Teatro – Primeira parte: Shakespeare, o Bardo inglês

Imprimir Post

Teatro – Primeira parte: Shakespeare, o Bardo inglês

Segundo o grande escritor francês Victor Hugo (1802-1885), “o teatro é um ponto de vista da óptica, tudo deve e pode refletir-se ali”. Que bela definição, ao mesmo tempo concreta, já que “théatron” (em grego) ou “theatrum” (em latim) vem de olhar, colocar-se a uma certa distância para que se possa bem observar, e aí temos a mesma origem de ‘theoria’, aquilo que olhamos de longe, e também junta-se ali a possibilidade de tudo criar, de fazer acontecer qualquer coisa que nossa imaginação nos permita.

Pois bem, em nossa fantasia, estamos no séc. XVI, nele permanecemos até o início do próximo, e nele encontramos a obra de um grande conhecedor da chamada “alma humana”, aquele que expôs implacavelmente sua trama de paixões, de intrigas, seus desejos obscuros e seus amores nem sempre realizados; falamos de William Shakespeare. O autor nasceu na região central da Inglaterra, em Stratford-upon-Avon, localidade do condado de Warwickshire, em 1564, e morreu no mesmo local, em 1616. Foi dramaturgo e poeta, e também representava em peças de sua autoria; escreveu tanto comédias como tragédias, e teve a sorte de produzir sua obra em um tempo de regime político forte, mas que formou e protegeu companhias de autores, e que insistiu em uma escrita teatral abrangente, incluindo desde a elite aristocrática até os mais simples cidadãos. Figura eminente da cultura ocidental, suas obras já foram traduzidas, até agora, em um total de mais de 4000 ocasiões. Entre 1580 e 1613, Shakespeare escreveu trinta e sete obras dramáticas, carregadas de expressões e de termos inventados ou reelaborados pelo autor; isso aconteceu ao ponto de, tradicionalmente, chegar-se a chamar o inglês de “a língua de Shakespeare”. Dentre tantas obras-primas, ressaltamos “Romeu e Julieta” (publicada em 1597), “Hamlet” (primeira representação entre 1598 e 1601), “Macbeth” (publicação provável em 1606), “Othello” (primeira apresentação em 1604), “O rei Lear” (escrita em prosa e em versos, primeira representação em 1606), “O sonho de uma noite de verão” (comédia escrita entre 1594-95), “A Tempestade” (uma das últimas peças escritas pelo autor, entre 1610-11), “Ricardo III” (é a última peça histórica do autor, e acredita-se ter sido redigida entre 1591-92). A partir de 1585, Shakespeare parte para Londres, onde desenvolve a maior parte de sua obra monumental, e onde também se apresenta como ator; na época, ele trabalhou no teatro o Globo, construído inicialmente em 1599, na margem sul do rio Tâmisa, onde lá permanece, depois de dois incêndios e demolição no decorrer dos séculos, sendo que a construção atual data de 1997. Nesta coluna, dedicamo-nos um pouco mais à peça “Macbeth” (1606); ela desenrola-se na Escócia medieval e retrata, de forma romanceada, o reino de Macbeth (1040-1057); devorado pela ambição, o general Macbeth comete o crime de regicídio (assassina seu rei), instigado por sua esposa, Lady Macbeth, mas o sentimento de culpa e a paranoia os atacam implacavelmente, e seu castigo é serem tragados por um turbilhão de loucura. Essa peça é uma das mais curtas do autor, ao mesmo tempo em que se trata de uma das mais representadas e adaptadas; ela compõe-se de cinco atos. No primeiro, a peça inicia com a explosão de uma tempestade, três feiticeiras apresentam-se e contatam o general Macbeth e seu amigo, o também militar Banquo: advertem-lhes de suas lutas, e particularmente, alertam Macbeth que um dia ele será rei, mas que depois dele o próximo monarca não será seu filho, ao mesmo tempo em que, curiosamente, anunciam que nenhum homem não nascido de mulher poderá ser morto por inimigos, e que ele, Macbeth, estará a salvo enquanto a floresta da região ali permanecer. No segundo ato, ambicioso do poder e instigado por sua mulher, Macbeth mata o rei Duncan que viajava e que viera pernoitar em seu castelo. Nos atos três e quatro, ele continua a praticar atrocidades, mata também seu amigo, e os fantasmas de “seus” mortos  começam a atormentá-lo. Finalmente, no quinto ato, sua mulher tem crises de sonambulismo, reitera alucinadamente os crimes dos quais participou, e termina por se suicidar. Enquanto isso, outro rei da região vem atacar Macbeth, e diz-lhe saber que ele, Macbeth, “não nasceu de mulher”, mas sim fora arrancado da barriga de sua mãe, e que seu exército está camuflado sob os ramos da floresta. Portanto, tudo está perdido, e Macbeth é eliminado devido à ignomínia de seus atos perversos. Para a maioria das doutrinas filosóficas e religiosas da época, a origem do mal estava nas forças externas ao homem, do qual se apropriavam e corrompiam a alma; parece-nos que Shakespeare tem um visão oposta; para ele, o mal está no homem, isso quer dizer, o mal é inerente a nossa condição, o que revela um pensamento avançado, somente alguns séculos depois é que se falará disso. Poderíamos resumir a lição da peça com o adágio “Bem adquirido mal não se aproveita jamais”, pois não se terá nunca tranquilidade. Do ponto de vista moral,  encontramos aí a advertência para aqueles que são tentados a cometer o mal.

 

[]
1 Step 1
Envie seu Comentário

Normas de uso

Comentários sobre esta página podem ser moderados. Nesse caso, eles não aparecerão imediatamente na página quando forem enviados. Evite desqualificações pessoais, insultos e comentários que não tenham nada a ver com o assunto. Comentários que violem essas regras básicas serão eliminados.


Mostrar meu e-mail publicamente
keyboard_arrow_leftPrevious
Nextkeyboard_arrow_right
Marcações: