Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho – Manuel Bandeira
1886 – 1968
Manuel Bandeira nasceu em Recife, ainda na infância viveu também no Rio de Janeiro e em São Paulo; aos 18 anos, foi diagnosticado como tuberculoso e a doença abortou seus planos de ser arquiteto; a seguir, interessou-se pela poesia. O autor produziu as obras poéticas marcadas pelo seu sofrimento e notabilizou-se pelo emprego do verso livre e pelo pessimismo, a liberdade e a morte. Iniciou sua atividade literária pelo simbolismo (misticismo e espiritualidade), e aproximou-se da poesia moderna (versos livres e linguagem coloquial); nos anos seguintes ele persistiu na produção literária e acadêmica (até a sua morte, em 1968).
Quanto a suas funções, Manuel Bandeira foi para o Rio de Janeiro junto com a família, onde estudou no Colégio Pedro II e foi aluno de eméritos professores. Em 1903, terminou o curso de Humanidades, a família se muda para São Paulo, onde iniciou o curso de arquitetura na Escola Politécnica de São Paulo, que interrompeu por causa da tuberculose (1904). Para se tratar, buscou repouso em Petrópolis, também foi para a Suíça, permanecendo lá de junho de 1913 a outubro de 1914. Em virtude do início da Primeira Guerra Mundial, volta ao Brasil; ao regressar, iniciou na literatura, publicando o livro “A Cinza das Horas”, em 1917; dois anos depois, publica seu segundo livro, “Carnaval”.
Em 1935, foi nomeado inspetor federal do ensino; em 1936 foi publicada a “Homenagem a Manuel Bandeira”, coletânea de estudos sobre sua obra, assinada por alguns dos maiores críticos da época, alcançando assim a consagração pública. De 1938 a 1943, foi professor de literatura no Colégio Pedro II. Em 1940 foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras e posteriormente, nomeado professor de Literaturas Hispano-Americanas na Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil, cargo do qual se aposentou em 1956.
Manuel Bandeira foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, em 29 de agosto de 1940, onde foi o terceiro ocupante da cadeira 24.
Vamos aproveitar de lembranças e poesias de nosso Bandeira : ele nos permite revelar a família, a morte, o amor, as lembranças da infância no Recife, e o folclore cujos temas são sempre presentes na escrita de Bandeira.
Agora leremos alguns dos poemas do autor. O primeiro, “Poética”: Estou farto do lirismo comedido / Do lirismo bem comportado / Do lirismo funcionário público com o livro de ponto / expediente protocolo e manifestações de apreço ao / sr. Diretor. / Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no / dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo. / Abaixo os puristas / Todas as palavras sobre tudo os barbarismos universais / Todas as construções sobre tudo a síntese de exceção / Todo os ritmos sobretudo os instrumentais / Estou farto do lirismo namorador / Político / Raquítico / Sifilítico / De todo o lirismo que capitula ao que quer que seja fora / de si mesmo / De resto não é lirismo / Será contabilidade tabela de cossenos secretário do / amante exemplar com cem modelos de cartas e as / diferentes maneiras de agradar às mulheres etc. / Quero antes do lirismo dos loucos / O lirismo dos bêbados / O lirismo difícil e pungente dos bêbados / O lirismo dos clowns de Shakespeare / – Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
O segundo poema, “Vou-me embora pra Pasárgada”: Vou-me embora pra Pasárgada / Lá sou amigo do rei / Lá tenho a mulher que eu quero / Na cama que escolherei / Vou-me embora pra Pasárgada / Vou-me embora pra Pasárgada / Aqui eu não sou feliz / Lá a existência é uma aventura / De tal modo inconsequente / Que Joana a Louca de Espanha / Rainha e falsa demente / Vem a ser contraparente / Da hora que nunca tive / E como farei ginástica / Andarei e bicicleta / Montarei em burro brabo / Subirei no pau-de-sebo / Tomarei banhos de mar! / E quando estiver cansado / Deito na beira do rio / Mando chamar a mãe-d’água / Pra me contar as histórias / Que no tempo de eu menino / Rosa vinha me contar / Vou-me embora pra Pasárgada / Em Pasárgada tem tudo / É outra civilização / Tem um processo seguro / De impedir a concepção / Tem telefone automático / Tem alcaloide à vontade / Tem prostitutas bonitas / Para a gente namorar / E quando eu estiver mais triste / Mas triste de não ter jeito / Quando de noite me der / Vontade de me matar / – Lá sou amigo do rei – / Terei a mulher que eu quero / Na cama que escolherei / Vou-me embora pra Pasárgada…
O terceiro poema já nos deixa à espera do “mafuá” que aguardamos, “Estrela da manhã”. / Onde está a estrela da manhã? Meus amigos meus inimigos / Procurem a estrela da manhã / Ela desapareceu ia nua / Desapareceu com quem? / Procurem por toda à parte / Digam que sou um homem sem orgulho / Um homem que aceita tudo / Que me importa? / Eu quero a estrela da manhã / Três dias e três noite / Fui assassino e suicida / Ladrão, pulha, falsário / Virgem mal sexuada / Atribuladora dos aflitos / Girafa de duas cabeças / Pecai por todos / pecai com todos / Pecai com malandros / Pecai com sargentos / Pecai com fuzileiros navais / Pecai de todas as maneiras / Com os gregos e com os troianos / Com o padre e o sacristão / Com o leproso de Pouso Alto / Depois comigo / Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples / Que tu desfalecerás / Procurem por toda à parte / Pura ou degradada até a última baixeza / Eu quero a estrela da manhã.
Terminamos assim com o prazer de conhecer um pouco do pensamento de Manuel Bandeira, o qual engrandece nossa meditação, posto que “as almas são incomunicáveis”.
