Teatro – Segunda parte
Molière: o Tartufo ou o Impostor
João Batista Poquelin nasceu em 1622, em Paris, e morreu em 1673, também em Paris. Esses dados não nos importariam nada se não fosse que, a partir de seus 21 anos de idade, João Batista se transformasse em Molière, o grande autor de comédias, de farsas e de comédias-balé, reconhecido mundialmente como um dos maiores dramaturgos da cultura ocidental, além de ter vários adjetivos derivados de seu nome artístico – como “molieresco” ou “o estilo de escrever ao modo de Molière” – e igualmente muitos termos criados por ele os quais entraram no vocabulário francês – como “tartufo” ou “hipócrita”. A obra de Molière, cerca de trinta comédias em versos ou em prosa, acompanhadas ou não de entradas de música e de balé, constitui um dos pilares do ensino literário francês; ela continua a obter um vivo sucesso na França e no mundo inteiro, e permanece como uma das referências da literatura universal. Sua vida movimentada e sua forte personalidade inspiraram autores e obras sobre seu percurso, e o sinal de que ele ocupa um posto ímpar de destaque na cultura francesa e de expressão francesa, é que o francês é seguidamente designado pela perífrase “a língua de Molière”, assim como “a língua de Goethe” representa o alemão, ou como o inglês é considerada a “língua de Shakespeare”, ou ainda como chamamos o italiano de “a língua de Dante”, ou o espanhol “a língua de Cervantes”. Entre as obras principais de Molière destacamos “As preciosas ridículas” (1659), “A escola de mulheres” (1662), “Don Juan ou o Festim da lápide” (1665), “O Misantropo” (1666), “O Avarento” (1668), “O Tartufo” (1669), “O doente imaginário” (1673). Molière foi um grande crítico dos costumes dos indivíduos da sociedade de sua época, os quais ele transformou em personagens de suas peças; como observador lúcido e penetrante, ele descreve os modos e os comportamentos de seus contemporâneos, recorrendo a uma análise psicológica complexa e não poupando ninguém de sua visão julgadora. Foi também criador de formas dramáticas, intérprete do papel principal na maioria de suas peças, e explorou exemplarmente diversos recursos cômicos, como o verbal, o gestual e o visual das situações. Molière percorreu a França e alguns países limítrofes com sua companhia teatral, e voltou a Paris em 1658, quando, em seguida, torna-se o autor favorito do jovem rei Luís XIV (1638-1715); dessa forma, o rei concede-lhe o privilégio de apresentar suas obras em palácio, no Castelo Velho de Saint-Germain-en-Laye, aproximadamente a 20 km de Paris, podendo assim contar com os melhores arquitetos cênicos, coreógrafos e músicos de seu tempo. Sabendo do gosto e da habilidade do rei relativos à dança, o autor cria um novo gênero, a comédia-balé, integrando música e dança ao texto : essa “intromissão” musical acontece entre o primeiro ato e o segundo, no estilo das farsas medievais, sendo seu sentido agora renovado e integrado dentro de um contexto dramático; essa é também uma inovação. Molière morre à idade de 51 anos, algumas horas depois de se ter apresentado pela quarta vez no principal papel de “O doente imaginário”, em 1673. Dentre suas principais obras, destacamos “O Tartufo”, composta em 1669, para analisarmos mais de perto. “O Tartufo ou o Impostor” é uma peça em cinco atos, cuja representação foi liberada após uma série de interdições por parte das autoridades policiais e judiciárias da época, tendo em vista seu conteúdo, considerado inapropriado aos nobres habitantes da corte assim como às famílias de Paris. Trata-se de uma sátira da falsa devoção, o que coloca aquela prática religiosa sob a óptica do cômico e até do ridículo, o que escandaliza os milhares de devotos da época. Molière consegue a absolvição de sua obra junto ao rei, expondo que “o dever da comédia é o de corrigir os homens enquanto os diverte; não tenho nada melhor a fazer do que essas pinturas ridículas dos vícios de meu século; e como a hipocrisia é um dos que estão mais em uso, além de ser um dos mais incômodos e perigosos, pensei que eu pudesse prestar um serviço a todos os homens corretos de seu reino, se eu fizesse uma comédia em que eu descrevesse os hipócritas e colocasse à vista todas as canalhices acobertadas por esses falsos devotos, que querem enganar as pessoas com um zelo monstruoso e uma caridade falsa”. Enfim, seus contemporâneos reconhecem Molière como “um escritor capaz de propor pinturas exatas dos caracteres e dos costumes de seu tempo”. O resumo da peça é o seguinte: Orgon é o arquétipo do personagem da corte, sob a influência de Tartufo, este um hipócrita e falso devoto; também a mãe de Orgon, Madame Pernelle, é ludibriada por Tartufo, o qual consegue manipular as pessoas da família a tal ponto que chega a tornar-se seu “diretor de consciência”, isso significa que ele escuta confissões e segredos de todos da casa Orgon; assim fazendo, ele domina suas vontades e prepara o golpe final para apoderar-se de heranças e de bens familiares; chega ao cúmulo de tomar posse de papéis comprometedores do chefe da família e dirige-se ao rei para entregá-los; esse é seu erro fatal porque o rei conservou sua afeição por Orgon, o qual já o servira fielmente em tempos passados de revoltas contra o reino; ao final, o rei perdoa Orgon, e é Tartufo quem é preso. Algumas curiosidades sobre o nome do personagem-título, Tartufo: várias hipóteses sobra sua origem já percorreram séculos de opiniões e discussões, mas nenhuma aprovada; de qualquer forma, quando Molière escolheu chamar assim seu hipócrita, essa palavra tornou-se já há muito tempo, um substantivo comum do vocabulário francês, com ortografia variável; e ainda, quanto à encenação da peça, esta continua sendo interpretada em numerosas adaptações, talvez mais de 150, em diversos países de todo mundo. Chegamos assim, ao final desta coluna, com uma pergunta quase desnecessária e com uma resposta que salta às consciências de quem a leu: por quê continuamos encenando uma peça de 350 anos de idade? O que ela tem a ver conosco, que vivemos em uma época de grande avanço tecnológico e de transmissões em tempo real? Resposta: porque os hipócritas continuam a nosso redor, porque eles se travestem de amigos para avançar em nosso espírito e roubar o que temos de mais precioso, a saber, nosso livre arbítrio, através do qual demonstramos nossa liberdade de escolha e nosso conhecimento das consequências!
