Rosarita Osorio Torres dos Santos

Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo – Murilo Mendes, 1901-1975

Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo Murilo Mendes, 1901-1975   Murilo Mendes foi dotado de uma inteligência múltipla; ele nasceu em Juiz de Fora e morreu Lisboa, foi um poeta, prosador e crítico de artes plásticas, inicialmente foi um católico fervoroso, o que não o impediu de se tornar um expoente do surrealismo da literatura brasileira e um crítico acirrado da sociedade de seu país. Enquanto jovem, ele tentou várias ocupações para seu provimento cotidiano, tais como farmacêutico, funcionário de banco e escrevente de cartório. Nunca adaptou-se a nenhum desses empregos, porém, começou cedo a produzir textos e poemas que destacaram-se a seguir; contam-se suas obras poéticas em mais de vinte e cinco antologias, e ainda há três seleções póstumas e várias publicações inéditas. Pelos seus trinta anos, o poeta voltou sua atenção ao Rio de Janeiro e lá conviveu por um certo período, confraternizou com… Continue a ler »Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo – Murilo Mendes, 1901-1975

A poesia nos conforta – Alphonsus de Guimaraens, 1870 – 1921

A poesia nos conforta Alphonsus de Guimaraens, 1870 – 1921   Alphonsus de Guimaraens – ou Afonso Henrique da Costa Guimarães – é um escritor e sobretudo um poeta brasileiro; ele viveu de 1870 até 1921; nasceu em Ouro Preto, Mina Gerais, e morreu na cidade de Mariana, no mesmo estado. Ele é filho de uma família de nacionalidade portuguesa; em 1887, inscreve-se na faculdade como estudante de Engenharia, mas em 1890 ele vai para São Paulo e lá completa a Faculdade de Direito do Largo São Francisco; a partir de então passa também a exercer a função de jornalista, colabora com o vespertino diário A Gazeta, e publica “Kyriale” em 1902, sob o pseudônimo de Alphonsus de Guimaraens, sendo essa obra bem reconhecida pelos críticos literários. O poeta tem a oportunidade de passar uma temporada em França, lá ele frequenta os intelectuais franceses e de lá ele traz para… Continue a ler »A poesia nos conforta – Alphonsus de Guimaraens, 1870 – 1921

Eu sou aquele que ficou sozinho cantando sobre os ossos do caminho – Augusto dos Anjos, 1884 – 1914

Eu sou aquele que ficou sozinho cantando sobre os ossos do caminho  Augusto dos Anjos, 1884 – 1914   Augusto dos Anjos, o mais sombrio dos poetas brasileiros, foi também o mais original. Sua obra poética, composta por apenas um livro de poemas, intitulado “Eu”, não se encaixa em nenhuma escola literária, embora tenha sido influenciado por características do naturalismo e do simbolismo. A produção única de Augusto dos Anjos não pode ser enquadrada, propriamente, a nenhum desses movimentos; entretanto, para efeitos de nomenclatura, é por isso que se classifica o poeta juntamente aos seus contemporâneos do pré-modernismo. Além disso, destacamos que, com o tempo, outros poemas foram adicionados postumamente a sua obra única, “Eu”. Ao nos defrontarmos com este título de uma obra poética, já nos preparamos para a leitura de um autor que nos declara seu engajamento pessoal como nenhum outro o fizera anteriormente. Mesclando termos filosóficos embebidos… Continue a ler »Eu sou aquele que ficou sozinho cantando sobre os ossos do caminho – Augusto dos Anjos, 1884 – 1914

Profissão de fé – Olavo Bilac

Profissão de fé Olavo Bilac   O que é a chamada “última flor do Lácio”? O que ela significa? Esta assim chamada “última flor” é a língua portuguesa, considerada a última das filhas do latim. Refere-se ao fato de a língua portuguesa ser a última língua neolatina formada a partir do latim vulgar, aquele falado pelos soldados da região italiana do Lácio. A propósito, hoje em dia, o território do Lácio reúne aproximadamente cinco milhões de habitantes, trata-se de uma extensão central e é uma das principais portas de entrada da Itália, estando ali localizada a capital Roma. Pois bem, a partir dessa “última flor do Lácio”, vamos nos dedicar a expor um pouco do talento de um grande escritor brasileiro, mesmo que ultimamente esteja um pouco relegado; falamos de Olavo Bilac, nascido no Rio de Janeiro, em 1865 e morto na mesma capital federal do país, em 1918. Foi… Continue a ler »Profissão de fé – Olavo Bilac

Uma mulher ganha o primeiro Prêmio Nobel ibero-americano

Uma mulher ganha o primeiro Prêmio Nobel ibero-americano   Ela é diplomata, professora, pedagoga e poetisa, sua terra natal é o Chile, seu nome oficial é Lucila Godoy Alcayaga, mas é mundialmente conhecida como Gabriela Mistral. Nasceu no ano de 1889, em Vicuña, região central de seu país, a aproximadamente seiscentos metros do mar, e morreu em Nova York, em 1957. Começou a trabalhar como docente em 1904, percorreu várias escolas em diversas regiões de seu país, algumas vezes foi criticada pelos preconceitos religiosos, mas ainda assim sempre progrediu como professora. Em 1910, então com vinte e um anos, prestou serviço como diretora de Liceu Feminino, no qual desenvolveu o ensino de trabalhos manuais, desenho, higiene e economia doméstica. Nessa época, Mistral observou e comentou que os “indígenas sabem amar sua terra”, e a seguir a docente partiu para trabalhar em áreas nativas, junto aos autóctones. Já em 1922, ela… Continue a ler »Uma mulher ganha o primeiro Prêmio Nobel ibero-americano

Pai contra mãe – Nem todas as crianças vingam – Machado de Assis, 1906

Pai contra mãe – Nem todas as crianças vingam Machado de Assis, 1906   Machado de Assis escreveu alguns contos particularmente impiedosos em sua vasta produção literária; um deles é “A causa secreta”, publicado em 1885, o qual já analisamos: ele é extremamente sombrio e característico do sadismo a que chega a natureza de seu personagem na sociedade em que ele vive. O outro intitula-se “A Igreja do Diabo”, de 1884, no qual se procura fundar uma religião própria, onde as pessoas seriam livres para praticar maldades; tal não se concretiza porque a tendência humana leva seus adeptos a praticarem o bem. Por outro lado, hoje vamos tratar de um terceiro conto, intitulado “Pai contra mãe”, no qual todas as crueldades são permitidas – e até aconselháveis – de se produzirem, visto que a sociedade assim o exige e assim o pratica. Falamos da escravidão no Brasil, que começou no… Continue a ler »Pai contra mãe – Nem todas as crianças vingam – Machado de Assis, 1906

Três séculos de Rousseau – O Século das Luzes

Três séculos de Rousseau O Século das Luzes   Jean-Jacques Rousseau nasce e morre no século XVIII, ele vive de 1712 a 1778. Tais datas são particularmente marcantes porque este é o chamado século das Luzes. Não é fácil resumir em poucas palavras essas décadas que mudaram o mundo. O Iluminismo perturbou uma Europa cheia de reis, rainhas e perucas, e iniciou a queda dessas monarquias; os historiadores divergem sobre exatamente quando começou a “Era do Iluminismo”, mas frequentemente muitos indicam o fim do reinado de Luís XIV na França, em 1715. É neste contexto que nasceu a corrente filosófica, cultural e científica, que mais tarde se chamaria “O Iluminismo”, para evocar a luz trazida ao homem pelo conhecimento. O homem “iluminado” do século XVIII distingue-se assim de seus predecessores, que permaneceram nas trevas. Muitos filósofos e escritores brilharam durante este período: Rousseau, claro, mas também Montesquieu, Voltaire, Diderot, Beaumarchais… Continue a ler »Três séculos de Rousseau – O Século das Luzes

Cartas de amor – As “Cartas portuguesas” de sóror Mariana Alcoforado

Cartas de amor As “Cartas portuguesas” de sóror Mariana Alcoforado   As “Cartas de amor” a que nos referimos são aquelas escritas – provavelmente – pela sóror Mariana Alcoforado, em pleno século XVII e mais precisamente, publicadas em 1669. Elas consistem em cinco cartas de amor, todas curtas e cujo conteúdo permite transparecer uma paixão incondicional da jovem freira, a qual sofre desesperadamente com a distância de seu amado. Explicamos a situação: Mariana nasceu em 1640 e ela tem menos de onze anos de idade quando é obrigada, por decisão de sua família de renome, a entrar para o convento da localidade de Beja, no sudeste de Portugal; ela é admitida na clausura da Ordem de Santa Clara, a fim de ficar a salvo do brutal conflito provocado, então, pela guerra entre Portugal e Espanha; sem ter nenhuma inclinação religiosa, ela foi assim destinada a uma vida enclausurada até o… Continue a ler »Cartas de amor – As “Cartas portuguesas” de sóror Mariana Alcoforado

Manoel de Barros, 1916-2014 – A poesia está guardada nas palavras – é tudo que eu sei.

Manoel de Barros, 1916-2014 A poesia está guardada nas palavras – é tudo que eu sei.   Manoel de Barros é um dos maiores poetas brasileiros, recebeu treze prêmios literários, entre eles, dois Prêmios Jabutis, o primeiro em 1989, com o livro “O guardador de águas” e o segundo em 2002, com sua obra “O fazedor de amanhecer”. Nasceu em Cuiabá, desde pequeno escreveu poemas, sua primeira obra publicada leva o título de “Poemas concebidos sem pecado”; formou-se em Direito no Rio de Janeiro, foi membro da Academia Sul-mato-grossense de letras, chegou a morar em outros países tais como Bolívia, Peru e Estados Unidos; viveu um bom tempo em Nova York, onde dedicou-se a fazer um curso de artes plásticas e outro de cinema. Voltando à pátria, além de ser o mais aclamado poeta brasileiro da contemporaneidade nos meios literários, seu colega Carlos Drummond de Andrade, enquanto ainda escrevia, recusou… Continue a ler »Manoel de Barros, 1916-2014 – A poesia está guardada nas palavras – é tudo que eu sei.

Aristóteles – Classe de filosofia – Nº3

Aristóteles – Classe de filosofia – Nº3   Neste trecho do extenso saber do mestre Aristóteles, dedicamo-nos à política – ou – a maneira como, segundo ele, deveria ser organizada a cidade, em grego, πόλις, polis. Como já vimos em nossa classe anterior, o homem é por natureza um animal político, a saber, o indivíduo não pode encontrar  seu bem ou a sua felicidade independentemente de sua sociabilidade. A “cidade” e a política que a sustenta constituem, ambas, as condições necessárias à felicidade humana. Por princípio, a sociedade serve ao homem não somente para ele ali viver, mas também para ele ali bem viver. A sociedade ou a cidade  que sustentamos e que nos sustenta, por sua vez, ela não é somente um agrupamento para evitar um mal, ou para a troca de serviços entre as pessoas; essa situação não representa, tampouco, um agrupamento de pessoas que dividem as funções… Continue a ler »Aristóteles – Classe de filosofia – Nº3