O Pai Goriot, 1834-1835 – Honoré de Balzac, 1799-1850

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O Pai Goriot, 1834-1835 – Honoré de Balzac, 1799-1850

 

“O Pai Goriot” é um romance do escritor francês Honoré de Balzac, inicialmente publicado em dois fascículos, na Revista de Paris, entre 1834 e 1835, e que finalmente aparece nas livrarias em 1842. Este livro participa das “Cenas da vida privada”, sendo parte da coletânea intitulada “A Comédia Humana”. Considera-se que “O Pai Goriot” estabelece as bases do que será um verdadeiro “edifício”, “A Comédia Humana”, uma construção única em seu gênero, revolucionária e marcadora inicial de um outro modo de escrita, onde encontramos ligações de situações e de personagens entre seus volumes, com referências de um romance a outro, e com caracteres que aparecem e reaparecem em um livro mais adiante; ao todo, o autor escreveu 193 obras e pretendeu, assim, traçar um grande painel da vida em sua época, em seu país e em sua cidade de moradia e trabalho, Paris; de uma coisa podemos estar certos, cada livro de Balzac apresenta ao menos uma face da chamada “alma humana”, ninguém soube mais que nosso autor descrevê-la e com tamanha acuidade de detalhes. Não há quem leia “O Pai Goriot” e não se emocione, especialmente em seu final, quando o personagem principal morre abandonado pelas duas filhas que ele tanto amou e que tanto fez por elas; ele deu-lhes tudo, inclusive sua vida e sua morte. Eis o momento em que devemos esclarecer a narrativa, para que se compreenda melhor do que falamos. O resumo do romance é este: ele inicia no ano de 1819, com a descrição da decadente pensão onde vários personagens habitam, entre eles, Goriot, o jovem estudante de Direito, Rastignac, e um tipo sinistro chamado Vautrin, antigo presidiário e malfeitor. Goriot é um velho aposentado que fez fortuna no ramo alimentício, mais especificamente, no setor das massas, durante os dez anos da Revolução Francesa, entre 1789 e 1799; ele tem duas filhas, já casadas com personalidades da alta sociedade parisiense, feito este conseguido através de pesados dotes pagos por ele, com o objetivo de obter uma boa “colocação” de suas filhas no “alto mundo”; mesmo assim, as duas, Anastasie e Delphine, menosprezam-no e só dirigem-se a ele para obter sempre mais dinheiro, seja para pagar um vestido caríssimo ou uma joia nova. O outro pensionista importante é o jovem Rastignac, o qual pensa em subir na vida, não importa a qual preço; esse mesmo personagem reaparecerá em outro romance de Balzac, já mais maduro, casado por interesse e agora um destacado político, repleto de benefícios inerentes a sua posição social. Quanto a Vautrin, o monstruoso ex-presidiário, também em um outro romance, retorna como um feroz – e por isso mesmo – eficiente chefe de polícia, é ele que impõe a lei e controla a vida dos cidadãos de sua cidade. Não é por nada, não, que o autor decidiu recriar alguns de sus personagens em outras situações, é porque faltaria espaço em um só romance para tantas mutações de personalidades! Seguindo nosso resumo: muitas peripécias, um duelo e vários romances acontecem e, mais para o final, quando pai Goriot toma conhecimento de que sua filha Anastasie roubara uma remanescente e valiosa joia da família para pagar suas dívidas, ele cai em uma profunda depressão e termina por sofrer um acidente vascular cerebral. Uma das filhas, Delphine, nem vai ver seu pai que está morrendo, porque ela foi convidada para um baile muito importante ao qual não pode faltar, e sua irmã estivera muito atarefada e só chega mais tarde, quando seu pai já expirara.  As duas filhas só enviam suas carruagens, cada uma exibindo os brasões respectivos de suas famílias atuais. Quem ocupa-se do passamento e do serviço funerário é Rastignac, e ainda estiveram presente duas mulheres pagas por ele para chorarem junto ao leito de morte do pai Goriot. Após esta breve cerimônia, Rastignac, que acompanhara o enterro, vira-se em direção ao centro de Paris, que está iluminado, e profere sua frase célebre, “Agora, a nós dois!”, o que significa que, daí em diante ele fará de tudo para ascender socialmente. Como vemos, este não é um romance de final feliz, ao contrário, o autor explora muito bem os sentimentos – e a falta deles, é óbvio – assim como as imposições sociais e as diversas formas de luta  pela ascensão. Não podemos esquecer que a época da publicação deste livro é a da chamada “Restauração”, a qual se processa em França após a derrota final de Napoleão I, em 1815, e a qual vai até 1830; como sua trama desenvolve-se nesse momento histórico, de recuperação econômica e de destaque dado à burguesia que agora pode usufruir livremente de seus bens e até de seus antigos títulos outrora interditados, essa é uma época muito agitada na sociedade parisiense, em especial, e a qual permite tratativas e especulações não totalmente honestas, mas tranquilamente aceitas, já que é assim que se voltam as coisas; “nós perdemos antes, com a maldita Revolução e depois com aquele miserável comandante, mas agora chegou nosso momento de recuperação social, de alegria por desfrutarmos desta Restauração. Não nos enganemos, a época é a de fazer fortuna, assim como elevação social e exposição de meu sucesso; eu mereço isso, finalmente eu me sinto em liberdade para fazer o que eu bem entender!” Desde seu lançamento, o romance foi saudado por um enorme sucesso imediato; ele contém tudo que a “mitologia” de Balzac consagra, a saber, descrições, paixões, tipos, um jovem herói, moças casadouras, um bandido, dinheiro, drama; tudo acontece nessa encenação em uma pensão sórdida, onde desenvolve-se a educação sentimental e social de um jovem, e mais uma rocambolesca história policial, e o trágico destino do herói epônimo, aquele que empresta seu nome ao livro. Trata-se de um romance “polifônico”, de diversas vozes, sejam elas simples ou prestigiosas, de primeira ou de segunda importância; há sempre presente, neste texto literário, uma farta complexidade; depois de uma longa exposição, acontecem o drama e a seguir o desfecho trágico e brutal. Além dessa pequena análise, o que encontramos, nesta obra de Balzac, é uma profundo conhecimento das personalidades, de suas inspirações e de suas buscas, sempre valorizando ao máximo o elemento humano e sabendo perdoar suas fraquezas; afinal, não é insignificante o título geral de sua obra, “A Comédia Humana”, onde cada um de nós recebe seu papel, desempenha sua função e, finalmente, despede-se de sua plateia e de seu palco.

 

 

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