Arte encanta
A arte encanta, é verdade, mas perguntamos como isso pode ocorrer e por quê? Arte já foi considerada, em épocas antigas, uma ciência oculta, com poderes encantatórios, que podia enfeitiçar uma pessoa, fazê-la transformar-se em outra, até então desconhecida. Pois bem, quanto a esse suposto poder da arte, podemos tranquilizar-nos, já não se crê mais nisso desde o século XVI, quando instalou-se o processo de renovação cultural e de costumes, chamando Renascimento. É a partir desse período da civilização que a arte passou a ser vista como um exercício consciente criador, indicando um objetivo alcançável pelo domínio de certas técnicas inerentes a sua atividade. Ainda podemos acrescentar que desde então, a produção artística é associada ao efeito de satisfação que provoca nas pessoas.
Pretendo escrever uma série sobre as diferentes modalidades de arte. Nosso primeiro texto, o de hoje, destaca a dança e a pintura.
A dança é uma das primeiras manifestações artísticas da humanidade; inicialmente, ela não exige nada além do próprio corpo de quem dança, segundo um ritmo, e eventualmente associado à música. Ela está presente em numerosas culturas enquanto forma de expressão emocional, relação social, atividade física e também é possível associá-la à expressão de ideias ou à atividade de contar uma história. A dança é uma forma de comunicação não verbal entre os humanos, e ainda pode repousar sobre uma coreografia e ser composta de passos técnicos, como no balé. No século XIX, grandes companhias de balé formaram-se e apresentaram montagens belíssimas de grandes coreógrafos, quando estrelas da dança fascinavam as plateias, como na Ópera de Paris, por exemplo, e cujas apresentações continuam até hoje, expondo um virtuosismo excepcional; era a época em que a dança valia pelo espetáculo, o que, aliás, já é o suficiente para tornar-se digna de admiração.
Em termos de dança contemporânea, há companhias de dança que vão além da perfeição dos belos passos e que apresentam, consequentemente, certos temas muito próprios de nossa época, ao explorar as relações humanas e suas condições em um grupo social, como faz o Tanztheater Wuppertal Pina Bausch desde 1973, localizado no oeste da Alemanha. Em suas apresentações, encontramos indagações e exposição de sentimentos de cada um de nós, seres humanos: dúvidas, angústias, espanto, alegria, nostalgia, reencontro. Assim apresentando seus espetáculos, esse tipo de dança vai além de provocar encantamento; ele desperta em nós o que já sentíamos, mesmo sem termos consciência disso, ele nos revela o que sabíamos e que estava encoberto até então. É exatamente aí que encontramos uma função que a arte cumpre muito bem, a saber, ela realiza, ela nos revela o mundo e suas circunstâncias de maneira emocional, e dessa forma ela contribui para nosso crescimento cultural e nosso desenvolvimento social.
Ainda tratando de arte como meio de expressão, destacamos a pintura como uma de suas mais antigas formas de mostrar-nos nosso entorno. Muito pouco foi necessário para que nossos antepassados pré-históricos nos oferecessem as pinturas e as gravuras que decoram a Gruta de Lascaux, no sudoeste de França, e datadas de 17.000 ou 18.000 anos. Que maravilha de legado é esse que nos permite visualizar o que era visto pelos humanos daqueles tempos remotos! Já no século XX, em 1937, o pintor espanhol Pablo Picasso pintou ‘Guernica’, uma tela de grandes medidas, 3,49 m x 7,77 m, com o intuito de revelar ao mundo a dimensão abusiva daquele ataque aéreo sobre a pequena localidade do norte de Espanha. Esse bombardeio aconteceu durante a Guerra Civil Espanhola e, novamente, a pintura possibilita-nos formar uma imagem real daquele terror imposto à população, às coisas e aos animais, todos os personagens retorcidos de morte e de dor.
Enfim, as artes representam uma forma de expressão do ser humano, geralmente influenciada pela cultura e conduzida por um impulso criativo. Por isso elas são tão importantes e, assim sendo, é essencial sua preservação e sua continuidade.
