Mario Vargas Llosa, 1936 – “Pantaleão e as Visitadoras”, 1973

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Mario Vargas Llosa, 1936

“Pantaleão e as Visitadoras”, 1973

 

Jorge Mario Vagas Llosa, mais conhecido como Mario Vargas Llosa, é um escritor sul-americano que nasceu em Arequipa, no sudoeste do Peru, sendo esta a segunda cidade mais populosa do país. Além de peruano, ele conta também com a nacionalidade espanhola, desde 1993, e mais tarde, em 2011, foi-lhe concedido o título de marquês, pelo então rei João Carlos I. Vargas Llosa é considerado um dos mais importantes romancistas e ensaístas contemporâneos, suas obras são acolhidas mundialmente com premiações como o Prêmio Nobel de Literatura, em 2010, e ainda o Prêmio Cervantes, o mais destacado em língua espanhola, outorgado pela Academia Real de Espanha, em 1994, dentre outras. O autor começa a publicar seus textos a partir do início dos anos sessenta e, desde então, já conta com mais de cem obras editadas, tendo escrito romances, contos, ensaios, artigos de jornal, teatro, entrevistas, discursos, debates, poesias, e ainda traduções do italiano e do francês; além do espanhol, produziu, igualmente, livros escritos em inglês, francês e catalão. Sua escolaridade passa pelo Colégio Militar, na capital do país, e sua formação acadêmica realiza-se na Universidade Nacional de São Marcos, em Lima, e posteriormente na Universidade Complutense de Madri, ambas instituições laicas; atualmente, reside na Europa, entre Espanha, Inglaterra, França e Suíça, na maior parte do tempo, por isso sua obra recebe também uma certa influência europeia. Entre seus romances, destacam-se como obras-primas “Conversa na Catedral”, de 1969, e uma outra muito popular, “Pantaleão e as Visitadoras”, editada em 1973. O autor ainda dedicou-se à política, por certo tempo; foi candidato a presidente do Peu, em 1990, mas perdeu a eleição em segundo turno; imaginamos que seus leitores ganharam com essa perda, pois assim, ele voltou a sua arte de escrever inigualável. Em nosso texto, vamos destacar o romance “Pantaleão e as Visitadoras”, editado em 1973; sua história desenvolve-se  na região da Amazônia peruana, onde os efetivos do Exército do Peru são atendidos por um serviço de prostitutas, as quais são chamadas de “visitadoras”. Segundo o próprio autor, a obra baseia-se sobre fatos reais por ele mesmo constatados, em 1958 e em 1964, quando viajou à floresta amazônica, do lado peruano. Com este livro, Vargas Llosa obteve o Prêmio Latino-americano de Literatura, em 1975, e nele, seu personagem principal é o capitão do Exército peruano, Pantaleão Pantoja, a quem é atribuída a missão de implantar um serviço de visitadoras; a decisão do Exército em escolhê-lo é porque Panta – esse é o epíteto pelo qual Pantaleão Pantoja é conhecido na caserna – é dotado de uma grande capacidade organizacional e de estrita obediência à ordem de manter o projeto como secreto. Tal situação faz com que Panta comunique-se com seus superiores, um coronel e até mesmo um general, através de correspondências escritas e como que tratando de assuntos habituais da tropa, mas na realidade, são mensagens cifradas que tratam da contratação das visitadoras, de seu desempenhos pessoais e da logística relativa ao suporte de instalações, de alimentação, de escala de horários, coisas do gênero; e o autor torna ainda mais curiosa a narrativa, quando nos apresenta esse tipo de missiva sob a sigla SVGPFA que significa, para as pessoas fora do reduto militar, “Serviço de Visitadoras para Guarnições, Postos de Fronteira e Afins”. O desenvolvimento da trama tem início quando são feitas várias denúncias de violência sexual contra as mulheres da região, cometidas pelos soldados do exército que, por passarem longos períodos em campana e sem contato com o sexo oposto, acabam cometendo delitos graves. O crescente número de casos gera preocupação aos altos escalões do exército, que propõem, então, esta organização de um serviço interno de prostituição como estratégia eficaz para aplacar a ânsia sexual dos soldados na mata, evitando a exposição da instituição. Para coordenar os trabalhos, já sabemos, é convocado Pantaleão Pantoja, o qual logo mergulha no submundo da boemia. Junto com a família, muda de cidade, renuncia ao uniforme, usa roupas comuns, começa a beber e frequentar bares noturnos, buscando arregimentar novas trabalhadoras e desviando completamente de atitude, para que seu disfarce seja mantido e a missão obtenha êxito. Vencida a etapa inicial do recrutamento e instalação do centro logístico do SVGPFA, o serviço de visitadoras se configura, atendendo a uma demanda crescente e exigindo a contratação de novas trabalhadoras, mais que triplicando o número de prestadoras. Nesta altura do romance, facilmente percebe-se uma contraposição da interferência feminina em relação ao rotineiro papel do exército peruano, e ainda mais, tal expansão desse projeto passa a ameaçar o sigilo necessário à atividade. Com isso, Pantaleão começa a ser constantemente ameaçado pela imprensa local, e um programa de rádio chega a chantageá-lo, pedindo-lhe dinheiro em troca de seu silêncio. Pantaleão inicialmente recusa, mas acaba cedendo à chantagem, destinando parte de seu soldo ao radialista, pois reconhece que a exposição do SVGPFA pode colocar em risco a reputação daquilo que mais ama na vida: o exército. Contudo, isso não impede que sejam feitos ataques públicos à figura do capitão e do serviço de visitadoras, intitulado “Pantolândia”. Ao final, além de tornar-se de conhecimento público, ocorre a denúncia do trabalho do capitão, o que provoca o fim do casamento de Pantaleão.

Chegamos a um ponto crucial da trama, que é a dissolução de seu casamento com sua – até então amada – Pochita, já que se torna notório o envolvimento amoroso de Pantaleão com uma das visitadoras, a Brasileira, nome de Olga, a qual, com sua beleza marcante, se destaca das outras, caindo nas graças do capitão e recebendo tratamento diferenciado. Torna-se a estrela das visitadoras, ajudando o serviço a tornar-se conhecido por toda comunidade local, tornando-se um risco, já que começam a ser registrados ataques de moradores das localidades aos comboios das mulheres. Num desses ataques, o barco de transporte das visitadoras é invadido e Brasileira é violentamente assassinada. Seu sepultamento, organizado por Pantaleão, é realizado com todas as honras de um militar, o que chama a atenção da sociedade.

Após o assassinato da bela Brasileira e de seu sepultamento pomposo, o exército dissolve o SVGPFA. Pantaleão, negando categoricamente o pedido de baixa do serviço militar, é então enviado para a Guarnição de Pomata, lugar distante, quase esquecido, mantendo-se afastado por pelo menos um ano, de modo que se possa redimir do mal que causou e para que todos esqueçam as histórias do capitão e seu exército de visitadoras. Em “Pantaleão e as Visitadoras”, percebe-se que diversos mecanismos de controle social são lançados sobre os personagens, exercendo coerção sobre seus comportamentos à medida que são percebidas mudanças na maneira de agir das visitadoras. Estas formam um grupo que veem o SVGPFA como um espaço de proteção, reconhecimento e valorização de seu trabalho. O processo de disciplinamento desse grupo é percebido quando adotam fardamento próprio, aceitam cumprir ordens e horários e criam o hino das visitadoras. Este ordenamento, longe de ser visto por elas como ponto negativo, é responsável pelo fortalecimento de suas identidades, tanto que participar do serviço de visitadoras passa a ser o “sonho” das prostitutas locais. A despeito da possibilidade de transgressão das relações de poder, o livro deixa bastante claro que aqueles que transgridem valores e princípios estabelecidos socialmente, normalmente são punidos de algum modo. Pelas infrações cometidas, Pantaleão e Brasileira são “punidos”, mecanismo de controle necessário para a manutenção de princípios que regem a sociedade e a família. Percebe-se, então, um constante processo de reprodução social, e o próprio funcionamento do serviço de visitadoras sofre o castigo de sua extinção. Começando como um modesto empreendimento, logo alcança grande êxito, sendo o centro das atenções de toda comunidade local. Pelo caráter adverso que o SVGPFA guarda em relação ao exército, sua ampliação torna-se uma ameaça e precisa ser desfeito. Desta forma, a obra de Mario Vargas Llosa traça um panorama real da sociedade, suas instituições, interesses e mecanismos que conformam os sujeitos, assegurando as ideologias que perpetuam a organização social vigente.

 

 

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