Aleph, a esfera que tudo reflete
Jorge Luis Borges, 1899 – 1986
Jorge Luis Borges, escritor argentino, nasceu em Buenos Aires, em agosto de 1899 e morreu em Genebra, Suíça, em junho de 1986. Foi autor de contos, mas também foi ensaísta, poeta e tradutor, além de ter sido igualmente uma figura-chave tanto para a literatura em língua espanhola, como para a literatura universal. Seus dois livros mais difundidos são “Ficções”, uma coletânea de contos, publicada pela primeira vez em 1944, e “O Aleph”, impresso em 1949, também um conjunto de relatos breves. Essas duas obras conectam-se através de seus temas comuns, como os sonhos, os labirintos, a filosofia, as bibliotecas, os espelhos, autores fictícios, a mitologia europeia, sobretudo a clássica e a anglo-saxã, e ainda as histórias de heróis populares, mesclando a realidade com a fantasia e os feitos com a ficção; como consequência, esses livros contribuíram muito para a difusão da literatura filosófica e para o gênero fantástico, e marcam o começo do movimento chamado realismo mágico, tanto no continente americano, quanto na Europa, que foi em grande proporção influenciada por esse impulso de novidade na linguagem escrita, no século XX. Borges tem ascendência espanhola, portuguesa e escocesa, e sua família mudou-se para a Suíça em 1914, o que possibilitou ao jovem o aprendizado de várias línguas, assim como o contato com diferentes culturas. Regressou à Argentina em 1921, quando começa a publicar seus poemas e ensaios, tendo também trabalhado como bibliotecário, professor e conferencista; em 1955, foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional de seu país e ainda professor de literatura inglesa na Universidade de Buenos Aires. Durante os anos sessenta, seu trabalho foi traduzido e publicado nos Estados Unidos e na Europa, e logo em seguida, alcança renome internacional ao receber o primeiro prêmio Formentor, importante distinção no ambiente literário mundial. Na década de setenta, ganha o prêmio Jerusalém, outorgado a escritores cujo trabalho destaca-se na luta pela liberdade do indivíduo no contexto da sociedade atual. Sem ser propriamente filósofo, Borges era, entretanto, um ávido leitor de filosofia; tal particularidade reflete-se nos elementos originais com que realiza, em seus textos, a abordagem das ideias filosóficas, as quais aparecem de forma a produzir em seus leitores sua vivência, antes de sua conceituação; assim fazendo, Borges resgata certas informações e as apresenta como elementos literários, destacando o que aquelas contêm de vívido e de maravilhoso, apelando para a intuição do leitor antes de sua capacitação conceitual ou argumentativa. Com um manejo inusual das palavras, a literatura borgiana produz uma renovação da linguagem narrativa, onde destaca a índole fictícia do tema e propõe um contexto lúdico, ao desafiar o leitor a resolver um enigma. É exatamente isso o que encontramos em uma de suas obras-primas, a saber, o conto “O Aleph”, o qual integra o conjunto de contos sob o mesmo título, “O Aleph”; aleph é a primeira letra do alfabeto hebreu e mais, ele é considerado o ponto mítico para o qual convergem todos os pontos do universo; esse mito é trabalhado mediante uma narração maravilhosa situada fora do tempo habitual e ainda protagonizada por personagens inusitados. O mito, como sabemos, é uma construção imaginária que procura explicar fenômenos simbólicos de energia, de poder, de aspectos até então recônditos da condição humana. “O Aleph” narra a história do personagem chamado Borges – ironia do autor, sem dúvida – o qual descobre um objeto na casa de uma antiga amada, cujo nome é Beatriz, já falecida há alguns anos. Nossa curiosidade de leitor é instigada e perguntamos: trata-se de que objeto? Mais adiante, obtemos a resposta: o objeto buscado é uma esfera, de aproximadamente três centímetros de diâmetro, a qual se encontra no porão dessa velha casa abandonada. Esta esfera espelha, reflete tudo que acontece no mundo, é o centro de todas as coisas, é em sua direção que tudo conflui e nela tudo que ocorre nos recantos do planeta e nas situações humanas, ali pode ser observado. Nesse relato intenso – o conto é constituído somente de dezoito páginas – surgem temas recorrentes como a biblioteca, a descida ao porão, o qual sentimo-nos autorizados a convertê-lo em labirinto, e ainda, se formos mais além, se usarmos de nossa imaginação já instigada por essa narrativa insólita, estaremos em condições de crer que a amada morta, Beatriz, é aquela mesma idealizada por Dante Alighieri, no início do século XIV; aquele amor platônico do escritor italiano guia o mesmo por um conjunto de esferas concêntricas que cercam a terra, e Beatriz está presente, na obra máxima de Dante, já na terceira e última parte da “Divina Comédia” (1304-1321); por que não pensarmos que essa esfera não seja a mesma encontrada pelo personagem Borges? No final do conto, este chega a duvidar que tenha encontrado essa esfera, ele questiona mesmo seu amor por Beatriz, ele nos ensina que a “trágica erosão dos anos” faz-nos esquecer de nossos amores. Felizmente, a literatura tudo pode, assim com a esfera Aleph tudo reflete. A alegoria do primeiro ponto mítico carrega consigo a visão filosófica escrita de maneira simbólica, com o intuito de nos apresentar um porto seguro nessa época de tantas dúvidas. Salve o autor, porque quem lê esse conto vive um pouco melhor e mais sabiamente!
