O Senhor da torre
Michel de Montaigne, 1533-1592
Em nossa coluna de hoje, falaremos de um autor que viveu os últimos vinte anos de sua vida confinado em sua torre, localizada em seu castelo; por isso, o chamamos de o Senhor da torre. Este senhor enclausurado chama-se Michel de Montaigne, francês que nasceu e viveu no século XVI, entre os anos de 1533 e 1592, em uma época particularmente atribulada por sectarismos e ambições que terminam nas chamadas guerras de religião, as quais expressam, na realidade, a luta pelo trono, pelo poder. Considera-se Montaigne um filósofo, um escritor humanista e moralista da Renascença, além de um autor erudito, precursor e fundador das ciências humanas e históricas. Nasceu em uma família abastada, rica em bens materiais como em conhecimentos culturais, e usufruiu de uma educação de excelente qualidade, recebendo aulas em grego e em latim, familiarizando-se com grandes pensadores da Antiguidade clássica. A partir de 1556, antes de completar vinte e três anos de idade, passou a ocupar um posto de conselheiro no parlamento de sua terra, a Dordonha, e ali trabalhou por treze anos; a seguir, ocupa o cargo de diplomata de primeiro nível, destacando-se por suas qualidades de negociador e tendo reconhecidas sua moderação, honestidade e imparcialidade no trato de questões internacionais ; finalmente, retira-se em 1571, com o título de cavaleiro da ordem de São Miguel, passando a ocupar-se da administração dos bens da família. A partir de então, Montaigne encerra-se em seu castelo, mais especificamente, em sua biblioteca cujas vigas de madeira contêm inscrições que reproduzem frases de autores clássicos, e começa a escrever sua obra maior, seus «Ensaios». Estes são divididos em três volumes, sendo o primeiro editado em 1580, o segundo em 1582 e o terceiro em 1588. Montaigne escolhe o francês para escrever seus ensaios, em uma época que se utilizava o latim para esse tipo de escrita ; ele mesmo explica-nos porque preferiu assim, ao dizer que «… esta é a língua que amo, uma linguagem simples e natural, tanto no papel como na boca». Montaigne escreve sua obra como ele fala, com naturalidade, ele afirma que suas «… ideias o seguem, que seu estilo e seu espírito saltam de um assunto a outro» ; dessa forma, o autor revoluciona a arte de escrever, não poupando os temas que fossem, não evitando nenhum constrangimento possível, ou seja, ele adverte-nos que «… decidiu descrever a si mesmo». O cotidiano lhe interessa, assim como os objetos familiares ou as situações mais prosaicas, nada lhe é estranho, tema algum lhe é interdito, e para assim fazê-lo, o autor lança mão de ricas comparações, de férteis metáforas e, sobretudo, de uma coragem até então desconhecida na literatura ocidental. Assim procedendo, Montaigne ensina-nos a ser humanos, a nos conhecermos melhor e a termos consciência de que nossas atitudes e feitos repercutem e nos trazem de volta aquilo que praticáramos ; não há ensinamento moral mais relevante que este, o de que devemos ter para com os outros a mesma consideração que exigimos para nós mesmos. Ressalte-se, ainda, que esse autor foi um nobre e rico senhor, que viveu em um tempo que as divergências religiosas – e consequentemente – políticas, todas ajuntadas confusamente, eram decididas em atos de perseguição e violência; pois mesmo assim, e, certamente, por isso mesmo, Montaigne decide afastar-se para poder expor seu pensamento a todos que se interessem, e confessa, em sua obra, que ele «… mostra-se como ele é, e descreve os homens como eles são, bem ou mal formados.» Sendo um pensador, Montaigne nos diz que a «… filosofia é a ciência que nos ensina a viver», sendo esta, para ele, o pensamento vivo que se confronta com temas essenciais, a saber, o amor, a morte, a amizade, a educação das crianças, a solidão, e também conosco mesmos, caracterizando, assim, a filosofia como o aprendizado da sabedoria, o que nos levará a viver com felicidade, ou da maneira mais feliz possível. Um dos eixos de sua obra é quando o autor ensina a desconfiarmos dos extremismos e a sermos tolerantes, «… as pessoas enganam-se quando seguem pelos extremos, a via central é mais larga e possibilita-nos chegar onde queremos com mais dignidade e nobreza de alma», e ainda, «… não compartilho desse erro comum de julgar o outro pelo que eu sou. Creio, tranquilamente, que há qualidades diferentes das minhas ; … admito mais facilmente em nós, seres humanos, a diferença que a semelhança.» Assim, acredito que podemos aprender um pouco com o senhor Montaigne: menos indiferença e mais compaixão, mais racionalidade e menos obscurantismo, menos terror da morte e mais alegria da vida.
