Cândido Voltaire
Voltaire (1694-1778) – “Cândido” (1759)
François-Marie Arouet, conhecido como Voltaire, nasceu em Paris, em 1694, e morreu também em Paris, em 1778; é um escritor e um filósofo cuja obra marcou os séculos XVIII e XIX. O nome de Voltaire é um pseudônimo, é inventado, e vem de um anagrama, uma transposição de letras escritas em latim: Arovet LI, que resulta em Voltaire. Voltaire é o representante mais conhecido da corrente filosófica chamada Iluminismo; ele domina sua época tanto pela duração de sua vida, como pela amplitude de sua produção literária e pela variedade de embates políticos e de ideias que ele travou; sua influência é decisiva sobre a burguesia liberal- aquela classe dos comerciantes que defendem o livre comércio- antes da Revolução francesa e ainda durante o início do século XIX. Ele denunciou o fanatismo religioso em seu Dicionário filosófico; no plano político, foi a favor de uma monarquia moderada e liberal, “esclarecida” pelos filósofos do Iluminismo, ou seja, pregava a regulação dos poderes reais a partir de um conjunto de normas previamente estabelecidas, no sentido de fixar os limites de ação do monarca; ao contrário do que acontecia, então, sua ideia é de que os cidadãos é que deveriam ser servidos pelo Estado, suas necessidades deveriam ser compreendidas e satisfeitas. Voltaire ainda colocou sua notoriedade a serviço de vítimas da intolerância religiosa ou da arbitrariedade; ele defendeu pessoas que haviam sido acusadas por capricho ou intransigência religiosa, tais como João Calas e Pedro-Paulo Sirven, entre outros. Sua obra literária é rica e variada: sua importante produção teatral, seus poemas épicos e suas obras históricas fizeram com que se tornasse um dos escritores mais célebres do século XVIII; também participa da Enciclopédia de Diderot com vários artigos, entre eles um sobre a eloquência e outro sobre as chamadas belas-letras, o que abrange os conhecimentos ou manifestações culturais intermediadas pela palavra, como a gramática, a poesia, a arte dramática, a história, a filosofia, analisadas sob o ponto de vista de seu valor estético, literário e humanístico. Além de tudo isso, é Voltaire quem cria a expressão até então inédita de “filosofia da história”, o que faz dele o precursor da história cultural que só será plenamente desenvolvida no século XX. Seu trabalho compreende também contos, em destaque “Cândido ou o Otimismo”, as Cartas filosóficas, o Dicionário filosófico e uma correspondência monumental avaliada em mais de quinze mil cartas, através das quais correspondia-se com todos os grandes monarcas e governantes da época. Sempre pregou a laicidade do Estado e a escola pública e, acima de tudo, a liberdade de expressão, como ele dizia, a “liberdade de pensar”. Seu apego à liberdade de expressão pode ser ilustrado com a célebre citação a ele atribuída: “Não estou de acordo com o que você diz, mas lutarei até a morte para que você tenha o direito de o dizer”. Que bela manifestação de uma atitude tolerante e inteligente, pois ao defender a liberdade de falar o que alguém pensa, estamos igualmente protegendo nossa própria independência intelectual e nossa integridade ética! Pois bem, em 1759, Voltaire decide transmitir suas ideias em forma de um conto considerado como “filosófico”, cujo título é “Cândido ou o Otimismo”, texto esse carregado de ironia, e sobre o qual falaremos a partir de agora. A obra divide-se em 30 breves capítulos e, na maioria das edições, comporta um total de menos de 200 páginas. Somente um mês após sua publicação, seis mil exemplares foram vendidos, sendo esse montante considerado excepcional para a época. O personagem que dá o título ao livro– seu epônimo, portanto- é um jovem que tem um comportamento tranquilo, sua fisionomia “anuncia” sua alma, tem a capacidade de realizar julgamentos corretos e o espírito franco; diz-se, no início da narrativa, que essa deve ser a razão pela qual seu nome é Cândido. Resumo do livro: Cândido, cuja ascendência é duvidosa, mora “no melhor dos mundos”, ou seja, no castelo de um barão, na Alemanha, leva uma vida sem preocupações, tem um tutor cujo nome é Pangloss (aquele que compreende “todas as línguas”), mas enamora-se da jovem filha do senhor, Cunegonda, e por isso é “expulso do paraíso”. Acaba sendo alistado à força no exército búlgaro, consegue fugir, mas termina mendigando por comida. Mais adiante, Cândido reencontra Pangloss, este lhe informa que o castelo do barão fora atacado e que Cunegonda fora raptada. Cândido e Pangloss partem para Lisboa, onde, por azar, acontecera recentemente o triste episódio do terremoto que abalara grandemente a capital portuguesa. Pangloss e Cândido são aprisionados pela Inquisição, preventivamente, para evitar futuros terremotos. Uma velha ajuda a reencontrarem Cunegonda, agora obrigada a ser amante dos poderosos da região; eles a resgatam e fogem de Portugal. Dessa forma, nossos heróis, Pangloss e seu pupilo, pulam de país em país, chegam à América do Sul, passam um período em Buenos Aires, sobem ao Paraguai e de lá chegam ao Eldorado, onde há riquezas em quantidade e de onde sairão montados em lombos de carneiros gigantes; eles vão embora desse “mundo maravilhoso” porque Cândido insiste em reencontrar Cunegonda, a qual havia sido sequestrada, mais uma vez. Assim eles prosseguem, de forma aventureira, e mais para o final, Cândido chega em França, onde é cortejado devido às riquezas que ele trouxera de Eldorado. A seguir, recomeçam suas viagens, Cândido busca sua amada incessantemente, passam pela Inglaterra, pela Itália, e chegam à Constantinopla. O otimismo do mestre Pangloss resiste a todas essas desventuras, Cândido finalmente reencontra Cunegonda, agora envelhecida e feia, ambos se casam, e aquele nosso cândido jovem, depois de todo esse trajeto iniciático e de aprendizado, declara a inutilidade da filosofia, visto que esta só tenta convencer-nos de que tudo vai bem, de que tudo vai melhorar, quando a realidade nos impõe o duro ensino da decepção e o árduo trabalho para que se conquiste nossos bens e nossa sabedoria; Cândido troca as palavras pela ação. No fim desse conto, Voltaire volta seu pensamento para o jardim onde habitara, inicialmente, nosso cândido herói, e julga o cultivo da terra essencial a nosso sustento, ao mesmo tempo em que considera esse processo como a metáfora de nosso alimento espiritual. O jardim é também o elogio do quotidiano, de nossa normalidade, porque, se não podemos construir um mundo perfeito, devemos nos contentar com o mundo como ele é e fazermos o melhor de nós para que ele se transforme e aproxime-se ao máximo de nosso ideal. Para finalizar esse comentário sobre essa obra iluminada pela genialidade de um dos maiores pensadores do Ocidente, repetimos suas palavras: “É necessário cultivar nosso jardim.”!
