Charlie Chaplin (1889-1977) – “Tempos Modernos” (1936)
Charlie Chaplin nasceu em 1889, na Inglaterra, e morreu em 1977, na Suíça; ele foi ator, diretor, escritor, produtor e compositor, trabalhou em mais de 80 filmes em 65 anos de carreira, e tornou-se um ídolo do cinema mudo graças a seu personagem, o Carlitos. Desde os cinco anos de idade, Chaplin trabalhou em espetáculos de variedades, ao lado de seus pais, os quais se apresentavam cantando e atuando em quadros cômicos. Ainda adolescente, foi observado por um empresário americano que o levou aos Estados Unidos, e lá ele participou de seu primeiro filme, em 1914, intitulado “Para ganhar a vida”; já em 1918, o jovem e talentoso ator passa a ser considerado como uma das personalidades artísticas mais conhecidas da América. No ano seguinte, em 1919, Chaplin torna-se sócio na fundação da companhia cinematográfica United Artists; é nela que ele realizará suas primeiras e já consideradas, algumas delas, obras-primas, tais como “O Garoto” (1921), “A Corrida do ouro” (1925) e “O Circo” (1928). Ele recusa passar para o cinema sonoro e continua a produzir filmes mudos nos anos 30, como “Luzes da cidade (1931) e “Tempos modernos” (1936). A seguir, seus filmes adquirem um cunho político, de onde emerge principalmente “O Grande ditador” (1940), no qual Chaplin ridiculariza Hitler e Mussolini. Após problemas ideológicos e políticos, Chaplin transfere-se para a Suíça em 1952, e a partir daí abandona seu personagem “Carlitos”, e volta a filmar o que se pode chamar de seu “testamento artístico” ou sua despedida, o filme “Luzes da ribalta” (1952), e ainda “Um Rei em Nova York” (1957) e “A Condessa de Hong-Kong” (1967). Na realidade, “Carlitos”, sua criatura, foi muito maior que seu criador, Chaplin; essa afirmação pode parecer ou até pode ser paradoxal, mas é essa a verdadeira dimensão da arte, quer dizer, é o produto ou a produção artística aquilo que realmente importa ao público que a assiste, enquanto seu criador é somente mais um ser humano suscetível de qualidades e defeitos, como qualquer um de nós. “Carlitos” nos representa, ele é fraco, é generoso, sofre injustiças, deseja ter uma vida boa, ser alguém socialmente aceito, mas sempre cai e volta a cair na miséria, ele não consegue compreender como tanta iniquidade prospera, mas luta para que ela termine, “Carlitos” é o soldado que participa de uma guerra sem saber por quê e salva um chefe militar seu inimigo; mas é também “Carlitos” quem, ao final de “O Grande ditador” (1940), pronuncia um apelo aos homens “de boa vontade” para que esses não se matem mais em guerras que só interessam àqueles que vivem da morte dos outros, guerras que só destroem a civilização; por tudo isso, “Carlitos” nos representa, sua personalidade alcança ressonância universal, ele é nosso irmão. E é precisamente Carlitos que participa da comédia-dramática sobre a qual dedicamos algumas linhas, a saber, “Tempos modernos” (1936). Resumo do filme: a primeira imagem mostra um relógio gigante sobre o qual o ponteiro dos segundos se movimenta inexoravelmente em direção à hora; o símbolo é claro, as pessoas vivem sob a tirania do tempo medido e controlado mecanicamente, é o que chamamos de a ditadura do relógio, e este representa a desumanização do homem moderno. A seguir, aparecem os trabalhadores que se movimentam em massa, como cordeiros, eles saem do metrô e dirigem-se à fábrica; lá encontramos nosso “herói” que se esforça em realizar seu trabalho repetitivo, misterioso, pois reduz-se a apertar porcas para fixação de parafusos. Incapaz de pensar, este operário, Carlitos, é somente uma extensão da máquina, um robô, a usina retirou-lhe seu senso crítico, ou seja, sua humanidade. Mais adiante, Carlitos envolve-se inadvertidamente em uma manifestação política, ele é preso, mas por ter ajudado os guardas da prisão em um momento de fuga de alguns prisioneiros, ele é liberado e até recebe uma carta de recomendação por seu bom comportamento. Enquanto isso, a ação do filme dirige-se a uma moça órfã e pobre que foge da polícia de menores e que acaba por ser empregada como bailarina em um restaurante. Carlitos e a moça iniciam uma amizade, ela consegue para ele o emprego de garçom nesse mesmo restaurante; lá, Carlitos deverá servir as mesas e também deverá cantar, o que ele realiza, mesmo sem saber nenhuma letra de canção, a cena é só uma pantomima, o personagem/ator representa uma história exclusivamente através de gestos, expressões faciais e movimentos. Tudo parecia bem, mas os policiais voltam para reconduzir a moça à delegacia de menores. Finalmente, ela e Carlitos fogem, sonham sempre com a bela casinha que poderiam ter para os dois, mas conformam-se com sua condição de errantes pelas estradas da vida (é esse o cenário final do filme), saem caminhando e pela primeira vez ouve-se trechos da música “Smile” (“Sorria”); é Carlitos que mostra a ela– e a nós- que devemos seguir sempre em frente. “Tempos modernos”, além de seu poder cômico, é uma brilhante reflexão sobre a condição do homem moderno; esse filme rodado nos anos 30 conserva ainda hoje um verdadeiro poder crítico, uma atualidade e uma forte pertinência, ele vem muito bem a propósito de nosso estilo de vida atual.
