Martins Pena, 1815-1848 – O consolidador do teatro no Brasil

Imprimir Post

Martins Pena, 1815 – 1848

O consolidador do teatro no Brasil

 

Luís Carlos Martins Pena nasceu no Rio de Janeiro, filho de uma família de posses medianas, seu pai foi desembargador e morreu quando o menino tinha somente um ano de idade, mais adiante, sua mãe casou-se novamente, mas morreu quando ele mal completara dez anos; a seguir, seu padrasto, um militar, deixou-o sob tutela e, seguindo a orientação dos tutores, ingressou na carreira comercial e concluiu em 1835, aos vinte anos, o curso de Comércio. Estudou, ainda, literatura, teatro, desenho, música, arquitetura, história, além de outras línguas; devido a essa competência linguística, Martins Pena ingressou na carreira diplomática, tendo trabalhado principalmente em Londres e em Portugal. Programou seu regresso ao Brasil, e na viagem de volta à pátria, o autor sofreu complicações da tuberculose que adquirira há algum tempo; como consequência, faleceu em Lisboa, em 1848, tendo vivido somente trinta e três anos. Martins Pena é considerado o consolidador do teatro no Brasil com suas comédias de costumes que até hoje são representadas; é patrono da cadeira 29 na Academia Brasileira de Letras. Ao mesmo tempo que se despontava como escritor de peças teatrais, exercia diversos cargos no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Além de fundador da comédia de costumes no Brasil, escreveu outros gêneros como farsas e dramas e contribuiu no Jornal do Commercio como crítico teatral. A primeira representação de um texto do autor foi em outubro de 1838 e a peça era “O juiz de paz da roça”, no Teatro São Pedro, no Rio de Janeiro. Podemos dedicar algumas linhas à definição de “comédia de costumes”, para que se torne mais compreensível o significado do termo; trata-se de um gênero teatral que tem como modelo de origem as peças escritas pelo autor francês Molière, no século XVII; já no Brasil, o pioneiro do gênero é precisamente Martins Pena, e o que nosso autor realiza é uma sátira social, através da análise de comportamentos e costumes corriqueiros das pessoas das mais diferentes camadas, tratando frequentemente de amores ilícitos, da violação de certas normas de conduta, ou de qualquer outro assunto, sempre subordinados a uma atmosfera cômica; a trama desenvolve-se a partir dos códigos sociais existentes, ou de sua ausência, na sociedade retratada; as principais preocupações dos personagens são a vida amorosa, o dinheiro e o desejo de ascensão social; o tom é predominantemente satírico, espirituoso e cômico, oscilando entre o diálogo vivo e cheio de ironia e uma linguagem às vezes conivente com a amoralidade dos costumes. Ou seja, nada melhor que uma comédia para que se conheça uma sociedade! Ressaltamos que sua obra consta do período ainda anterior ao romantismo, mas é considerada como teatro romântico, ou seja, aquele que se desenvolve primeiramente na Europa, no início do século XIX, em meio ao movimento que produz uma grande renovação das artes e da maneira de ver o mundo; em síntese, o teatro de Martins Pena, fazendo parte da corrente romântica, ele “finge” ser um espelho no qual toda a sociedade pode ser refletida. Suas peças brincam com os costumes na época da nobreza, com personagens populares, como que tirados das ruas do Rio de Janeiro e colocados no papel: malandros, moças com ânsias em casar, juízes, estrangeiros, jovens pomposos, velhas solteiras, funcionários públicos, meirinhos, contrabandistas, etc. O âmbito social e o enredo escolhidos por Martins Pena também refletem os procedimentos da época: casamentos, festas na roça, festas da cidade, decisão de herança, pagamento de dotes, e assim por diante. Martins Pena, com certeza, ofereceu uma identidade ao teatro brasileiro, dando ao mesmo cunho histórico, uma vez que retrata a própria sociedade brasileira da primeira metade do século XIX. Suas obras de maior destaque são Um Sertanejo na Corte (1833-37), O Juiz de Paz da Roça (1838), O Cigano (1845), As Casadas Solteiras (1845), O Noviço (1845), O Namorador ou A Noite de São João (1845), O Caixeiro da Taverna (1845), Os Meirinhos (1845), O Judas em Sábado de Aleluia (1846), Os Ciúmes de um Pedestre ou O Terrível Capitão do Mato (1846), Os Irmãos das Almas (1846), O Diletante (1846), Quem Casa, Quer Casa (1847). Vamos analisar um pouco mais detalhadamente aquela que é considerada sua obra maior, O Juiz de Paz da Roça (1838); trata-se de uma comédia em um ato e 23 cenas, primeiro trabalho de Martins Pena a ser representado, como já dissemos, e o foi pela companhia teatral de João Caetano, a mais importante da época, na então capital do país. Sua estrutura é composta por diálogos curtos e igualmente por gestos, expressões corporais e fisionômicas; é uma obra influenciada pelo teatro ardiloso europeu, sobretudo de França e de Espanha, possui, além da crítica social e do diálogo coloquial, características posteriormente encontradas na chanchada, no teatro de revista e outros gêneros populares, como a piada de duplo sentido e a utilização de danças e canções; além disso, traz também, sob a influência dos textos estrangeiros, o teatro que, por meio do riso, realiza a descrição e o comentário divertido ou perverso, a chacota, a zombaria, e tudo de forma simples, natural, espontânea, ágil. Seu enredo é simples e é o seguinte: a peça desenrola-se na roça e aborda com humor o jeito particular de ser da gente roceira do Brasil do século XIX, focando as cenas em torno de uma família rural e do cotidiano de um juiz de paz, não muito douto em leis – há uma cena em que ele pede a seu assistente que lhe arranje alguém que escreva uma sentença em seu lugar, porque ele não o sabe fazer; e tudo transcorre neste ambiente e o autor vai explorando uma série de situações em que transbordam a simplicidade e inocência daquelas pessoas. O personagem principal, o juiz de paz é um pequeno corrupto que usa a autoridade e a inteligência para lidar com a absurda inocência dos roceiros, os quais lhe trazem os mais cômicos casos. O escrivão aparece como servo mais próximo do juiz e é ele que viabiliza suas ordens; no entanto, ele não é intencionalmente corrupto e chega a surpreender-se com algumas decisões de seu superior. Ainda temos as seguinte figuras: a família do lavrador Manoel João e mais José da Fonseca, amante de Aninha, a filha do juiz; esses formam o núcleo mais importante da peça; os outros personagens são roceiros que servem para apresentar ao juiz de paz as esdrúxulas situações que ele deve resolver. Como exemplo do desenvolvimento teatral na composição desse texto, destacamos uma determinada cena na qual entra o Escrivão e este traz uma intimação do Juiz de Paz: o lavrador Manuel João tem de levar até a cidade um prisioneiro como recruta para a revolta que está acontecendo no Rio Grande do Sul. Manoel João não entende por que justo ele tem de realizar tal tarefa, o que representaria a perda de um dia de trabalho. As preocupações imediatas, ligadas à sobrevivência, entram em foco de maneira soberana e ele mais uma vez protesta, dizendo que ele não tinha culpa nenhuma dos problemas arranjados pelo governo, e nem mesmo dá atenção ao argumento ligado a patriotismo; no entanto, cede, diante da ameaça de prisão. Observe-se que há críticas fortes aqui que chegam a se chocar com o conjunto de valores de nossa sociedade. Seu efeito só não é de imediato fulminante porque tudo se dilui em meio ao humor e principalmente por estar na boca de um personagem que age de forma tão estabanada. A partida do lavrador Manuel João é feita em meio a inúmeras recomendações sobre as tarefas a serem executadas de ambos os lados, tanto para os que ficam, quanto para o que vai. Mais uma vez o cotidiano simples é retratado de forma viva, natural e colorida; sua obra revela com ironia e humor as graças e desventuras da sociedade brasileira e de suas instituições. Toda a peça transcorre dessa maneira e, no final, as trapalhadas do juiz, sua corrupção e falta de conhecimento terminam por ser de tal forma repetidas que o público já acostumou-se à tal situação e é o próprio juiz da roça que encerra a comédia cantando “Tudo termina bem, em festança, em folguedo, afugentando todo e qualquer elemento que pudesse desagradar os padrões do público desta sessão!” É isso ai, parece ser este mesmo nosso destino de aceitação das coisas como se apresentam: quem nunca riu de um personagem burlesco, espertalhão, que não tem vergonha de seus atos censuráveis e, ao contrário, sempre se sai muito bem das piores situações de imoralidade e cinismo? Há vários por aí, em toda parte, em qualquer nível social ou prática profissional. Pois bem, para isso serve uma boa comédia de costumes, para que se possa rir e cobrar desses “personagens”, mesmo que metaforicamente, aquilo que eles provavelmente nos roubaram, seja nosso dinheiro, ou nosso sossego, ou ainda nossa esperança.

 

 

[]
1 Step 1
Envie seu Comentário

Normas de uso

Comentários sobre esta página podem ser moderados. Nesse caso, eles não aparecerão imediatamente na página quando forem enviados. Evite desqualificações pessoais, insultos e comentários que não tenham nada a ver com o assunto. Comentários que violem essas regras básicas serão eliminados.


Mostrar meu e-mail publicamente
keyboard_arrow_leftPrevious
Nextkeyboard_arrow_right
Marcações: