Amigos e Livros
Aprendemos que amigo é aquele que demonstra afeto, amizade, é também aquele a quem admiramos ou, sentido inverso, aquele que nutre admiração por nós. Podemos dizer que ele coloca-se a nosso lado e nos “olha”, percebe o que sentimos, alegria ou tristeza, sem que para isso seja necessário falarmos; desenvolvemos, assim, o que se convencionou chamar de amenidade de convívio, quando a vida nos é aprazível porque sentimos bem-estar.
Diz-se que os verdadeiros amigos são poucos; talvez para suprir essa carência, inventam-se, nas redes sociais, uma multidão de “amigos”. Assim fazendo, despersonificamos a amizade, ela passa a ser considerada como o mais extenso possível grupo de pessoas, porque assim eu me apresento como alguém popular, que frequenta muitos ambientes, em resumo, como alguém bem relacionado socialmente. Esse tipo de suposta “amizade”, não possui validade como tal, posto que é, em grande parte, somente uma manifestação narcisista, é minha própria imagem que ali eu exponho, como alguém muito conhecido.
Ao aprofundarmos o tema um pouco mais, damo-nos conta de que o que buscamos em um amigo é, pelo menos em parte, aquilo que não somos: um amigo nos compreende e nos complementa, por isso é tão importante termos “verdadeiros amigos”, apesar de essa expressão resultar em um pleonasmo. Isso significa que amigos compartilham de mesmas opiniões mas não somente, é possível e até salutar que amigos discordem, que cada um tenha seu ponto de vista próprio sobre um determinado e mesmo assunto; o consenso terminará por acontecer porque o laço de fraternidade une essas duas pessoas. Chegamos ao ponto em que identificamos o seguinte: a amizade, ou ainda melhor, a fraternidade impõe-se em um domínio ético, em um ambiente de respeito de uma pessoa pela outra e de compreensão de que aquele outro ser ajuda-me a ser “humano”. Assim, a amizade só se desenvolve entre seres humanos, os quais mantêm uma postura de respeito às normas e valores que permitam essa troca de ideias e de afeto, a saber, essa amizade.
Seguindo o título de nossa coluna, podemos perguntar: onde encontram-se os livros? Na estante, certamente, mas também e essencialmente nos corações e mentes de quem os ama e que por eles nutre um sentimento de amizade. Um bom exemplo dessa amizade é o que se encontra em um texto do professor de literatura Antonio Candido (1918-2017), que nos diz o seguinte: “(…) Seres que pensavam em mim com uma tristeza de amigos mudos : os livros. (…) Na verdade, ele [o autor] os queria mais do que como simples leitura. Queria-os como esperança de saber, como companhia, como vista alegre, (…) O amigo [o autor] que, não sendo Fênix, não renascerá das cinzas a que está sendo reduzido, ao contrário deles, que de algum modo viverão para sempre”. Essas são passagens do texto manuscrito inédito “O pranto dos livros”, de Antonio Candido, 1997.
Há igualmente um outro exemplo de profunda amizade pelos livros, o qual consta no romance “Fahrenheit 451”, do autor americano Ray Bradbury (1920-2012), livro lançado em 1953. No romance, todos os livros são proibidos e são queimados, mas um bombeiro decide salvá-los; também diversas pessoas disponibilizam-se na intenção de preservar as obras, mesmo se, para isso, elas as transmitam oralmente e ensinam aos mais moços, os quais as decoram.
Aprender livros inteiros “de cor” significa “de coração”! É esse o alerta de nosso pequeno texto: manter os livros vivos significa manter viva nossa condição humana e nosso potencial de amizade permanente.
