Linguagem e Amor de mãe
Uma investigação científica internacional com pessoas que falam inglês, espanhol, hebreu e chinês sustenta que “há um princípio universal de organização cerebral”. Sabemos que esses idiomas escrevem-se, leem e falam de formas muito diferentes. Entretanto, esses investigadores que trabalharam na Universidade de Yale (Estados Unidos), no Centro Basco de Cognição, Cérebro e Linguagem (Espanha), na Universidade Hebraica de Jerusalém (Israel) e na Universidade Nacional Yang-Ming de Taipei (Taiwan), sustentam sua comprovação de que nos cérebros dessas pessoas ativam-se áreas comuns para decifrar a linguagem oral e a escrita, o que os levou a considerarem que se trata de um princípio universal.
O processo natural de aprendizagem tem como base o desenvolvimento da rede neuronal encarregada de compreender a linguagem oral, a partir dos primeiros meses de vida, e essa compreensão servirá como base para a etapa posterior, quando aprendemos a ler, até o final da primeira infância; isso quer dizer: a rede neuronal de compreensão oral serve de apoio para a leitura e a consequente escrita.
No entanto, mesmo contando com esse esforço científico, ainda ignoramos a maior parte da história da linguagem. A linguagem humana é algo extraordinário, ela nos intriga e nos fascina. Como trata-se de alguma coisa cotidiana, parece ser trivial, mas essa mágica constitui um dos fenômenos mais complexos do universo. De onde vem esse nosso superpoder que nenhum outro animal possui, de onde vêm as palavras? Não o sabemos com certeza; as investigações da linguística, da neurociência e das ciências cognitivas têm desenvolvido diversas teorias ao longo dos séculos. Estudos mais recentes apresentam uma hipótese segundo a qual um antropoide teria sofrido uma mutação evolutiva e como consequência sua laringe pôde modular sons que passaram a ser compreendidos pelos demais primatas, e tudo isso há cinco milhões de anos.
Por outro lado, há uma linguagem que todos nós, humanos, conhecemos e da qual sabemos a fonte: a que chamamos de “amor de mãe”. Em uma de minhas leituras, deparei com um lindo texto, uma poesia chinesa intitulada “A balada do filho errante” (游子吟), do poeta Meng Jiao (孟郊), o qual viveu entre 715 e 814, quer dizer, há mais de doze séculos. Nesse poema, aparentemente tão distante de nossa cultura e de nossa época, o autor convida-nos a refletir sobre o que faz e o que sente uma mãe cujo filho vai partir de casa, em breve.
慈母手中线,游子身上衣。
Címǔ shǒuzhōng xiàn, yóuzǐ shēnshàng yī. [em pinyin, a forma como se lê]
临行密密缝,意恐迟迟归。
Línxíng mìmì fěng, yìkǒng chǐchǐ guī
谁言寸草心,报得三春晖。
Shuí yán cùn cǎoxīn, bàodé sānchūn huī.
Muito modestamente, proponho a seguinte adaptação:
O novelo na mão da mãe cuidadosa, é a roupa do rapaz que parte em viagem
No momento da partida, ela aperta a trama do tecido porque ela teme que o filho demore para voltar
Quem pode dizer que a haste da grama que desponta, retribui os benefícios do sol de primavera
Como recompensar por todo esse carinho, por todo esse cuidado? Uma possibilidade nos é desvelada pelo poeta- para isso eles foram feitos- quando essa atenção materna é reconhecida e ele se permite “dar à luz” esse belo agradecimento ao amor de mãe.
