Mulheres extraordinárias: Olympe de Gouges, 1748 – 1793

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Mulheres extraordinárias

Olympe de Gouges, 1748 – 1793

Marie Gouze, conhecida por Olympe de Gouges, nasceu no sul da França, em maio de 1748 e morreu guilhotinada, em Paris, em novembro de 1793; como curiosidade, cerca de três semanas depois da rainha Maria Antonieta; apesar de terem tido o mesmo tipo de morte e no mesmo local, a coincidência entre as duas para por aí; enquanto a rainha foi acusada e executada por traição, visto que participara da fuga de Paris, em 1791, e do projeto de busca de tropas para invadir a capital, no caso de Olympe de Gouges, ela sofreu a pena de morte por suas ideias. Olympe é escritora e tornou-se também política, tendo sido autora da “Declaração dos direitos da mulher e da cidadã”, e ainda de diversos outros textos, todos a favor dos direitos civis e políticos das mulheres e da abolição da escravatura dos negros; ela é seguidamente tomada como emblema dos movimentos pela igualdade social das mulheres e pela liberação feminina. Foi casada com um oficial da intendência do rei, ficou viúva pouco tempo depois e, como era proibido a uma mulher publicar um escrito seu sem a autorização do marido, Olympe preferiu não mais casar-se para poder editar suas obras livremente, sem precisar do consentimento de seu eventual esposo; assim fazendo, ela preservou sua liberdade de publicação. No começo de 1770, Olympe muda-se para Paris com seu filho, ao qual ela proporciona uma educação esmerada; é nesse ambiente amplo e fervilhante de ideias, que ela começa a dedicar-se fortemente às letras e inicia, então, a ser reconhecida por sua carreira literária; ela consegue manter uma pequena companhia teatral itinerante, ocupando-se pessoalmente dos cenários e dos trajes de cena, mas a peça que a torna célebre intitula-se “A escravidão dos negros ou o feliz naufrágio”, e foi encenada pelo teatro mais importante de Paris, tendo alcançado um belo sucesso. Trata-se de uma peça audaciosa no contexto político e social daquela tempo, pois seu intento era o de atrair a atenção do público para o sofrimento dos negros nas colônias, sendo que as famílias mais ricas da época obtinham seus grandes rendimentos exatamente dessa situação; Olympe sofreu, entre 1791 e 1792, diversas ameaças de morte, tendo enfrentado corajosamente todas as situações de assédio e todas as pressões. Além de seus textos antiescravagistas, ela defendia também uma monarquia constitucional, e chegou a afirmar que não se deveria condenar o rei e a rainha à morte, mas que bastaria instituir-se uma sociedade de suporte democrático a um reinado constitucional. A autora era igualmente desenhista, e produziu desenhos políticos onde desenvolveu um vasto programa de reformas sociais, abrangendo os diversos aspectos da vida dos indivíduos em uma sociedade organizada. Ainda, Olympe bateu-se muito pela igualdade dos sexos ou dos gêneros, como se diz hoje em dia; ela considerava que as mulheres eram capazes de assumir, com bom desempenho, as tarefas tradicionalmente confiadas aos homens; além disso, ela pregava que as mulheres deveriam sempre participar dos debates políticos e das discussões sobre assuntos da sociedade. Assim, ela escreveu que “as mulheres devem ser iguais aos homens, e que por isso, uma mulher pode tanto subir à tribuna da Assembleia, como subir ao cadafalso”; tal afirmação foi tão impactante, que terminou por converter-se em um triste presságio. Quase inacreditável para nós, nos dias atuais, que uma mulher, há mais de dois séculos, tivesse essa coragem de afrontamento em diversos setores da sociedade e que os expressasse de uma forma tão audaciosa! Pois bem, Olympe avançou e escreveu peças de teatro em que discute a utilidade dos conventos e a liberdade das mulheres, pois sabemos que as mulheres viúvas ou mesmo solteiras, por algum motivo qualquer, eram internadas em conventos, sem a mínima vocação religiosa; e a autora ainda pregou a instauração do divórcio, em outra de suas realizações cênicas; em determinado momento, afirma que se deve dissolver o casamento religioso e substituí-lo totalmente por um contrato social. No campo dos direitos humanos, ela escreve panfletos e cartazes demandando que se abaixasse o preço do pão para os pobres e ainda exigindo uma taxa sobre a riqueza, ou seja, um imposto sobre os ricos. Incrível, não é mesmo? Tanto pelo século em que isso aconteceu, como pela continuidade da exação inalcançada. Chegando a 1793, em pleno período revolucionário que se chama Terror, Olympe opõe-se vivamente contra os abusos e os massacres sanguinários praticados a mando dos chefes políticos; ela questiona abertamente a atitude dos mesmos, expondo-se de maneira excessiva. Seu destino está traçado, ela ainda redige uma carta aberta expondo os princípios de uma sociedade democrática, mas o correio que a levava foi censurado. Em diferentes países, homenagens e reconhecimento lhe são prestados, tais como nos Estados Unidos, Japão e Alemanha, onde sua obra e importância têm sido estudadas; além disso, ela é considerada como a primeira mulher feminista, mesmo que não se utilizasse este termo há dois séculos. Nos dias de hoje, seu busto sobrepõe-se à Declaração dos direitos da mulher e da cidadã, na Assembleia Nacional de França. Há dúvida de que Olympe de Gouges foi uma mulher extraordinária? Claro que não; usou sua imposição pessoal e seu alcance racional para lutar pela justiça e pela dignidade das pessoas, e isso não se apaga, pode não brilhar neste nosso tempo nebuloso, mas essa louca esperança continua e contém todos os desejos da humanidade para se fazerem valer, algum dia.

 

 

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