O Teatro do Sol – A louca esperança de Ariane – Ariane Mnouchkine

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O Teatro do Sol – A louca esperança de Ariane – Ariane Mnouchkine

Em nossa coluna de hoje, destacamos um teatro, o Teatro do Sol, e sua fundadora e grande incentivadora, Ariane Mnouchkine, atriz, escritora e diretora francesa. Esse teatro localiza-se em Paris, no Parque de Vincennes, sua sede é uma antiga fábrica de pólvora do tempo de Luís XIV, e foi fundado em 1964. Quanto a sua criadora, trata-se de uma senhora de oitenta anos de idade, em vias de oitenta e um, a serem festejados no próximo dia 03 de março. O Teatro do Sol percorre uma longa jornada, mais de meio século de vida, e continua tão jovem quanto sua fundadora, uma pessoa inquieta e sábia; sábia porque Ariane sabe manejar os acontecimentos e reconhece que as confrontações resolvem-se com uma boa dose de inteligência e de “concentrada utopia”. O Teatro do Sol foi fundado como uma cooperativa, todos seus integrantes recebem o mesmo salário, todos maquilam-se em público, quer dizer, quando entramos para assistir ao espetáculo, os artistas ainda mostram-se colocando suas perucas, seus adereços, e outra particularidade, esta, sim, palatável, é que, ao final da representação, todos, artistas e espectadores compartilham uma sopa que nos é ofertada por Ariane. Além disso tudo, é ela própria, a “mãezona” desse teatro, quem nos recebe na entrada, conferindo os bilhetes. Assim fazendo, Ariane coloca-se na linhagem de outro grande nome do teatro ocidental, Molière, que viveu entre 1622 e 1673, e que trabalhava sempre próximo de seu público; esse tratamento familiar entre artistas e espectadores possibilita, a cada sessão, uma espécie de comunhão de sentimentos e de ideias. O Teatro do Sol já encenou, ao todo, entre peças e alguns filmes, mais de quarenta obras, e essas são assinadas por nomes expressivos da literatura, como Ésquilo, autor grego que viveu entre os séculos VI e V a.C., Shakespeare, inglês do século XVI/XVII, o próprio Molière, francês do século XVII, e outros mais recentes, como Maxim Gorki (1868-1936), Klaus Mann (1906-1949) e o autor inglês contemporâneo, Arnold Wesker (1932-2016); em peças mais recentes, a autoria dos textos tem ficado a cargo da professora de filosofia e escritora Helena Cixous (1937). É precisamente essa autora que trabalhou na adaptação teatral do livro de Júlio Verne (1828-1905), “Os Náufragos do ‘Jonathan’”, edição póstuma de 1909. O espetáculo do Teatro do Sol recebe o título de ”Os náufragos da esperança louca – Auroras”, em 2010, e cuja encenação, em 2011, obteve grande sucesso e mereceu vários prêmios. O texto conta-nos as aventuras das pessoas que estão em um barco, o qual encalha em uma ilha, na ponta da Terra do Fogo, ou seja, no fim do continente ou no limite do mundo; seus passageiros vão tentar construir uma sociedade nova, um modelo para a humanidade futura; o ano é 1914, uma época de transição em que todas as utopias ou a chamada “louca esperança” de um século nascente parecem possíveis; havia também, a bordo, uma equipe de filmagem que pretende registrar todo esse esforço de convivência pacífica e de renovação social. Com o desdobramento da situação, aquela espécie de fábula poética, em que todos são portadores de atitudes fraternais, revela-se impraticável porque dois grupos opostos ambicionam o poder e lutam muito, utilizam todos os meios para conseguir a supremacia um sobre o outro, ou melhor, sobre todos os outros náufragos. Por outro lado, há um pequeno grupo de sobreviventes que não demonstra essa sede de dominação, e esses são precisamente os artista ou cineastas que filmam os acontecimentos; são eles que nos conduzem ao final da peça, transmitindo-nos a seguinte frase: “Nesses dias de trevas, nós temos uma missão: trazer aos barcos que erram na escuridão o brilho obstinado de um farol”. Esse é o sopro de expectativa e de esperança que nos resta, essa é a mensagem divulgada pelo Teatro do Sol de Ariane Mnouchkine e seus companheiros, e é sobre esse frágil sentimento de fé na humanidade que necessitamos refletir sobre as escolhas que fazemos para manter-nos “humanos”.

 

 

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