“Teoria do medalhão” (1881), diálogo de Machado de Assis (1839-1908)
Todos sabemos que Machado de Assis é considerado um dos maiores ou, sem desprezo aos outros, o mais importante autor da literatura brasileira. Escreveu obras dos mais variados gêneros, foi romancista, poeta, cronista, dramaturgo, jornalista, crítico literário, até análise de um problema enxadrístico, o primeiro a ser publicado no país, deve-se a ele, que também era um excelente enxadrista. Há, ainda, um gênero em que talvez a genialidade de Machado destaque-se em toda sua exuberância; refiro-me ao conto. Apesar de essa excelência ter sido sempre apresentada pelo autor da maneira mais discreta possível – aparente paradoxo de seu estilo, trilhado permanentemente sobre traços de ironia, pois bem, em língua portuguesa não há textos que se sobreponham aos contos machadianos. Difícil torna-se escolher um entre eles, ainda assim, opto pelo diálogo de um pai com seu filho, intitulado “Teoria do Medalhão”. Este conto foi publicado pela primeira vez na Gazeta de Notícias, em 1881, ou seja, faltando pouco tempo para o término do Império, e sabemos que Machado de Assis vivenciou diversos períodos de nossa sociedade e sua estrutura política, tais como a abolição da escravatura e depois a mudança radical quando a República substitui o Império, além das mais diversas reviravoltas pelo mundo em finais do século XIX e início do século XX, tendo sido grande comentador e relator dos eventos político-sociais de sua época. Posteriormente, o conto foi integrado também ao livro “Papéis Avulsos”. “Teoria do Medalhão” inicia-se assim: um pai começa uma conversa com o filho, após o jantar de aniversário deste, que completa 21 anos, falando que na vida uns são conhecidos e reconhecidos, e outros são anônimos, estes últimos sendo a maioria; por isso, e no intuito de formar o caráter de seu filho no trajeto vitorioso da sociedade, o pai aconselha e diz que vai ensinar ao filho uma profissão para recompensar o esforço durante a vida, caso as outras profissões falhem. O pai aconselha ao filho o ofício de medalhão; fala que o filho é moço, mas que deve moderar os impulsos, para que, aos quarenta e cinco anos, a idade em que o medalhão floresce, manifeste-se nele com todo seu brilho; dito de outra forma, quando moço, modere-se, meu filho, assim, quando maduro, resplandecerá toda sua sabedoria de medalhão. Mas, afinal, o que é um medalhão? No sentido concreto, é uma medalha que se traz pendurada a uma corrente em torno do pescoço. Já no sentido figurado, significa um indivíduo em posição de destaque, muitas vezes, sem mérito para tal. Até aqui e durante todo o conto, nem pai nem filho têm nome, o autor não os apresenta; para que o faria, se nos damos conta que ambos representam qualquer um e todos nós? Continuando: praticamente todos assuntos relevantes são tratados nas dez páginas que compõem esse “magnus opus”: para que o filho conquiste riqueza e fama, o pai passa, então, a tecer uma teoria de como o filho conseguirá isso, aconselhando-o a mudar seus hábitos e costumes, anulando seus gostos e opiniões pessoais; o filho deveria sempre manter- se neutro, não importando a situação que fosse, razoável ou absurda, convencional ou carente de aceitação social. Ainda, o filho deverá possuir um vocabulário limitado e conhecer pouco, e sempre preferir um humor mais simples e direto ao invés da ironia, a qual requer certo raciocínio mais elaborado e construção imaginativa. Após muitos outros conselhos, o pai termina a conversa admitindo que suas palavras têm certa semelhança com a obra “O Príncipe”, de Maquiavel, e diz para o filho ir dormir. Este conto trabalha basicamente as mesmas ideias tratadas em “O Espelho” (o qual será editado um ano após), a saber, as que se referem à aniquilação do indivíduo em favor de uma imagem vitoriosa e posição social considerada privilegiada. Mas podemos perguntar porque o personagem do pai nomeia a seu filho a obra de Nicolau Maquiavel, “O Príncipe”? Resposta: porque aquele texto de 1513 descreve precisamente as maneiras de conduzir-se nos negócios públicos internos e externos, e fundamentalmente, como conquistar e manter um principado, ou seja, um guia para como se chegar e manter-se no poder. E isso é tudo que esse pai aconselha e deseja para sua continuação terrena, quer dizer, seu filho: em “Teoria do Medalhão”, o autor, por meio de um discurso bivocal – quando simultaneamente uma palavra designa a voz do autor e do personagem – apresenta conselhos inescrupulosos de um pai para um filho visando a alcançar prestígio em uma sociedade de aparências. Edificado sobre as bases da ironia, a obra aponta para a valorização do parecer acima do ser, analisando o comportamento medíocre por meio do qual se pode ascender socialmente sem grandes esforços. Além disso, este texto de Machado também encontra paralelo em seu outro conto, “O segredo do Bonzo”, publicado em 1882, onde a propaganda pessoal e a aparência valem muito mais do que a essência. Nessa obra, a voz textual pertence a Fernão Mendes Pinto, aventureiro e explorador português do século XVI, o qual relata uma experiência que vivenciou quando esteve no reino de Bungo, e aqui observa-se uma crítica irônica à maneira como as massas são facilmente manipuladas por oradores medíocres e prepotentes em uma sociedade alienante. Bem, continuando e voltando a nossa “Teoria do Medalhão”: através da fala absolutamente irônica do pai, entrevê-se a dura crítica de Machado de Assis à sociedade brasileira. De um lado, temos um pai que deseja ver seus ideais frustrados realizados pelo filho, e de outro temos o filho que aceita passivamente todas as imposições do pai, pois é o papel social que cabe ao filho. Mais para o fim do conto, o pai realiza a pregação de que seu filho deve eliminar qualquer “imaginação”, deve fugir de toda “filosofia da história”, deve ainda afastar-se de “tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade, etc., etc. Conclui dizendo: “(…) não deves empregar a ironia, esse movimento ao canto da boca, cheio de mistérios, inventado por algum grego da decadência, contraído por Luciano, transmitido a Swift e Voltaire (…)”. A ironia sabemos que é uma arma dos locutores inteligentes, ela significa, em grego, dissimulação, ou seja, quando se diz algo que significa exatamente o oposto; este procedimento, quando utilizado na literatura, permite que o autor e o leitor zombem, ambos, de alguém ou de uma situação, um pensamento, e isso possibilita ao leitor expressar seu ponto de vista, ele acaba participando do texto; no caso, o conto torna-se parte integrante da crítica que o leitor possa vir a fazer daquela realidade – a literária – mas também, da nossa realidade “real”, concreta e sensível, em nosso “mundinho” fora do conto. Então, ao final, quando o pai do conto de Machado de Assis diz a seu filho que não use de ironia, é bem o contrário o que ele sugere e o autor também: “Vamos lá, aplaudam o mundo em que vivemos, mostrem gratidão pelas benesses que nos são oferecidas, acreditem que tudo se arranjará e que nosso pensamento positivo nos fará alcançar a felicidade!”
