossos dias. Com efeito, Castro Alves foi um jovem autor revolucionário e por isso não teve a chance de ver sua magistral poesia editada; como sabemos, ele chega ao fim de sua vida terrena em 1871 e esta sua obra só seria publicada nove anos após sua morte. Afinal, isso não importa, sua contribuição para a formação republicana de nossa pátria foi – e é – fundamental, o poeta sobrevive através de sua obra porque esta legou-nos um ideário de luta e de valoração da liberdade; que belo exemplo a ser seguido por nós, cada um a sua maneira!

 

 

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