Cogito, ergo sum
René Descartes, 1596-1650
Facilmente reconhecível, essa elocução que consta do título acima é associada a seu autor, o filósofo René Descartes. Vamos discorrer um pouco sobre ele, afinal, ele é a pessoa que, pela primeira vez, admite sua condição de ser humano porque podia reconhecer-se como tal; ele pensou e emitiu sua reflexão de forma peremptória, não deixou dúvida sobre a importância da racionalidade como a grande nota que marca nossa individualidade seja biológica, ou ainda na esfera da vida em sociedade. René Descartes nasceu em 1596, na região central de França, em uma cidade que, atualmente, ostenta seu nome em sua homenagem; morreu em 1650, em Estocolmo, onde foi conselheiro da rainha Cristina desde o ano anterior. Descartes editou inúmeras obras, e escreveu sobre os mais variados assuntos, entre eles, epistemologia, metafísica, física, óptica, matemática, moral, biologia, e princípios do que viria a ser, quase três séculos depois, a psicologia. Aos dezenove anos, o jovem Descartes obtém seu diploma de direito civil e canônico, e a partir de então, começa a viajar e a expandir seus horizontes; mora um ano em Paris, em seguida, engaja-se no exército do príncipe holandês Maurício de Nassau, ali desenvolve algumas de suas ideias matemáticas, de física e de lógica, logo depois dirige-se à Dinamarca e ainda à Alemanha, onde trava amizade com o imperador Ferdinando, sempre divulgando seu pensamento e os resultados de seus estudos. Além desse aspecto pedagógico, Descartes também desenvolveu seu lado militar, já o provara antes, e agora ele defende as forças armadas do duque Maximiliano da Bavária. Assim, Descartes permanece em Alemanha, entre 1619 e 1620, viajando, a seguir, para Itália, onde abandona a vida das armas e dedica-se exclusivamente ao desenvolvimento de suas teorias. Volta à França, onde encontra um grande incentivador dos novos pensamentos, a saber, o padre Mersenne, o qual, mesmo correndo risco de excomunhão, possibilita aos pensadores seus coetâneos a impressão e divulgação de suas obras revolucionárias para a época, sobretudo aquelas sobre o heliocentrismo, entre outras. No intervalo de 1625 e 1627, Descartes participa de inúmeros debates e passa a ser reconhecido por suas invenções em matemática, além de frequentar a elite intelectual e de dialogar com a comunidade de sábios. Já no ano seguinte, em 1628, seu método científico é exposto em sua obra “Regras para a direção do espírito”, na qual o autor estabelece e confirma sua ruptura com o tipo de ensino tradicional processado na Universidade da época, ou seja, ele quebra o tradicional pensamento cristão da Idade Média, baseado na tentativa de conciliação entre a racionalidade e a revelação da verdade tal como concebida pela fé cristã. Em outras palavras, inaugura-se ali, naquele momento e de forma audaciosa, o afastamento da razão e da crença, a afirmação da soberania intelectual sobre práticas infundadas de crendices diversas. Nessa época, são publicados diversos tratados de matemática sobre a álgebra, a geometria, com estudos sobre a hipérbole, a elipse, a parábola, e outros, além de trabalhos sobre os fenômenos da natureza, quando Descartes analisa os seres vivos, os animais, e daí resultam as obras “O mundo” e o “Tratado sobre o homem”. Prosseguindo, e já em 1637, em seu “Discurso do método”, Descartes nos ensina que “o bom senso é a coisa do mundo mais compartilhada”, e insiste na importância de usá-lo bem, pois esse conhecimento intuitivo “preserva- nos, protege-nos de muitos erros”, e que esse método ou essa maneira de proceder caracteriza-se pela simplicidade, ele está ao alcance de qualquer pessoa, enquanto esse ser é tipicamente “humano”. Precisamente nessa obra do filósofo, “Discurso do método” (1637), encontra-se a afirmação hiperbólica ou a expressão excessiva da dúvida, a saber, “Cogito, ergo sum”, “Penso, logo existo”: duvido de tudo, e ao final, só um ponto fixo ampara meu pensamento, só o fato de eu pensar assim prova que eu existo, ou ainda, eu existo porque eu penso, não necessito que me digam que eu sou eu mesmo, eu afirmo minha própria existência; ora, não podemos esquecer que o pensador nos ensina o método simples e fácil da reflexão, pertinente a todos os seres humanos, isso significa que não é só ele que confirma sua existência pelo pensamento, mas indica-nos que assim devemos nós todos proceder. Como percebemos, não é por pouca coisa que Descartes é considerado como um dos fundadores da filosofia moderna. Neste momento de nosso texto, podemos perguntar o que significa “filosofia moderna”, essa etapa da civilização que Descartes ajudou a formar? Em nosso mundo ocidental, chamamos “filosofia moderna” o pensamento que se estende entre aproximadamente três séculos: de 1492 – descobrimento da América ou do Ocidente – a 1789, data de eclosão da Revolução Francesa, determinante para que exista a era moderna. Acrescentamos que uma grande característica da filosofia moderna é a importância que nela desempenha a ciência, sobretudo as diversas formas de matemática e a física, sendo a base desse sistema calcada sobre o racionalismo. O racionalismo é a doutrina que admite a razão como única fonte possível de todo conhecimento do mundo; isso significa, em outras palavras, que o racionalismo estende-se sobre todo sistema que somente atribui à razão humana a capacidade de conhecer e de estabelecer a verdade. Nos dias de hoje, na época em que vivemos, com as características que conhecemos, com as opiniões diversas que seguidamente escutamos serem emitidas, poder-se-ia afirmar que o racionalismo opõe-se ao nosso “achismo’ contemporâneo. Daí que, para escapar dessa situação, um bom objetivo em nossas vidas poderia ser o de pensar por nós-mesmos e de exercer nossos momentos de reflexão, os quais nos aproximariam deste insigne filósofo que expressou como ninguém e de maneira irrefutavelmente lógica, seu amor pelo saber, ou seja, deixou como legado à humanidade, a filosofia engrandecida pela retidão do pensamento humano.
