Roberto Echavarren, 1944 

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Roberto Echavarren, 1944 

 

Roberto Echavarren nasceu no Uruguay, em Montevideu, ele é um poeta e tradutor, também um escritor, professor, crítico.

Echavarren mudou-se para a Alemanha aos 20 anos de idade, após ganhar uma bolsa de estudos para cursar filosofia, e posteriormente foi para a França, onde obteve seu doutorado na Universidade de Paris; ainda mais tarde, mudou-se para Londres. Lecionou na Europa, onde ministrou aulas na Universidade de Londres, e também nas Américas. Atuou como professor por vinte anos na Universidade de Nova York e deu continuidade à sua carreira docente na Universidade de Buenos Aires (Instituto Rojas) e, atualmente, na Universidade da República (Faculdade de Humanidades). O autor traduziu obras de William Shakespeare, Friedrich Nietzsche, John Ashbery, Wallace Stevens, Paulo Leminski e Haroldo de Campos. Escreveu também monografias sobre autores como Felisberto Hernández e Manuel Puig, além de poesia, romances e ensaios de divulgação.

Echavarren produziu mais de cinquenta textos, os quais foram realizados desde poemas em 1981, até os mais atuais, em 2017.   

Alem disso há as chamadas referências: “Do mundo para o Espanhol”, em 2013; “Entrevista com Roberto Echavarren”, com entrevistas, desde 2016; após ”O Livro Muito Negro do Comunismo”; e finalmente, atual, “A montanha dos diálogos”.

 

Vamos aproveitar de um texto de Roberto Echavarren para recebermos um de seus momentos poéticos.     

 

“O FRIO BRUTAL ME DESPERTOU”

Abstraído pela magia daquele jogo
eu havia esquecido de mim mesmo,
incapaz de julgar se estava sonhando ou não.
Uma luz distante resplandeceu no meio de seu rosto,
um resplendor diminuto prendeu na própria
pupila do garoto.
Aquele iluminado parecia navegar sobre o negro
da noite.

Dava a impressão de que olhava as trevas,
não menos indescritível, tão pouco material
que devia ser também ele transparente.
Se recortava sobre o fundo de forma semelhante
às imagens sobre-impressas numa película:
o conjunto possuía uma unidade fantástica
que penetrava o coração e o transtornava.

A mesma intensidade de minha atenção
prestava firmeza àquele olho,
colocava em seu olhar um raio de dureza feroz.
Embora sendo inocentes, os olhos do jovem
possuíam uma luz capaz de iluminar o universo
e sem saber exato como nem por quê
me senti atraído por ele.

“De que devo queixar-me?”
Um ligeiro rubor cobriu suas bochechas,
desceu à frente, cravou o olhar no solo.
O rígido pescoço da chuva,
um tanto separado do seu,
permitia aprofundar no amplo abanador das
costas:
debaixo seu cabelo coberto de pó
fazia pensar numa tela de lã
ou talvez pelagem de um animal.

Debaixo de sua preciosa chuba  [temporal]
vestia uma camisa de algodão de procedência chinesa
com feixe relâmpago,
umas calças azuis metidas nas botas
e meias amarelas.
A manga havia deslizado até o cotovelo
revelando o rubro intenso resplandescente do forro
sobre la tética do coração.

Agora levava o cabelo um tanto desfeito;
meus dedos permaneciam impacientes,
tão grande era o desejo de tocá-lo
que até as minhas mãos se umedeciam de desejo.
Mas a sua mão estava mais quente ainda.

Trouxe-me leite fervendo.
E foi pelando tudo.
Sua pele incendiava até a planta dos pés desnudos
que tentava dissimular com uma graça um tanto
provocativa.
Dedicou-se a desatar as tranças longas e negras:
uma a tuba separou e cortou as cintas
que sujeitavam o rodízio,
agitou a cabeça para fazer cair
a cabeleira solta sobre suas costas
com uma graça que recordava a de um dandy
ligeiramente efeminado.

“Em minha vida havia visto tanto!”
A almofada de pelo postiço que sustentava o laço
ardia pela parte que se apoiava na cabeça.
Quando não se ocupava en pentear seu cabelo
vinha a sentar-se comigo.
Sua lânguida e distinta figura
apoiava-se em seu porte fleumático..

(De Centralasia, 2005) Página publicada em novembro de 2023  

 

Roberto não tem certeza de estar ou não “seguro” de sua fragilidade : a treva e a chuva impedem que sua mão seja “quente”.                                                        Por outro lado, para aqueles que participaram em nossa parte, com certeza, “o frio brutal me despertou” imensamente em pensamentos até então inéditos!

 

 

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