Platão, a alegoria da caverna

Imprimir Post

Platão, a alegoria da caverna

 

Muitos denominam o tema que apresentaremos a seguir de “mito”, enquanto outros o chamam de “alegoria”; sabemos que mito é uma narrativa fantástica ou simbólica, ou ainda uma forma alegórica de se expor uma ideia ou uma teoria e que, por outro lado, alegoria é uma forma de expressão que visa a transmissão de concepções ou ensinamentos. Quase poder-se-ia afirmar que ambas palavras têm o mesmo sentido, não fosse por um detalhe a meu ver determinante, a saber: na etimologia ou origem da palavra alegoria, constam os seguintes elementos em grego, “állos” significa “outro” e “agoreu” é “falar em público”; no conjunto, temos o significado de “falar em público de outra forma”, o que exatamente apresenta-se nesta narrativa de Platão. O filósofo viveu entre os séculos V e IV a.C., foi discípulo de Sócrates e escreveu, entre diversos trabalhos notáveis, um deles intitulado “A República”, no qual transmite a lição da caverna, originária de seu mestre, para o jovem Glauco, este irmão mais  moço de Platão, e essa classe acontece ao ar livre, em público, sendo seu objetivo a definição de democracia, a situação em que as pessoas comuns ou o povo exercem o poder na pólis ou cidade. Sócrates jamais escreveu nenhuma de suas palestras, e coube a seu aluno Platão a tarefa de deixá-las registradas para a posteridade; é obrigatório ressaltar que, ao fazê-lo, Platão expande o tema inicial, realiza uma obra literária e apresenta diálogos em que um dos interlocutores será sempre seu mestre Sócrates (trabalho genial de dois pilares do pensamento e da cultura do Ocidente). No livro VII de “A República”, o autor apresenta homens acorrentados e imobilizados em uma “morada subterrânea”, exatamente o oposto do “mundo de cima”, eles estão de costas para a abertura da caverna e só veem suas sombras projetadas nas paredes dessa cova. O que o filósofo tem como objetivo, ao escrever este texto, é expor em termos imagéticos as condições de acesso do homem ao conhecimento do conjunto de fatores adequados a colocar e manter cada indivíduo no ápice de sua realização pessoal e social – aquilo que Platão chama de “Bem” – e ainda a não menos difícil transmissão deste conhecimento. “A República” é uma obra política de Platão que disserta sobre a política ateniense da Grécia Antiga e apresenta sua proposição que relaciona o conhecimento ao poder político. Segundo o filósofo, o conhecimento da verdade mais profunda –   proporcionado apenas pelo raciocínio – é a condição fundamental para que um governante realize uma boa gestão. Como já sabemos um pouco do texto e retornado a ele: pessoas acorrentadas passavam com estatuetas e faziam gestos na fogueira para projetar as sombras na parede frontal aos prisioneiros, e esses achavam que toda a realidade eram aquelas sombras, pois o seu restrito mundo resumia-se àquelas experiências. Um dia, um dos prisioneiros liberta-se e começa a explorar o interior da caverna, descobrindo que as sombras que ele sempre vira eram, na verdade, controladas por pessoas atrás da fogueira. O homem livre sai da caverna e encontra uma realidade muito mais ampla e complexa do que a que ele jugava haver quando ainda estava preso; inicialmente, o homem sente um incômodo muito forte com a luz solar – elemento ao qual suas retinas não estavam habituadas – e fica cego momentaneamente. Após algum tempo de visão ofuscada, o homem consegue enxergar e percebe que a realidade e a totalidade do mundo não se parece com nada do que ele tinha conhecido até então. Apresenta-se um dilema a este homem que agora conhece a luz do sol: ou retornar para a caverna e correr o risco de ser julgado como louco por seus companheiros, ou de continuar e desbravar aquele novo mundo, porque agora o homem aprende que o que ele julgava conhecer antes era fruto enganoso de seus sentidos, os quais são limitados. A intenção de Platão é apresentar uma disposição hierárquica para os graus de conhecimento. Existe um grau inferior, que se refere ao conhecimento obtido pelos sentidos do corpo (é o tipo de conhecimento que permite aos prisioneiros ver apenas as sombras) e um grau superior, que é o conhecimento racional, conseguido no exterior da caverna. O homem que se libertou, aquele que percebeu que ele e seus companheiros eram mantidos na ignorância extrema e em condições perversas, e que decide voltar para ajudar seus iguais, este liberto, assim, torna-se o que se chamou de “político”, na época de Platão; para este, o político alinha-se a uma “ideologia filosófica de conduta”, o que significa que é uma pessoa que deve influenciar na “coisa pública”, tanto por eleição como por indicação, e sempre no intuito de praticar boas ações para seus companheiros. Para finalizar, destacamos que a construção metafórica na alegoria da caverna significa que os homens comuns somos todos nós, que a caverna abriga o grau inferior de conhecimento e não possibilita o conhecimento racional, além de ela mesma ser identificada com nosso próprio corpo, o qual só produz a captação pelos sentidos, as sombras em suas paredes são os frutos de nosso saber costumeiro e enganador, enquanto a luz do sol é a sabedoria, a única capaz de tornar o ser humano plenamente desenvolvido racionalmente e socialmente. Assim, resumindo, “A República” é um diálogo platônico dividido em dez livros, um dos quais, o sétimo, é dedicado à alegoria da caverna, e cujo propósito é apresentar sua teoria política,

a qual visa estabelecer o modo de governo perfeito por meio da intelecção pura e do conhecimento racional. Na vida “verdadeira” e contemporânea, sabemos todos, as coisas são diferentes, mas por mais adversidade que exista, não devemos esquecer os ensinamentos de Platão porque cabe a nós questionarmos o que está incorreto e buscar a sabedoria das luzes.

Boas Festas e bom Ano Novo com serenidade de sentimentos e claridade de ideias, a todas e a todos!

 

 

[]
1 Step 1
Envie seu Comentário

Normas de uso

Comentários sobre esta página podem ser moderados. Nesse caso, eles não aparecerão imediatamente na página quando forem enviados. Evite desqualificações pessoais, insultos e comentários que não tenham nada a ver com o assunto. Comentários que violem essas regras básicas serão eliminados.


Mostrar meu e-mail publicamente
keyboard_arrow_leftPrevious
Nextkeyboard_arrow_right
Marcações: