Padre Antônio Vieira, 1608-1697
“Sermão de Santo Antônio aos Peixes”, 1654
Antônio Vieira nasceu em Lisboa, Portugal, e morreu em Salvador da Bahia; viveu durante boa parte do século XVII, considerado como o século das Luzes, na civilização europeia; foi padre jesuíta e também escritor e pregador de renome; sua obra abrange mais de duzentos sermões (os quais estão inscritos como obras essenciais da literatura de língua portuguesa), setecentas cartas, e ainda as chamadas relações – ou documentos da justiça de segunda instância, além de tratados proféticos, como seu mais célebre, “História do Futuro, a chave do profeta”, onde ele traça uma visão do destino de Portugal e do mundo. Antônio Vieira é considerado um dos grandes nomes da literatura portuguesa, assim como um dos maiores oradores sacros da cristandade. Foi um sábio, portador de vasta cultura, correspondeu-se com os maiores pensadores de seu tempo, cumpriu missão diplomática e chegou a ser, por um certo período, um tipo de tutor ou de conselheiro da rainha Cristina da Suécia, posto que esta, muito inteligente, cercava-se da genialidade dos literatos da época, tais como Descartes, Pascal, Leibniz, Spinoza, além do próprio Antônio Vieira. Igualmente, em sua função de padre, ele defendeu os judeus contra a inquisição, trabalhou incansavelmente para a extinção da diferença que se fazia entre cristãos-novos – judeus recentemente convertidos para escapar dos atos da inquisição – e cristãos-velhos, aqueles que não foram judeus, nem tinham antepassados judeus; além desses combates, Vieira defendeu incansavelmente os indígenas que eram capturados e escravizados, assim como sempre pregou o término do desumano sistema socioeconômico conhecido como escravagismo. Em seus sermões, fazia a evangelização até o limite de suas condições físicas. Quando pregava, nos templos católicos, ele ao mesmo tempo criticava severamente os sacerdotes seus colegas, os quais não ofereciam resistência à inquisição e a sua carga de sofrimentos, torturas e injustiça. Tal comportamento de Vieira, assim como suas atitudes inusitadas e seus pensamentos revolucionários permitem-nos pensar que ele não seria bem aceito por alguns, e na realidade, isso ocorreu; várias vezes ele foi condenado à prisão ou à interdição de pregar; em 1669, ele dirige-se à cúria, em Roma, com o intuito de solicitar o apoio do Papa – inicialmente, Clemente IX e logo em seguida, ao sucessor deste último, o Papa Clemente X. Na Santa Sé, por seis anos, Vieira manteve sempre – e na medida do possível – sua luta contra a inquisição; após esse tempo de recolhimento longe de sua missão apostólica no Brasil, ele é enviado de volta à Lisboa, mas sempre sob a condição de manter-se afastado de aparições públicas; ou seja, seria o que atualmente chamamos de “prisão domiciliar”. Em 1681, aos setenta e três anos de idade, ele consegue permissão para retornar ao Brasil, e passa a residir na Quinta do Tanque, casa de campo do Colégio dos Jesuítas, na Bahia; nesse período, dedica-se à correção de seus Sermões, visando uma futura edição em quinze volumes, e ainda ocupa-se de sua “Clavis Prophetorum”, seu texto profético com uma visão global de muitos séculos à frente de seu tempo. Suas obras são divulgadas na Europa, onde elas recolhem largos elogios. Doente, sem forças e impossibilitado de escrever, ele morre aos oitenta e nove anos de idade. Passamos, agora, a uma pequena análise de um de seus sermões, certamente o mais célebre e mais comentado, desde então e até hoje; trata-se do “Sermão de Santo Antônio aos Peixes”, escrito em 1654, no Brasil, à véspera de embarcar para Lisboa, viagem esta que o padre realiza com o intuito de pedir providencias favoráveis aos indígenas e às missões jesuítas, no Maranhão. Habitualmente, perguntamos: por que esse título, por que escrever uma pregação religiosa e dirigi-la inutilmente aos peixes? E a resposta é: exatamente porque esse tipo de discurso moralizador era considerado enfadonho por muitos habitantes daquela região, colonos, portugueses exploradores de terras brasileiras, e mesmo indígenas que ignoravam seu propósito e, assim sendo, Padre Antônio Vieira decidiu pregar aos peixes, acreditando que estes acolheriam melhor seu sermão. Então, é necessário que se esclareça que os discursos daqueles tempos medievais, utilizavam muito o recurso do chamado bestiário, ou seja, havia uma costumeira compilação de narrativas alegóricas e morais sobre animais – fabulosos ou reais. Esse conjunto de obras que retratam animais integra a arte barroca, mais especificamente, a literatura da época, porque iniciava-se, então, a tentativa de alcançar-se uma esfera antropomórfica e até relativa aos animais, com o sentido de igualar-se ou contrapor-se à composição exclusivamente angelical ou com seres superiores. Muito provavelmente, o conceito inspirador para Vieira deve ter sido o que exprime o seguinte: “os peixes grandes comem os pequenos”. Esta visão universal da sociedade coloca em evidência a animalidade do humano. Mais adiante, Vieira avança em seu raciocínio e nos diz “que o peixe que persegue o mais fraco para comê-lo deve ter cuidado para não encontrar-se na goela de outro peixe ainda maior, o qual o engolirá.” Segundo um pensamento um pouco anterior, mas igualmente genial – e este de Thomas Hobbes – ele alerta-nos “que o homem é um lobo para o outro homem”. Todos esses elementos autorizam-nos a afirmar que a obra de Vieira é a expressão mais geral de um movimento humanista ressaltando o absurdo e a crueldade quase animal dentro da sociedade humana. Para muitos analistas, o sermão de Vieira descreve a sociedade colonial portuguesa: o ato de devorar os peixes pelos seus semelhantes é, aqui, a imagem mais exata da ocupação colonialista no Brasil, e deparamos, então, com o fato de que os homens brancos não são menos antropófagos que os “homens vermelhos” (no caso, os indígenas tapuias), e realizam o que hoje chamamos de exploração selvagem de seus diferentes. A mensagem do Padre Vieira é, portanto, simbólica e destina-se àqueles que não escutam a pregação devida, sendo os peixes a representação do invasor de terras indígenas, do inquisidor ou do índio selvagem; desde o início de seu sermão, ele retoma o pensamento pastoral que nos ensina que o pescador distingue os bons peixes dos maus peixes, o que nos leva a pensar que assim constrói-se uma tipologia dos comportamentos morais, as virtudes e os vícios. Pelo que vimos, Antônio Vieira é um autor moderno de mais de três séculos que nos faz pensar e até provoca admiração e espanto de nossa parte, no sentido de que ele critica sua época, no caso, as condições da colonização do território brasileiro, mas que também avança e aprofunda seu julgamento sobre a conduta humana, ele pergunta-nos se somos iguais aos animais ou ainda piores, seu questionamento coloca em xeque o que pensamos de nós mesmo e o que fazemos em nossas vidas e em relação às vidas das outras pessoas. Pelo menos para quem escreve este texto, uma pergunta instalou-se e permanece ocupando um “cômodo” muito especial de seu pensamento: porque agimos dessa forma, o que esperamos ganhar com isso, o que alcançaremos depois? A cada um cabe sua própria questão e sua possível resposta.
