Manuel Bandeira, 1886-1968
O brilho da estrela
Manuel Bandeira é um poeta brasileiro nascido em Recife, além de ser professor de literatura e crítico literário e de arte, e também tradutor. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, em 1940. Tornou-se conhecido pelo ambiente cultural do país como um dos autores da geração de 1922, participando da instauração da Semana de Arte moderna, em São Paulo, quando o primeiro poema a ser lido foi o seu, intitulado “Os Sapos”. Quem eram esses “sapos”? Para o autor desabusado, eles representavam os poetas tradicionais – os parnasianos – o que, evidentemente, desagradou à elite literária arraigada aos padrões habituais; entretanto, posteriormente, o poema converte-se em um clássico da poesia moderna brasileira, citado em todos os livros didáticos sobre Literatura Brasileira do século XX, e muito contribui para delimitar o fim de uma época cultural. O poeta é eclético e aborda os temas mais variados, entre eles, a nostalgia de sua terra natal, o pensamento sobre a vida e a morte, o erotismo, e também a mística cristã. Uma certa melancolia, associada a um sentimento de angústia, permeia sua obra, em que procura uma forma de sentir a alegria de viver. Doente dos pulmões, Bandeira sofria de tuberculose e sabia dos riscos que corria diariamente, e a perspectiva de deixar de existir a qualquer momento é uma constante na sua obra. A seguir, destacamos em nosso texto, dois poemas de Bandeira, “Evocação do Recife” e “A Estrela da manhã”. O primeiro, intitulado “Evocação do Recife”, publicado em 1930, tem como tema central a melancolia profunda causada pelo afastamento de seu meio familiar. Isto indica dizer que vamos tratar de “saudade”, e esta palavra vem do latim “sólitas”, que significa solidão, desamparo. Alguns versos do poema – ele inicia assim: “Recife / Não a Veneza americana / Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais / Não o Recife dos Mascates / Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois / Recife das revoluções libertárias / Mas o Recife sem história nem literatura / Recife sem mais nada / Recife da minha infância / … / Rua da União… / Como eram lindos os montes das ruas da minha infância / Rua do Sol / … / Atrás de casa ficava a Rua da Saudade… / … / Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora… / …onde se ia pescar escondido / Capiberibe / … / Foi há muito tempo… / A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros / Vinha da boca do povo na língua errada do povo / Língua certa do povo / Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil / … / Recife… / Rua da União… / A casa de meu avô… / Nunca pensei que ela acabasse! / Tudo lá parecia impregnado de eternidade / Recife… / Meu avô morto. / Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro / como a casa de meu avô.” Neste poema, observamos a adoção da forma modernista, abandona-se a métrica tradicional e acolhe-se o verso livre; podemos dizer que a linguagem é simples, coloquial, pois, segundo o texto, o povo fala gostoso o português do Brasil, que é o empregado no poema; o cotidiano “brasileiro” aparece ali, realçando o pitoresco popular e assimilando-o ao tom triste e nostálgico, o que caracteriza a obra de Bandeira, dois momentos sentimentais opostos que se encontram, a alegria e a tristeza. O autor retrata a memória, a infância, as ruas são dotadas de nomes metafóricos como União, Sol, Aurora, Saudade, esta nomenclatura vai além de simples lugares, ela atinge a imaginação repleta de nostalgia, e finalmente aquela “união” se desfaz após a morte de seu avô, lugar onde mora, para sempre, a lembrança saudosa de seu antepassado. Ainda observa-se, neste poema, uma exaltação da fala popular, o que nos permite pensar no ataque ao artificialismo linguístico, e este é um elemento da geração modernista. Ressalta-se também a presença da morte, tema fundamental que surge nas últimas estrofes, reforçando que a cidade de Recife de seu passado fora-se como seu avô, restou-lhe apenas a reminiscência e a saudade. Seu poema ilustra o processo de transformação da memória pessoal em reflexão mais ampla – pode-se dizer, de todos nós, seus leitores – o passado é apresentado como fonte de sabedoria presente, o português falado ( a “língua certa do povo”) também é valorizado, consolidando a proposta da primeira geração modernista de usar o português do Brasil como língua literária, despindo o texto dos arcaísmos e rebuscamento sintáticos que caracterizavam a poesia do século XIX. Em sua obra, observa-se uma constante nota de ternura e paixão pela vida, seu lirismo intimista registra o cotidiano com simplicidade, atribuindo-lhe um sentido de evento prestigioso, e nela também estão presentes a infância, a terra natal, a cultura popular, a morte e a eterna recordação. O segundo poema de Manoel Bandeira destacado por nós é “A Estrela da manhã”, editado em 1936; este poema é dotado de um tom melancólico, ele é expressivamente lírico-amoroso, e seu tema central é a impossibilidade que o autor tem de alcançar aquela estrela tão desejada mas muito distante. A metáfora “estrela” é comumente utilizada nas poesias de Bandeira e pode representar a frustração, no sentido de ser algo belo, porém inalcançável, ou ainda a própria poesia e, no caso da obra em questão, a imagem da mulher amada; ainda, o poema poderia ser até mesmo uma crítica ao romantismo que colocava a mulher num pedestal, que a idealizava. Ele lhe atribuía importância no momento em que desesperava por ela, mas não a idealizava; cria-se, assim, uma cena – ou uma solução – utópica. Alguns versos deste poema: “Eu quero a estrela da manhã / Onde está a estrela da manhã? / Meus amigos meus inimigos / Procurem a estrela da manhã / … / Procurem por toda parte / … / Eu quero a estrela da manhã / Procurem por toda parte / … / Eu quero a estrela da manhã.” Este poema é composto de trinta e um versos livres, distribuídos em dez estrofes; a primeira parte apresenta a ânsia do poeta em encontrar o que ele denomina “estrela da manhã”, solicitando para tanto a ajuda dos amigos e dos inimigos, já a seguir, pode-se pensar que o autor confere um significado especial à estrela, como que aludindo a uma figura feminina; ainda mais adiante, ele repete a frase-chave do poema, quase maníaca, “Eu quero a estrela da manhã”, para isso o poeta utiliza o recurso da anáfora, isto é, da repetição do termo no início do verso, o que revela o dilaceramento do chamado “eu lírico” e, finalmente, o poema encerra-se com o sentimento da frustração – o que, a rigor, é uma constante na obra de Bandeira, e que aparece muitas vezes ligado à imagem da estrela. O desejo do poeta jamais será realizado porque uma estrela é inatingível; se transpusermos o tema desta poesia para a vida real, poderíamos questionar se o autor buscava uma perfeição poética impossível, seria por isso que sua inspiração frustrava-se face à realidade? Para encerrar nosso texto: é possível que Manuel Bandeira sentisse a necessidade da perfeição literária a qual era inalcançável, mas nós, seus leitores, com certeza enriquecemos nossos sentimentos com sua obra que brilha para sempre.
