Madame Bovary de Flaubert
Madame Bovary é de Flaubert, ou ainda, Flaubert é de Madame Bovary, pois o próprio autor diz, em determinado momento de sua correspondência com uma amiga, que “Madame Bovary sou eu”. Coisa estranha e até perigosa de se afirmar, na época em que o romance foi publicado, em 1857. Passamos a explicar a situação, calmamente, como deve ser. O romance “Madame Bovary, Costumes provinciais” – é este o título e subtítulo do romance – no mesmo ano de sua publicação, provoca contra seu autor a acusação de “ofensa à moral pública”; como sabemos, tal publicidade de alguma situação mais audaciosa foi efetiva no sucesso imediato do romance, com uma tiragem de vinte mil exemplares – inédita, para a época – e rapidamente esgotada. Continua, até hoje, sendo o romance mais lido da literatura francesa e um dos mais bem sucedidos em inúmeros países. É considerado uma obra-prima da corrente literária do realismo do século XIX, mas naturalmente, em nossos dias atuais, não o é somente por tratar de hábitos de província, tais como romances indevidos ou adultério punido pela suicídio doloroso; disso temos o suficiente, hoje em dia, e ao alcance de um controle remoto de televisão ou de um clique em qualquer outro aparato ainda mais moderno, mais atual. Perguntamo-nos, então, por que esse livro que já data de mais de um século e meio continua sendo tão atrativo para aqueles que o buscam e o leem? Respondemos: porque ele é o romance de uma vida; é disso que se trata, aqui mostra-se como uma vida se desenrola e como, às vezes, e é precisamente este o caso, essa mesma existência pode tornar-se tão absurdamente isolada de tudo e de todos, a ponto de deixar-se esmagar pelos sonhos não alcançados. Emma – é este o prenome de Madame Bovary – é uma jovem do interior da França, seu pai tem uma produtiva propriedade rural que ele explora e da qual obtém uma boa renda que permite, por sua vez, pagar os estudos de sua filha única em um ótimo colégio de freiras. Nesse período, a menina tem a oportunidade de ler bons livros e, assim, pouco a pouco, essa personalidade sonhadora torna-se aficionada de histórias de cavaleiros briosos montados em cavalos brancos majestosos e que vêm salvar a princesa e oferecer-lhe um mundo de sonhos. Porém, na vida real, nada disso existe nem ocorre; o pai de Emma sofre uma queda e tem uma perna quebrada, o médico da região, ou melhor, o prático que atende pacientes como se fosse médico, chamado Charles Bovary, vai àquela propriedade, avista Emma e apaixona-se por ela. Em pouco meses estão casados e instalam-se em uma pequena cidade do interior. Charles não é alguém que se expresse com facilidade, não oferece a Emma nenhuma conversação elevada, tampouco manifesta interesse em progredir profissionalmente. Tal situação é ainda agravada quando o pretenso médico tenta curar o pé boto ou torto de um jovem trabalhador da cidadezinha; ele fracassa e o rapaz perde a perna. Emma desilude-se ainda mais e definitivamente afasta-se emocionalmente de seu marido e de seu casamento. Mais adiante, o casal muda de cidade e vão morar em uma outra mais ampla, mais interessante. Ali, um jovem estudante de Direito e também apreciador dos livros e das artes, ao encontrar eventualmente Emma, apaixona-se por ela, mas nada ocorre entre os dois, por enquanto, são somente duas pessoas com interesses intelectuais comuns; algum tempo depois, esse jovem, Léon, irá para uma cidade importante, Rouen, terminar seus estudos e ser um advogado. Neste intervalo, Emma engravida de seu marido e ambos têm uma filha, Berthe. Mais adiante, na cidade em que a família Bovary mora, há um nobre, rico proprietário de terras, o qual promoverá um baile para os moradores importantes da região; Emma e Charles vão à recepção, ela dança com o senhor da festa, ambos apaixonam-se e, a seguir, tornam-se amantes. Emma pretende ter uma vida que a renda de seu marido não permite, começa a endividar-se e também passa a frequentar os espetáculos da Ópera de Rouen, junto com Charles. Em uma dessas oportunidades, reencontram-se com o estudante de Direito, Léon, o qual manifesta, agora, seu amor por Emma. Por enquanto, nada ocorre entre eles, o casal Bovary contina com sua vida na cidade pequena, Emma prossegue no acúmulo de gastos em compras de tecidos e de roupas, em determinado momento, vai pedir que o nobre proprietário, Rodolphe, a ajude com um empréstimo de dinheiro, ele o nega, e logo adiante ele ausenta-se da cidade, foge de qualquer contato e de qualquer responsabilidade para com Emma; ela fica desesperada e pensa em suicidar-se, jogando-se de uma janela; sua empregada a salva dessa situação. Ela prossegue devedora de um usurário da região, mas continua indo a Rouen, agora para fazer aulas de piano, e é lá que ela vive um grande romance com o jovem Léon, alguns anos mais moço que ela. Este foi um dos motivos para o escândalo provocado pelo livro, àquela época: uma mulher de quinze a vinte anos mais velha e que mantém um romance adúltero com um rapaz. O outro motivo – e este considerado pela sociedade da época mais grave – é que Emma e Léon algumas vezes programavam seu encontro amoroso dentro da Catedral de Rouen, e em seguida saíam em um fiacre, ao acaso, em uma longa jornada. O tempo passa e Emma sempre retorna a sua cidadezinha e a sua vida medíocre, o que a aniquila moralmente; em determinado momento, ela decide dar um fim a toda essa angústia de desejos não realizados, de ter seus sonhos brilhantes confrontados com a feia realidade, então ela dirige-se ao farmacêutico conhecido e seu vizinho, ela apodera-se secretamente de um pouco de arsênico, e assim ela inicia uma sequência terrível de sofrimento e termina sua existência. Esta é a história de alguém com extrema sensibilidade quase patológica e que foi desencantada pela vida. Alguns anos após a publicação deste romance, estudos psicológicos foram realizados sobre o tipo de personalidade criado por Flaubert sobre a personagem de Emma Bovary, e decidiram adotar o termo “bovarismo” para aqueles indivíduos que fogem da realidade, que imaginam-se como seres superiores ou ainda como se possuíssem condições de vida muito acima de seu status real. Pensando bem, quem já não beirou o “precipício” de imaginar-se um pouco – ao menos um pouco – acima do que é, na realidade? Voltemos ao romance: com o passar do tempo, um dia, a filha do casal, Berthe, encontra seu pai morto no jardim, e quanto a ela mesma, ela é acolhida por uma tia e termina como operária em uma tecelagem. Quanto ao autor do romance, Gustave Flaubert, já dissemos que foi processado por “realismo vulgar e muitas vezes chocante na descrição de seus personagens”, mas finalmente, foi liberado da acusação, principalmente pela defesa de seu advogado, Jules Senard, e pelo suporte recebido no meio artístico, político e familiar. Flaubert, filho e irmão de médicos de destaque, de Rouen, dizia-se que manejava “a pena como um bisturi”, “realizando a extirpação dos sentidos equivocados e eliminando a imaginação descontente”. De qualquer forma, o autor Flaubert é o gênio único em sua arte e sobretudo em sua técnica de escrita, na qual ele adentra em sentimentos encobertos e traz à luz tudo o que não pôde concretizar-se, e a seguir ele refaz essa realidade de forma literária, sua “eterna escrita” continua representando através da linguagem aquela sensibilidade escondida em que ele adentra para que seja possível expressá-la em signos e na construção de novas vidas de seus personagens.
