Edgar Morin, 1921
Terra-Pátria
Edgar Morin nasce em Paris, em 1921, é quase centenário, portanto, e seu pensamento mantém-se lúcido e seu espírito continua brilhante, felizmente. Considerado por muitos como um dos maiores pensadores vivos do Ocidente, ele permanece uma pessoa acessível e mantém o prazer e a alegria de expor suas ideias. Morin é filósofo, sociólogo e antropólogo, formado em Direito, História e Geografia; possui uma extensa obra publicada, perfazendo mais de um cento, sejam livros ou cursos, palestras, ainda entrevistas presenciais, quando era possível e, atualmente, via Internet; trata-se de um pensador da “complexidade”, cuja definição parte dele mesmo, qualificando-se como um “construtivista” e precisando: “eu falo da colaboração do mundo exterior e de nosso espirito, para construir a realidade”. Um dos setores de maior influência exercida por Edgar Morin, é, sem dúvida, a educação; segundo ele, o ensino deve ser um despertar para a filosofia, para a literatura, para a música, para as artes, e acrescenta: é isso que preenche a vida, é esse seu verdadeiro papel; quanto à filosofia, o pensador esclarece que o seu estudo deve ser um momento de reflexão, não tanto para que respostas sejam encontradas, mas para fomentar a investigação e a pluralidade de possíveis caminhos; finalmente, ele afirma que um dos principais objetivos da educação é ensinar valores, e esses são incorporados pelas crianças desde muito cedo, entre eles, o valor de se pertencer a nosso planeta, a Terra, considerando-se que os jovens têm de conhecer as particularidades do ser humano e o papel dele na era planetária que vivemos. Ainda tratando da volumosa produção intelectual de Edgar Morin, destacamos que se tem como sua obra maior “O Método”, classificada por seu autor como “enciclopédica”, e produzida entre 1977 e 2004, com o total de mais de duas mil páginas e composta de seis volumes, a saber: “A natureza da natureza”, publicado em 1977, “A vida da vida”, de 1980, “O conhecimento do conhecimento”, em 1986, “As ideias: seu habitat, sua vida, seus costumes, sua organização”, editado em 1991, “A humanidade da humanidade: a identidade humana”, em 2003, e em 2004, o sexto volume, “Ética”, o qual enlaça as demais manifestações. O fato de a “Ética” ser o tomo final e definidor dos demais, determina exatamente os limites dessa obra gigantesca e expressa bem o pensamento de seu autor, o qual permeia toda sua produção, a saber, o humanismo. É isso mesmo, em nossa época, direcionada exclusivamente para a conquista tecnológica, para o poder do lucro, seja a que preço for, pois bem, em meio a todo esse turbilhão em que estamos envoltos, e já faz algum tempo que tal ocorre, o autor nos faz progredir em direção às demais pessoas, no tratamento que a elas nós dispensamos, enfim, ele nos redireciona a nós mesmos. Neste sentido, destacamos também seu livro de 1993, “Terra-Pátria”, com 224 páginas, onde o autor transmite-nos que em nossa era planetária, rompe-se uma vaga de forças obscuras e bárbaras, enquanto que, do outro lado, manifesta-se também uma exigência mundial de viver e de viver melhor; assim, os sinais de morte e de vida confundem-se, e essa situação agônica não é somente o resultado de conflitos passados, nem de crises atuais; na realidade, e aqui está o fulcro de toda essa época perigosa que vivemos, é que notamos a impotência da humanidade de tornar-se humanidade; precisamente, somos arrastados nesse turbilhão que nos inflige uma sensação de insegurança e de desconforto, perdemos nossas referências realmente válidas, a saber, nossa convivência harmônica com a natureza, lembrando-se que nós fazemos parte dela e que, portanto, devemos respeito e cuidado com nossa terra-pátria: moramos neste planeta, e ele é a nossa casa. Aqui estamos nós, habitantes de um pequeno astro perdido no gigantismo do Universo; nossa árvore genealógica indica-nos nossa identidade terrestre, e mesmo assim, poucos de nós dão-se conta de que as pessoas são interdependentes umas das outras, e que é aí que se joga coletivamente o destino da humanidade. Como podemos atuar no sentido de nos livrarmos das imensas dificuldades que nos fatigam e nos abatem? A resposta é: quando tomarmos consciência da comunidade da qual fazemos parte, e da pátria comum a todos nós, isto é, quando cuidarmos bem de nossa morada, de nossa Terra-Pátria. Penso que crises planetárias podem ajudar na compreensão de que os verdadeiros valores são aqueles mais próximos a nós, aqueles que, muitas vezes, por hábito ou por incompreensão, mal olhamos e não nos detemos a valorizá-los, ao contrário, indispomo-nos exatamente contra aqueles elementos que nos salvam dessa insurgência negativa de nossa era; para que se consiga nossa salvação emocional e física, devemos dedicar nosso esforço ao trabalho ético de autocompreensão do ser humano como integrado à natureza, nessa nave-mãe chamada Terra-Pátria.
