“Contos exemplares” (1616)
Miguel de Cervantes (1547-1616)
Miguel de Cervantes Saavedra nasceu em Alcalá de Henares, cidade que se localiza nos arredores da capital espanhola, Madrid, e a data de seu nascimento não é certa, mas provavelmente tenha sido em 29 de setembro de 1547; ele morreu em Madrid, em 22 de abril de 1616, e atualmente, seus restos encontram-se em um monumento erigido em sua honra, na igreja de Santo Ildefonso do convento das Trinitárias. Cervantes foi romancista, poeta, dramaturgo e, quando jovem, foi soldado do rei Carlos I de Espanha, na batalha naval de Lepanto, na Grécia, no ano de 1571. A chamada Liga Santa, da qual Espanha participa, sai plenamente vitoriosa desse episódio contra o Império Otomano, e dele Miguel de Cervantes resultou ferido, perdeu a mobilidade da mão esquerda, o que lhe valeu o apelido de “o manco de Lepanto”. Esse fato será retomado pelo autor, no capítulo XXXVII da primeira parte de “Dom Quixote” (1605). Assim, fazendo referência a si mesmo, Cervantes estabelece a chamada “literatura de fronteira”, aquela em que autor e personagem se confundem e em que a vida real torna-se uma elaboração literária. A segunda parte de “Dom Quixote” é publicada em 1615. Cervantes é considerado como a figura máxima da literatura espanhola e um dos maiores expoentes da literatura universal de todas as épocas; seu “Dom Quixote” ou “O ingenioso fidalgo dom Quixote da Mancha” é o segundo livro mais editado e lido no decorrer dos séculos, somente superado pela Bíblia. Na história literária, é a primeira obra genuinamente desmistificadora da tradição cavalheiresca e cortês, devido a seu tratamento burlesco ou cômico; constitui-se na primeira novela moderna e inaugura, também, a obra literária polifônica, ou seja, seu discurso apresenta a simultaneidade de diversos pontos de vista, visões do mundo e vozes distintas; como tal, exerceu grande influência em toda narrativa europeia e posteriormente em outros centros. Da mesma forma, Cervantes distingue-se em outras obras além de “Dom Quixote”, e falamos de suas novelas ou contos, gênero usual a partir da segunda metade do século XVI, onde pratica-se a sátira, o burlesco, o auto ou narração pastoril, o relato de viagens e de acontecimentos entre os mouros, e, finalmente, contos moralizantes. Ao colocarmos em ordem cronológica, temos que a primeira obra publicada foi ”Galateia”, em 1585, depois “Dom Quixote”, primeira parte, em 1605, a seguir, “Contos exemplares”, em 1613, ainda a segunda parte de “Dom Quixote”, 1615, e “Os trabalhos de Persiles e Sigismunda”, história publicada postumamente, em 1617, a qual é uma novela bizantina ou livro de aventuras peregrinas. Em nossa coluna de hoje, destacamos os “Contos exemplares”, novelas morais que nos ensinam algum procedimento ético; elas são doze, a saber, “A ciganinha”, “O amante liberal”, “Riconete e Cortadillo”, “A espanhola inglesa”, “O advogado Vidriera”, “A força do sangue”, “O ciumento da Estremadura”, “A ilustre empregada”, “As duas donzelas”, “A senhora Cornélia”, “O casamento enganoso”, “O colóquio dos cachorros”. Dedicamos algumas considerações sobre o último conto, o mais irreal, o mais fantástico de todos, pois os personagens que nos contam suas aventuras e conversam entre eles são, precisamente, dois cachorros. Alguém poderá exclamar “Ah, não, impossível, cachorros não falam!”; pois, ao contrário, falam, sim, e aí reside a beleza da literatura, a saber, a possibilidade de criarmos o que quer que seja, essa leveza que não temos em nossas vidas cotidianas e que tanta falta nos faz… O próprio autor nos mostra o seguinte, em um trecho de sua introdução a esses contos: “A isto aplico meu talento… a novelas que costumam agrupar-se em duas séries, as de caráter idealista e as de caráter realista; … estas atendem mais à descrição de ambientes e personagens realistas, com intenção crítica, muitas vezes, … são os relatos mais conhecidos, entre eles, O colóquio dos cachorros”. O tema do conto é a corrupção social denunciada por um dos cachorros, Berganza, que narra a história de sua vida, repleta de aventuras, perigos, peripécias e até bruxarias; ele conversa com seu companheiro Cipiaõ sobre as convenções sociais e a crueldade das pessoas. O conto começa com Berganza, que conta sua vida a Cipião, e eles são dois cachorros que passam a noite à porta do Hospital da Ressurreição, em Valladolid, cidade localizada a noroeste de Espanha. Berganza comenta que ele sempre foi considerado um “cachorro sábio”, pois sempre ajudara seus donos contra os males possíveis e sempre os aconselhara para o bem. Neste conto moral ou moralizante, a palavra divide-se de tal forma, alcança uma amplitude tal, que nos convence a acreditar que Berganza e Cipião possam nos ensinar como devemos agir para conseguirmos uma vida tranquila e socialmente correta. Desta forma, e para finalizar, Cervantes concebe a aventura de um leitor radical, intencionalmente incapaz de distinguir a realidade da fabulaçâo, abrindo, assim, um espaço infinito para nossa sensibilidade e nossa construção pessoal e democrática de uma realidade ampla e inatingível pelas maldades do mundo.
