Cronópios
Julio Cortázar, 1914 – 1984
Julio Cortázar é um escritor argentino nascido em Bruxelas, em agosto de 1914; no momento de seu nascimento, a família encontrava-se na Bélgica, onde seu pai exercia funções diplomáticas como agregado comercial da embaixada; regressaram à Argentina em 1918, onde Cortázar cumpriu sua educação inicial, frequentou a Universidade de Buenos Aires e trabalhou como professor rural. Em 1951, Cortázar obteve uma bolsa para estudar em Paris, e após, prestou concurso e conseguiu uma colocação como tradutor juramentado na UNESCO, nas línguas francês e inglês. Publicou seu primeiro conto, “Bruxa”, em 1946, daí em diante, colaborou com diversas publicações argentinas, escreveu perto de cem obras, dividindo-se entre romances, novelas, contos, teatro, poesia, artigos para revistas, até destacar-se, a partir dos anos 60, como uma das figuras do chamado “boom” da literatura latina. Essa “explosão” de talentos latino-americanos entre 1960 e 1970, inclui, além de Cortázar, outro argentino ilustre, Jorge Luis Borges, o peruano Mario Vargas Llosa, o colombiano Gabriel García Márquez, e ainda o mexicano Carlos Fuentes, e ela significou o reconhecimento, em terras europeias, desses autores até então desconhecidos; ressalte-se que o chamado realismo mágico, tão intrínseco a tantas obras desses escritores, partiu da América para o mundo, passando pela aceitação dos leitores europeus; então, trata-se de um movimento literário que teve início aqui e que viajou para a Europa, e não o contrário, como costumava ocorrer. No ano de 1962, Cortázar publica sua coletânea de contos intitulada “Histórias de cronópios e famas”, e no ano seguinte, em 1963, é editado seu romance “Amarelinha” (“Rayuela”, em espanhol), o qual foi um marco na carreira de Julio Cortázar. Estas são duas obras maiores da vasta produção literária do autor; sua obra foi traduzida em vários idiomas, e somente “Amarelinha” conta com traduções em trinta línguas diferentes, destacando-se a realizada na China, onde a tradução desse livro foi entregue a um honorável filólogo e poeta, acadêmico daquele país asiático, o que revela, primeiro, o apreço com que foi tratado o livro de Cortázar e, segundo, que um tema latino pode interessar também a um povo culturalmente longínquo. Cortázar recebeu o Prêmio Médicis, prêmio literário francês, em 1974, e o Prêmio Konex de Honra, da Fundação Konex da Argentina, em 1984. Faleceu em fevereiro de 1984, em Paris, aos 69 anos de idade, em consequência de leucemia. Considerado um dos autores mais inovadores e originais de seu tempo, Cortázar foi mestre do conto, da prosa poética e da narração breve, em geral; foi, sobretudo, criador de uma nova forma de fazer literatura no mundo latino, rompendo moldes clássicos mediante narrações que escapam à linearidade temporal e à compreensão retilínea; devido aos conteúdos de sua obra, que transitam na fronteira entre o real e o fantástico, o autor costuma ser relacionado no rol do realismo mágico – em que as situações mais absurdas passam tranquilamente como habituais – e também associado ao surrealismo – em que os pensamentos fluem de forma incoerente, vindos do inconsciente, senhor absoluto da expressão artística. Especificamente, quanto a “Amarelinha”, esta é, ao mesmo tempo, uma história e um jogo, formas diferentes de encarar a vida, todas elas indispensáveis e fundamentais; ela é a representação da complexidade do mundo que nos rodeia, e o qual nós só somos capazes de compreender em oposições binárias, tais como o pensamento abstrato versus o pensamento simbólico, a razão contra o sentimento, o sucesso em alternância com o fracasso. “Amarelinha” é a busca do sentido da existência, ela se faz infinita porque é uma reflexão aberta e receptiva para novos universos criativos; desta forma, há uma possível cumplicidade entre o escritor e o leitor, uma diversão, um mundo interativo criado antes da interatividade virtual de hoje; “Amarelinha” é, enfim, um lugar de satisfação, de contentamento. Entretanto, ainda não falamos dos cronópios criados por Cortázar, exatamente esses seres misteriosos que emprestam seu nome estranho ao título da coluna de hoje. Os cronópios são personagens do livro de contos “Histórias de cronópios e de famas”, o qual é dividido em quatro partes, e os relatos que o compõem são insólitos e absurdos; é nesse mundo incomum que os três personagens dos diversos contos devem viver e interagir, o que não é uma situação fácil! Neste ponto, eu pergunto aos leitores: e, por acaso, viver nossa vidinha cotidiana é uma atividade tranquila? É claro que não ! Jamais a aspereza da literatura será capaz de roçar, nem de leve, a sensibilidade de seus leitores; a dureza da realidade vence tudo – ou melhor, quase tudo: se consagramos alguns poucos minutos de nosso dia para mergulhar em um universo absolutamente novo, fantástico, que beleza de relaxamento podemos alcançar! Então, voltando ao cronópios, e agora para finalizar, convivendo com esses seres não convencionais e sonhadores, a seu lado, estão seus opositores, os famas (lembram-se do título do livro? “Histórias de cronópios e de famas”), e estes últimos são convencionais e conformistas, mas, regozijem-se, eles são constantemente impactados pela despreocupação inerente de sus vizinhos, e terminam todos envoltos no mesmo labirinto fantasmal desse universo literário do senhor Cortázar!
