P A G U
(1910 – 1962)
Patrícia Rehder Galvão é conhecida como Pagu, ele nasceu em 1910, no interior de São Paulo, e faleceu em 1962, em Santos; a autora foi escritora, poetisa, encenadora, tradutora, desenhista, cartunista, jornalista e militante política. Pagu teve expressivo destaque no movimento modernista iniciado em 1922, embora não tivesse participado da Semana de Arte Moderna, tendo na época apenas doze anos de idade. Entretanto, aos dezoito anos, pouco depois de completar o curso na Escola Normal da capital paulista, integra-se ao movimento antropofágico, sob a influência de Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. O apelido Pagu surgiu, então, de um erro do poeta modernista Raul Bopp, ao dedicar a ela, em 1928, o poema “Coco de Pagu”: “Pagu tem uns olhos moles / uns olhos de fazer doer. / Bate-coco quando passa. / Coração pega a bater. / Eh Pagu eh! / Dói porque é bom de fazer doer (…)”.
Quanto à literatura produzida por Pagu, a autora publicou os romances Parque Industrial – edição da autora, 1933 – sob o pseudônimo Mara Lobo, considerado o primeiro romance proletário brasileiro, e A Famosa Revista – Americ-Edit, 1945 – em colaboração com Geraldo Ferraz. Parque Industrial foi publicado nos Estados Unidos em tradução de Kenneth David Jackson, em 1994, pela University of Nebraska Press, e na França em tradução e edição crítica de Antoine Chareyre, em 2015.
Pagu escreveu também contos policiais, sob o pseudônimo King Shelter, publicados originalmente na revista Detective, publicada pelo Diários Associados e dirigida pelo dramaturgo Nelson Rodrigues, e depois reunidos em Safra Macabra – Livraria José Olympio Editora, 1998). Em seu trabalho, junto a grupos teatrais, revelou e traduziu grandes autores até então inéditos no Brasil, como James Joyce, Eugène Ionesco, Fernando Arrabal e Octavio Paz.
Pagu ainda trabalhava como crítica de arte quando foi acometida por um câncer de pulmão, em 1960. Viajou a Paris para se submeter a uma cirurgia, sem resultados positivos; ela passou a morar na capital francesa com seu marido, Geraldo Ferraz, para continuar realizando seu tratamento quimioterápico, e mensalmente recebia a visita dos filhos. Decepcionada e desesperada por estar doente, a autora tentou o suicídio; mas após dois anos de tratamento, foi desenganada pelos médicos e voltou ao Brasil; morrendo aos 52 anos.
Quanto a seu trabalho, a autora produziu três ficções, três autobiografias, vários textos políticos, dois desenhos, várias coletâneas, muitas reedições, e muitas traduções como Industrial Park – A Proletarian Novel – tradução em inglês, e em posfácio, em University of Nebraska Press; Industrijski Park – tradução em croata; Parc Industriel – notas e posfácio em francês; Parque Industrial – em espanhol – Proletaria, em prefácio, no México.
Vamos aproveitar dos poemas de Pagu. Primeiro: “Hoje me Falaram em Virtude” : Tudo muito rito, muito rígido / Com coisinhas assim mais ou menos / Sentimentais. / Tranças faziam balanças / Nas grandes trepadeiras / Estávamos todos por conta de. / Nascinaturos espalhavam moedinhas / Evidentemente estavam brincando / Pois evidentemente, nos tempos atuais / Quem espalha moedas / Ou é louco, ou é / porque está brincando mesmo. / O que irritou foi o porquê.
Segundo: “Nothing” : Nada nada nada / Nada mais do que nada / Porque vocês querem que exista apenas o nada / Pois existe o só nada / Um pára-brisa partido uma perna quebrada / O nada / Fisionomias massacradas / Tipóias em meus amigos / Portas arrombadas / Abertas para o nada / Um choro de criança / Uma lágrima de mulher à-toa / Que quer dizer nada / Um quarto meio escuro / Com um abajur quebrado / Meninas que dançavam / Que conversavam / Nada / Um copo de conhaque / Um teatro / Um precipício / Talvez o precipício queira dizer nada / Uma carteirinha de travel’s check / Uma partida for two nada / Trouxeram-me camélias brancas e vermelhas / Uma linda criança sorriu-me quando eu a abraçava / Um cão rosnava na minha estrada / Um papagaio falava coisas tão engraçadas / Pastorinhas entraram em meu caminho / Num samba morenamente cadenciado / Abri o meu abraço aos amigos de sempre / Poetas compareceram / Alguns escritores / Gente de teatro / Birutas no aeroporto / E nada.
Terceiro: “ Fósforos de Segurança” : Indústrias tais / Fatais./ Isso veio hoje numa pequena caixa / Que achei demasiado cretina / Porque além de toda essa história / De São Paulo – Brasil / Dava indicações do nome da fábrica. / Que eu não vou dizer. / Porque afinal o meu mister não é dizer / Nome de indústria / Que não gosto nem um pouquinho / De publicidade / A não ser que / Isso tudo venha com um nome de família / Instituição abalizada / Que atrapalha a vida de quem nada quer saber / Com ela. / Ela, ela, ela.
Quato: “Canal” : Nada mais sou que um canal / Seria verde se fosse o caso / Mas estão mortas todas as esperanças / Sou um canal / Sabem vocês o que é ser um canal? / Apenas um canal? / Evidentemente um canal tem as suas nervuras / As suas nebulosidades / As suas algas/ Nereidazinhas verdes, às vezes amarelas / Mas por favor / Não pensem que estou pretendendo falar / Em bandeiras / Isso não / Gosto de bandeiras alastradas ao vento / Bandeiras de navio / As ruas são as mesmas. / O asfalto com os mesmos buracos, / Os inferninhos acesos, / O que está acontecendo? / É verdade que está ventando noroeste, / Há garotos nos bares / Há, não sei mais o que há. / Digamos que seja a lua nova / Que seja esta plantinha voacejando na minha frente. / Lembranças dos meus amigos que morreram / Lembranças de todas as coisas ocorridas / Há coisas no ar… / Digamos que seja a lua nova / Iluminando o canal / Seria verde se fosse o caso / Mas estão mortas todas as esperanças / Sou um canal.
Toda a “virtude” que nos espalham os sentimentos afirmam que somos “loucos”.
“Nada nada nada” já nos consola quando “trouxeram-me camélias brancas e vermelhas” !
“Não vou dizer” por que afinal o meu mister não é dizer !
“Há, não sei mais o que há.” “Há coisas no ar…”
Beleza o que P A G U nos proporciona !