Mulheres extraordinárias – Christine de Pizan, 1364 – 1430

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Mulheres extraordinárias – Christine de Pizan, 1364 – 1430

Christine de Pizan é considerada como a primeira mulher de letras que viveu de sua produção literária. Sua erudição a distingue dos escritores de sua época, isto é, entre os séculos XIV e XV de nossa era: a autora nasceu em Veneza, em 1364, e morreu em um mosteiro a trinta quilômetros de Paris, em 1430; esse trajeto entre um país e outro ela o fez quando, à idade de quatro anos, em 1438, seu pai, Tomás de Pizan, um renomado médico e sábio italiano, é convidado pela corte do rei Carlos V a exercer suas faculdades de pensamentos científicos em França; ele aceita esse chamado e começa a praticar e a difundir seus amplos conhecimentos abrangentes das matemáticas e até da astrologia; Tomás morre em 1387. A essa época, Christine era casada com um secretário do rei, mas uma epidemia de gripe o atinge e ele vem a falecer também em 1387; então, a viúva deve encarregar-se do sustento de três filhos, além de sua mãe e de uma sobrinha; felizmente, tratava-se de uma mulher dotada de muita inteligência e de excepcional capacidade de superação, ainda mais quando pensamos a época em que viveu. Christine foi escritora, poetisa, tradutora e copista; lembremo-nos que antes da invenção da imprensa, utilizava-se alguém suficientemente capaz de exercer a escrita com a beleza e a boa técnica exigidas para realizar a cópia de um manuscrito importante, geralmente consagrado a ensinamentos religiosos ou à divulgação de pensamentos filosóficos. Ela é uma autora prolífica: escreveu tratados de política, de filosofia e antologias poéticas; ela faz de seu talento e de seu trabalho o ganha-pão com o qual se sustenta e também provê as necessidades de seus filhos e de seus familiares. Próxima ao fim de sua existência, retira-se em um convento na pequena cidade de Poissy, onde, em 1429, ela dedica um “Poema à Joana d´Arc”, estando esta ainda em processo de julgamento, pois Christine de Pizan morre em 1430 e Joana d´Arc é condenada à fogueira em 1431. A autora escreveu e publicou mais de trinta obras, tratando de temas como a instauração da paz, em época na qual a França vivia uma conturbada ocupação de parte de seu território por forças inglesas; discorreu também sobre a educação das meninas, consolidando seu pensamento de que as jovens tinham, assim como os rapazes, capacidade intelectual de aprender as relações entre os números, ou seja, a matemática, e ainda elaborou obras poéticas dedicadas ao amor e às relações interpessoais no matrimônio. A seguir, destacamos sua obra considerada como a mais relevante, a saber, “A cidade das senhoras”. Esse livro é um relato alegórico publicado em 1405; sabemos que um texto lança mão de uma figura retórica, no caso, de uma alegoria, com a finalidade de exprimir uma ideia utilizando uma história que serve como suporte comparativo, ou seja, uma alegoria significa “dizer de outra forma”, usar uma imagem figurativa que vai facilitar a compreensão do que foi escrito. Nessa obra, a autora descreve uma sociedade alegórica, imaginária, onde as “senhoras” são mulheres nobres mais por seu espírito elevado que por sua marca de nascença; no decorrer da história, são citadas figuras femininas do passado que servem como exemplos de uma existência repleta de nobreza e de boa contribuição à sociedade. O livro contém ainda diálogos didáticos entre três personagens figurativas, as deusas da Razão, das Virtudes e da Correção, e esta última pede que Christine construa uma cidade “ideal”, onde a Razão dispõe o cimento sólido e apto para resistir ao tempo, e as paredes ficam a cargo das Virtudes, as quais contam com a ajuda da Correção, isto é, fundações firmes para a edificação de um espaço moral e comportamental calcados sobre a segurança de um código ético inabalável. Devemos confessar que isso é tudo o que se deseja nesse nosso mundo real, ao mesmo tempo que nos conscientizamos que só na construção literária podemos encontrar tanta firmeza de propósito e tanta postura correta entre seus habitantes! Para finalizar sua obra hipotética, a autora demanda à Justiça que ela julgue todas as ações que constituem essa “cidade”, e aquela deusa recobre de ouro aquelas que afastaram o mal e que produziram o bem. O livro de Christine é considerado por muitos analistas contemporâneos como uma das primeiras obras feministas, onde mulheres podem estabelecer conceitos racionais e até governar, assim como os homens. Por tudo que vimos de expor, Christine de Pizan é, incontestavelmente, a maior pensadora política de seu tempo, lançando ideias que valem para muitos séculos à frente, e não temendo apresentar uma utopia no lugar de uma realidade que ainda está distante de ser alcançada, mas que nem por isto deixa de ser desejada, pensada e divulgada.

 

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