O Vermelho e o Negro, 1830 – Stendhal, 1783 – 1842

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O Vermelho e o Negro, 1830

Stendhal, 1783 – 1842

 

Henri Beyle, mais conhecido por seu pseudônimo Stendhal, é um escritor francês reconhecido particularmente por seu romance “O Vermelho e o Negro”, publicado em 1830. Outras obras também participam do renome do autor, tais como “A cartuxa de Parma”, em duas edições, uma de 1839 e outra, refeita em 1841, e cuja história inicia em 1796, quando da chegada do exército de Napoleão em Milão, o que desperta o sentimento de heroísmo e de mudança nos jovens da região, opostos ao continuísmo e ao colaboracionismo com a dominação do império austríaco. Pois bem, voltemos ao ”Vermelho e o Negro”: sendo esta  considerada a obra-prima de Stendhal, para muitos analistas, ela é primordialmente um livro político, enquanto para outros, trata-se de uma construção romântica, e ainda alguns o elogiam como uma profunda análise psicossocial de sua época. Quanto ao título, em parte curioso, alguns estudiosos afirmam que ele deve-se ao fato de “negro” corresponder à batina que o jovem “herói” vestiu, por um período, e o “vermelho” lembrar a cor usada pelo exército de Napoleão I; o autor nunca explicou seu título. Como percebemos, trata-se de um romance amplo, abrangente de vários tópicos, desde os mais recônditos no tipo de comportamento humano, até às mais estridentes denúncias coletivas. Avançando no tempo, e como se escrevesse uma “bioficção” atual, algumas similitudes vêm à tona entre a infância e o início de juventude do autor, e o que ele conta-nos em “O Vermelho e o Negro”: sua amada mãe morre quando ele, Stendhal, era muito pequeno e sua criação fica a cargo de seu velho avô, compreensivo e bom, e de seu pai, o qual o despreza por achá-lo um fraco; esses elementos são retomados no início do citado livro, quando o personagem principal, Julien Sorel, é humilhado por seu pai, com o qual ele trabalha na serraria da família, e aquele joga nas águas de um rio próximo o livro de poesias que o jovem lia. Dali em diante, ele é auxiliado pelo capelão da escola local que o encaminha a um convento em uma cidade um pouco maior, na qual aprofundará seus conhecimentos de latim; mas ele não se identifica com os colegas, tinha uma mente brilhante, enquanto os outros só obedeciam o que lhes ordenavam fazer, e “só esperavam pela hora da refeição”, segundo suas palavras. A seguir, o prior local encaminha-o para trabalhar junto ao prefeito local, também proprietário de uma fábrica e pregos; o jovem aprendiz o tem como um homem “muito educado, excetuando quando se tratava de dinheiro”, ou seja, não remunerava seu trabalho; ainda, segundo Julien, aquele “senhor era a pessoa mais aristocrática” da cidade. Se o emprego e o salário não iam bem, já o lado sentimental despontava no início de uma vida amorosa ente Julien e a esposa do empresário, a senhora Maria Luísa de Rênal, cujo dote fizera a fortuna do senhor fabricante de pregos. Maria Luísa era mãe dedicada de três filhos, e quando a menor adoece, ela imagina ser esse seu castigo pelo adultério cometido, e por isso, ela desfaz o romance com Sorel. Em seguida, ele parte para ser o secretário e assessor jurídico do Marquês de la Mole, nobre de grande fortuna,  proprietário e senhor de terras e estabelecido em Paris. Como observação, nós, leitores, podemos notar que a trajetória de deslocamento espacial de Julien Sorel, o qual parte do interior de uma pequena região, depois instala-se por algum tempo em uma cidade maior e, finalmente, alcança Paris, essa mudança de um lugar para outro, corresponde a seu crescimento como personalidade e como conduta social; é por isso que este livro é chamado de “romance de aprendizagem”, ou seja, o “herói” da história desenvolve-se enquanto se locomove de um ponto a outro de seu país, sempre em um crescendo de importância e sabedoria das coisas. Voltamos ao foco da narrativa: o marquês tem uma filha, Mathilde, a qual despreza os rapazes pretendentes que a rodeiam, todos considerados por ela como fúteis e aproveitadores das fortunas de seus pais; a partir dessas ideias, a jovem interessa-se por Julien Sorel, o qual é um rapaz de origem humilde, mas muito inteligente e perspicaz, e ela, interessada em amar um jovem pobre, e sendo uma moça bela, engenhosa e sedutora, ambos mantêm um romance de alguns meses, até que uma serviçal os denuncia ao marquês, obrigando Sorel a terminar aquele relacionamento. Como a família envolvida pertence ao mais alto nível social, o Marquês de la Mole toma a decisão de proporcionar a Julien um posto no exército de Estrasburgo, já na fronteira nordeste com a Alemanha; assim, o filho do carpinteiro transforma-se em “Senhor Cavalheiro Julien Sorel”. Mais adiante, enquanto Mathilde escreve uma carta a Julien propondo reencontrarem-se em Paris, o marquês seu pai recebe uma missiva em que a primeira amante de Sorel, Madame de Rênal, expõe tudo que se passou entre eles e acusa-o de “imoralidade da parte de alguém interesseiro e ambicioso”. Julien toma conhecimento dessa correspondência, sai de Paris e vai à cidade da família Rênal, seu ex-amor, Maria Luísa de Rêrnal está na igreja, Sorel adentra o templo e atira com uma pistola contra a senhora, por duas vezes. Imediatamente, é preso, e alguns meses depois, é executado na guilhotina. Ele nunca chegou a saber que não a matara, os tiros não a atingiram. Interessante saber que Stendhal confessa ter-se inspirado em um fato real, noticiado na imprensa, quando um jovem atirou na amante, em plena igreja, sendo que ela também consegue sobreviver aos ferimentos e ele, igualmente, fora executado em sua cidade, no interior. Não há como errar, “O Vermelho e o Negro” pode ser classificado como um romance psicológico: nele, o personagem principal, Jean Sorel, é objeto de um estudo profundo; ambição, amor, mágoa, passado, tudo é analisado, o leitor segue com interesse crescente os meandros de seus pensamentos, os quais condicionam suas ações. Igualmente, pode-se dizer de Mathilde ou da senhora Rênal, suas respectivas paixões por Julien, iguais uma à outra, também são analisadas em perspectiva; todos são “postos a nu”, sob a pluma de Stendhal. Por isso, o primeiro subtítulo de seu romance é “Crônica do século XIX” e, finalmente, o que perdura hoje, é “Crônica de 1830”. Não é por pouca coisa que este é um livro considerado por especialistas e por outros escritores, como um dos dez maiores textos jamais escritos. Seus “romances de formação” – também podem ser chamados assim – colocam o autor, Standhal, ao lado de Balzac, de Hugo, de Flaubert ou de Zola, como um dos grandes representantes literários do século XIX. A propósito, há boas traduções da obra em português do Brasil; portanto, boa leitura!

 

 

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