Mulheres extraordinárias – Hildegard von Bingen, 1098 – 1179

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Mulheres extraordinárias

Hildegard von Bingen, 1098 – 1179

Apresentaremos três mulheres excepcionais, de séculos diversos, de percursos também diferentes, mas de inteligências igualmente brilhantes e de alcance que perdura no tempo. Em nosso texto de hoje, vamos discorrer sobre Hildegard von Bingen, uma religiosa beneditina alemã que viveu a maior parte de sua vida no século XII. Ela era dotada de uma personalidade mística, mas exerceu igualmente a medicina de sua época, consagrando-se também ao estudo das plantas e do reino animal, e ainda compôs cânticos para suas abadias e, finalmente, escreveu textos filosóficos apropriados à divulgação de sua crença. Foi  canonizada como Santa da Igreja Católica e, a partir de 2012, ela é reconhecida como Doutora da Igreja, proclamada pelo Papa Bento XVI; ressalte-se que até 1970, só houve doutores da Igreja homens; ela é considerada Doutora da Igreja por sua autoridade excepcional no domínio da teologia, sendo que a profundidade de sua fé e a certeza de seu pensamento acrescentaram a evidência da santidade em sua vida, além da sapiência presente em seus escritos, fazendo que todo o conjunto demonstrasse exercer uma influência altamente distinguida no desenvolvimento do comportamento e da doutrina cristã. Interessante especificar o sentido do que é uma pessoa mística, para a Igreja; é aquela que tende para uma vida caridosa e contemplativa, com ocupação contínua da mente nas doutrinas e práticas religiosas, sendo que o fervor de sua crença alcança o estado de êxtase, cujo objeto é a divindade; tal aura de perfeição desperta nas pessoas respeito, adesão e devotamento. Essa é sua definição como religiosa, mas sua personalidade passa a interessar a todos no momento em que ela dedica-se à observação e estudo da natureza e dos seres humanos, agindo como uma “cientista” de sua época; ela questiona, inclusive, e de modo não permitido, o próprio entendimento dominante de que o Sol girava ao redor da Terra. Hildegard afirma que, à idade de três anos, ela tivera a visão de uma luz tão intensa que a deixara impactada à ponto de não poder dizer nada. Aos oito anos, entrou para o convento das beneditinas, torna-se abadessa aos 38 anos de idade, e aos 43, ela começa a registrar as visões que habitualmente, e desde tenra idade, ela diz possuir, e ao longo de seu trajeto terreno, ela funda e dirige duas abadias. A maior parte de seus escritos é reunida em um só volume, o qual encontra-se na biblioteca regional de Hesse, em Wiesbaden, no centro-oeste da Alemanha. Hildegard é considerada como a primeira naturalista da Alemanha e foi, também, uma “curadora” de maior renome, em seu tempo, sabendo combinar elementos já comprovados por grandes sábios da época, com os recursos locais da sabedoria popular, sempre no intuito de curar pessoas; neste domínio, ela deixou escritas três obras, onde encontramos uma descrição de plantas e de animais, com um acervo descritivo que abrange trezentas plantas, sessenta e uma espécies de pássaros e de outros animais, como morcegos e insetos, e ainda quarenta e um tipos de mamíferos. Todos seus estudos denotam um objetivo terapêutico e indicam os remédios que podem ser obtidos a partir de cada planta ou de cada órgão de cada animal; assim fazendo, Hildegard utiliza tudo que a natureza podia oferecer em matéria de tratamentos, desde o chamado “simples” ou plantas medicinais, como também os próprios minerais, dos quais ela expõe as virtudes “protetoras”, curativas e “purificadoras”. A seguir, as causas das doenças descritas por ela, mais os procedimentos relativos a cada remédio, terminam por compor sua teoria dos humores, os quais ela concebe como um conjunto de tendências e de predisposições que pertencem ao plano físico como também à esfera espiritual. Tal ideia pode soar bizarra para nós, no século XXI, mas não podemos esquecer que ela viveu entre o fim do século XI e o século XII e que, sendo uma religiosa, ela associa a criação do homem a Deus, inextricavelmente; para ela, o coração é a sede da alma e do princípio do conhecimento, assim, por via de consequência, a alma faz entrar e sair os pensamentos pelo coração, e o cérebro discerne e retira os maus pensamentos; já os olhos são as janelas da alma, o que permite que se veja a “alma de um homem em seus olhos”. Em meio a tais observações que parecem-nos irrisórias e quase poéticas, se assim as entendemos, encontram-se afirmações intuitivas que, mais tarde, mostrar-se-ão verdadeiras, principalmente aquelas sobre a fisiologia humana, a saber, ela já afirmava que o sangue circula dentro do corpo, ou ainda, sua assertiva sobre o fato de que a Terra gira em torno do Sol, sendo este colocado no centro do mundo, e que as estrelas encontram-se em movimento; ainda mais um conselho sobre a causa e a prevenção dos males de dentes: “aquele que quiser ter dentes firmes e sãos deve, pela manhã, colocar agua pura e fria na boca e deixá-la ali por um momento, para suavizar a sujeira que se encontra entre seus dentes; lave seus dentes e, se o fizerem seguidamente, eles permanecerão sadios”. Por incrível que possa parecer, a sábia já nos ensinava o que fazer e como proceder em benefício de nossa saúde, há mais de oito séculos. No setor musical, ela foi compositora de mais de setenta cantos litúrgicos, hinos e “sinfonias” medievais; também criou um drama intitulado “O jogo das virtudes”, no qual a alma virtuosa luta contra o demônio e, finalmente, o vence; Hildegard insere-se, assim, no rol dos escritores que, desde sempre e até nossos dias, continuam a descrever essa batalha entre o bem e o mal! Como sua genialidade não conhecia limites, e porque necessitava manter algum segredo de seus pensamentos expostos em seus escritos nem sempre de acordo com os cânones vigentes, Hildebrand também criou uma linguagem particular, compreendida só por ela, chamada “Lingua Ignota”! Não é necessário ser alguém crente para que se possa compreender o alcance da personalidade de Hildegard e de seu legado; ela exerceu uma influência positiva em seu círculo de atuação, sendo que esse prestígio destaca-se de sua época, lança-se para o futuro, e chega até nós quando tomamos conhecimento de sua obra. Ela é, definitivamente, uma mulher acima da média, extraordinária, como se diz, uma pessoa à frente de seu tempo.