Jean-Marie Gustave Le Clézio, 1940
A Floresta dos Paradoxos
Jean-Marie Gustave Le Clézio nasceu em Nice, sul de França, mas desde muito jovem mudou-se com sua família para as Ilhas Maurício, a leste da costa africana, e antiga colônia holandesa do século XVII, depois reivindicada como propriedade francesa, no decorrer do século XVIII, e ainda transformada em território inglês no século XIX para, finalmente, tornar-se independente a partir de 1968. A área do país é de somente 2.040 km², a capital e maior cidade é Port Louis, e a nação participa da Commonwealth, da Francofonia e da União Africana, sendo a língua inglesa a primeira língua a ser usada em suas relações internacionais, e o francês é a segunda, falada por boa pare de sua população, sem contar com o idioma nativo. Oficialmente, o país chama-se Ilha Maurício ou República da Maurícia, sendo sua população de um milhão e meio de pessoas considerada multiétnica, multirreligiosa, multicultural e multilíngue. Toda esta diversidade, sem dúvida, contribuiu na formação eclética e, principalmente, na visão de tolerância deste autor, a qual é igualmente expressa em sua obra. Seu primeiro poema foi escrito antes dos seis anos de idade, quando ele passava as tardes lendo a enciclopédia de sua avó, já que era proibido sair à rua, durante o bloqueio imposto pela guerra. Quando jovem, escreve seu primeiro romance que lhe rende celebridade, intitulado “Processo verbal”, de 1963, onde o personagem principal leva o nome de Adão Polo; creiam, não é por acaso; como sabemos, Adão é o primeiro homem, e Polo é um dos maiores navegadores de mundos desconhecidos; pois bem, é exatamente isso que o personagem desse romance faz, ele retira-se em uma casa na praia, revê a natureza e a sociedade de forma diferente daquela em que fora educado, pretende transformar-se em um outro homem, mas seu fim, também previsível, é seu encarceramento em uma clínica psiquiátrica. Um outro romance instigante é “A Quarentena”, editado em 1995, no qual um grupo de europeus é obrigado a passar um período em uma ilha, onde ficam entregues a si mesmos, à doença, ao medo, à incompreensão e ao ódio. Dessa forma, Le Clézio revisita nossa cultura e nossa civilização, escancarando seu mal-estar diante de fracassos habitualmente escondidos e negados, mas os quais, para o autor, tornam-se o alimento de sua escrita ao mesmo tempo revoltada mas compreensiva, meditativa e igualmente propositiva. Le Clézio passou boa parte de sua mocidade nas Antilhas, em países ameríndios, e viveu por quatro anos consecutivos no interior do México; durante esse tempo e essa estada, o autor recebeu o aprendizado arcaico de antigas civilizações que desenvolveram atitudes e atividades diferenciadas das nossas, e ele aproveitou sua capacidade de escritor para escrever livros como “O Deserto”, este publicado em 1980, sendo outro de seus relatos consagrados. Le Clézio possui cerca de cinquenta romance editados, e sendo ele dotado de um grande senso de revolta, seus temas recorrentes são a denúncia da sociedade urbana e sua brutalidade sistêmica, o cinismo do mercado explorador, como em “A Guerra, a exploração das crianças, em “O Acaso”, e as culturas minoritárias quase nem reconhecidas como tais, todos esses relatos dos anos oitenta e noventa. Essa característica da contestação e da rebeldia está presente em toda sua obra, mesmo aquela em ele narra, ficcionalmente, o período vivenciado por sua própria mãe e por suas tias, durante a Segunda Guerra mundial. O livro intitula-se “O Refrão da Fome”, editado em 2008, e nele o autor revisita o ambiente do medo, da fuga, se possível e, literalmente, da fome vivida por sua família. Esta obra culmina o reconhecimento do autor e Le Clézio recebe o Prêmio Nobel de Literatura naquele mesmo ano, 2008. Destacamos que muitos outros prêmios e títulos honoríficos já lhe foram outorgados desde o início de sua carreira de escritor até nossos dias. E é precisamente ao receber o Prêmio Nobel que o autor, ao proferir seu discurso de agradecimento, proporciona-nos uma verdadeira aula de literatura. O título de seu discurso é “Na Floresta dos Paradoxos”, e é lá que Le Clézio diz encontrar-se como escritor. Primeiramente, ele retoma tal definição a parir da frase de um outro autor, o romancista e jornalista sueco Stig Dagerman (1923-1954); a seguir, Gustave Le Clézio explica que esta floresta de paradoxos é exatamente o terreno da escrita, o lugar de onde o autor não deve tentar escapar, mas ao contrário, onde ele deve permanecer para ali reconhecer cada detalhe, para explorar todos os caminhos, e mais, ele antecipa que nem sempre é uma estada agradável, pois nos defrontamos com o real e este exige de nós que se escolha o seu campo, que se tome um lado e que se distancie um pouco para que se possa descrevê-lo bem, sem, no entanto, abandonar a luta de tentar aperfeiçoá-lo – o texto e o que ali foi descrito; para o escritor, vida e literatura se misturam e se completam. E afinal, onde estão os paradoxos? Reposta: exatamente aí, no fato de que o autor escreve para denunciar a realidade, para tentar melhorá-la e para entregá-la àqueles leitores que mais necessitam desse esclarecimento, e neste momento percebemos que esses leitores não têm alcance aos livros, ou porque estes são muito caros, ou porque aqueles dedicam seu tempo em funções necessárias a sua sobrevivência e não lhes sobra estímulo para tanto. Le Clézio relembra, ainda, que a literatura é feita de linguagem, e que por isso ela é tão importante, já que o ato de ler é o que nos distingue dos outros seres vivos. A literatura é esta criação de um outro mundo, onde tudo é possível, tudo pode ser melhor e mais justo; um autor engajado como Jean-Marie Gustave Le Clézio realiza o que todo autor se propõe, ou seja, ele tem coragem para enfiar-se nesta floresta até certo ponto ameaçadora, ali permanecer e, rebelde e incansável como ele é, dali extrair o que possa nos favorecer, o que possa fazer-nos crescer melhores como seres humanos, lógicos e emotivos, complexos e simples, paradoxais e definitivos.
