Érico Veríssimo, 1905 – 1975

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Érico Veríssimo, 1905 – 1975

Escrever sobre Érico Veríssimo é quase como falar sobre um senhor vizinho nosso, com expressão reflexiva e tranquila. Quase é possível ainda encontrar-se com ele, ao sair da rua Sofia Veloso e chegar à avenida Osvaldo Aranha, porque na calçada oposta ao colégio estadual Instituto de Educação, lá está “seu” Érico praticando sua caminhada diária, vindo de sua casa no alto Petrópolis e para lá voltando, sempre a pé. Para mim, tal proximidade frequente não retira dele sua grandeza literária. Érico Veríssimo foi um dos escritores brasileiros mais populares do século XX e destaca- se como um dos mais importantes romancistas da literatura nacional, tendo sido, também, tradutor de obras importantes escritas originalmente em inglês e em francês. Seu texto é o de um autor da chamada geração de 1930, isto é, caracteriza-se pela linguagem sóbria e pela realização de obra de caráter inovador, tendo como objetivo facilitar o entendimento para o leitor médio, sem perder de vista a busca de autenticidade; Érico faz uso de palavras comuns e, forçosamente, lugares comuns da psicologia do cotidiano, sem, por isso, renunciar às novidades, como monólogos interiores de um personagem, uma trama não-linear, uma exposição dos personagens por focalização interna, e uma ordem temporal estilhaçada por flash-backs ou rememorações que assaltam a memória visual de maneira súbita. Especificamente em “O Tempo e o Vento”, o tempo é psicológico e não cronológico, não segue a ordem temporal, segue a memória dos personagens, os capítulos alternam-se entre a narração presente e os acontecimentos das gerações passadas, e já o título do livro significa a passagem do tempo e também a sucessão de gerações das famílias que fundaram nosso estado; o vento faz alusão ao próprio clima típico da região e também confirma o caráter passageiro da vida e dos acontecimentos, pois o vento “passa” assim como o tempo, a narrativa reflete a ideia de transitoriedade, ou seja, uma saga dos heróis do passado, que tiveram sua importância e estão com os nomes marcados na história. Por outro lado, observamos que o autor escreveu perto de cem obras e as teve reunidas em edições especiais de até 17 volumes; sua produção se divide em romance urbano, onde retrata os conflitos morais e espirituais de uma sociedade em crise, e em que livros como “Clarissa”, “Música ao longe”, “Olhai os lírios do campo”, entre outros, são exemplos desse tipo de romance; depois, temos o romance histórico, onde ele recupera a história do Rio Grande do Sul, desde os tempos coloniais, passando pela Revolta da Armada, ocorrida em 1893, até o início do governo de Getúlio Vargas, e aí destaca-se sua obra maior, “O Tempo e o Vento”, a qual totaliza duas mil e duzentas páginas e é composta por três romances, “O Continente”, “O Retrato” e “O Arquipélago”, publicados entre 1948, 1951 e 1961; e ainda temos o romance político internacional, como “O Prisioneiro”, “ O senhor Embaixador” e “Incidente em Antares”. Desta forma, Érico Veríssimo foi o responsável pela inclusão do Rio Grande do Sul na vanguarda intelectual do país, e, via de consequência, tornou-se conhecido no exterior, especialmente nos Estados Unidos da América e em Portugal. Érico foi muito próximo dos Estados Unidos, já em 1941, ele morou por três meses naquele país, convidado para proferir conferências, em uma estada financiada pelo Departamento de Estado como parte da Política da Boa Vizinhança, do governo de Franklin Roosevelt. Em 1943, ele retorna com a família para os Estados Unidos, atendendo a novo convite do Departamento de Estado, desta vez para uma estada de dois anos, durante os quais ministrou aulas de Literatura Brasileira na Universidade da Califórnia, em Berkeley; sobre essas viagens ao exterior, Érico escreveu dois livros, “Gato preto em campo de neve”, editado em 1941, e “A volta do gato preto”, em 1947; também resultou dessas temporadas, seu ensaio sobra a literatura brasileira, intitulado “Brazilian Literature”, publicado posteriormente, já em 1969. Ao longo de sua profissão de escritor, Érico foi homenageado com os seguintes prêmios e títulos: Prêmio Machado de Assis, da Cia. Editora Nacional, em 1934, por “Música ao longe”, Prêmio Fundação Graça Aranha por “Caminhos cruzados”, título Doutor Honoris Causa, em 1944, pelo Mills College, de Oakland, Califórnia, onde dava aulas de Literatura e História do Brasil, Prêmio Machado de Assis, em 1954, concedido pela Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra, título de Cidadão de Porto Alegre, em 1964, conferido pela Câmara de Vereadores da cidade, Prêmio Jabuti – Categoria Romance, da Câmara Brasileira de Livros, em 1965, por “O senhor Embaixador”, Prêmio Intelectual do Ano, Troféu Juca Pato, em 1968, concedido pelo jornal Folha de São Paulo e pela União Brasileira de Escritores. Por ocasião de sua morte física – já que suas emoções e seus pensamentos continuam vivos em seus textos –  Carlos Drummond de Andrade publicou o poema “A falta de Érico Verissimo”, no qual ele lamenta que “Falta aquele homem no escritório / a tirar da máquina elétrica / o destino dos seres, / a explicação antiga da terra”; impossível maior elogio, um autor que torna claro para nós o que ocorre com os “seres”, ou melhor, o que nos cabe nessa trajetória, e ainda nos faz entender nossa situação, nossa posição neste planeta. Ressaltamos, ainda, que os principais livros de Érico Verissimo foram traduzidos para o alemão, espanhol, finlandês, francês, holandês, húngaro, indonésio, inglês, italiano, japonês, norueguês, polonês, romeno, russo, sueco e tcheco, e ainda adaptados, várias vezes, para diferentes mídias, como teatro, televisão e cinema. Retornando a sua obra principal, “O Tempo e o Vento”, esta conta-nos uma parte da história do Brasil vista a partir do Sul, da ocupação do “Continente de São Pedro”, em 1745, até o fim do Estado Novo, em 1945, através da saga das famílias Terra e Cambará; podemos afirmar que se trata de um relato definitivo do estado do Rio Grande do Sul e de igual importância na construção de nossa identidade nacional. Do ponto de vista histórico-literário, além de “O Tempo e o Vento” ser um símbolo da literatura regionalista, o autor inova ainda ao introduzir um capítulo narrado por uma personagem feminina, Sílvia, que apresenta os personagens de “O Arquipélago” sob um ângulo diferente, e mais: lembremo-nos de que as mulheres de seus romances são sempre mulheres fortes, principalmente no sofrimento, elas são tipos antológicos como Ana Terra, Bibiana e Maria Valéria; estas três constituem as matriarcas da família e suas qualidades enérgicas mantêm-se ao longo das gerações. Pois muito bem, senhoras e senhores, e para finalizar, orgulhemo-nos por contar com este autor de nossa terra, este escritor de personalidade suave mas de presença decisiva e inesquecível que foi – e que é – Érico Veríssimo.

 

 

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