A Moratória, de Jorge Andrade

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A Moratória, de Jorge Andrade

 

Jorge Andrade é considerado pelos especialistas literários como um dos dramaturgos brasileiros mais importantes do século XX, tendo em vista que ele realizou, no total de suas obras, um recorte temporal da História do Brasil que vai do século XVII ao XX, através de suas dezoito peças teatrais, sete novelas, dois filmes, duas novelas televisivas, um compêndio de literatura, e ainda – e principalmente – pela coletânea intitulada “Marta, a Árvore e o Relógio”, publicada em 1970. Jorge Andrade, paulista, nasceu no ano de 1922, morreu em 1984, e teve sua produção realizada entre as datas de 1951 até 1980. Entre suas obras de dramaturgia que mais se salientaram, temos “A moratória”, de 1954, “A escada”, 1960, “Os ossos do barão”, de 1962, e sendo que estas duas foram a seguir agrupadas em uma só produção televisiva, sob o título de “Os ossos do barão”, no ano de 1973; ainda destacamos a peça “Vereda da salvação”, escrita em 1963, a qual foi adaptada ao filme de mesmo título, e cujo tema refere-se a um conjunto de trabalhadores rurais no Nordeste de nosso país, os quais participam de um grupo messiânico que lhes promete a “salvação”; o filme a que nos referimos foi muito elogiado pelo pessoal do Festival de cinema de Cannes e também disputou a premiação do Festival de Berlim, em 1965. Dedicamo-nos, hoje, a uma aproximação analítica da peça “A moratória”; esta estreou em 1954, sob direção de Gianni Ratto para o Teatro Maria Della Costa em São Paulo, com interpretação marcante de Fernanda Montenegro. A composição do texto da referida peça e seu desenvolvimento têm como objetivo principal o passar do tempo e a observação do espaço em que ela se realiza; a peça em foco desenvolve uma temática voltada totalmente para o social, para o momento vivido, buscando estabelecer contato com a realidade da época. A que época nos referimos? Ao contexto da transição entre a República Velha e a Era Vargas; a República Velha acontece de 1889 até 1930, e a Era Vargas transcorre entre 1930 e 1945. O “pano de fundo” é a crise da economia cafeeira na década de 30, desenvolvendo-se, mais adiante, em uma crise política e social; o modernismo brasileiro acabou adotando, nessa época, esse tipo de problemática, chamando a atenção da intelectualidade para a precária situação da sociedade no Brasil república. Enquadra-se aqui, perfeitamente, o título da peça, pois “moratória” significa a dilação do prazo de quitação de uma dívida, concedida pelo credor ao devedor, para que este possa cumprir a obrigação além do dia de vencimento, previsto anteriormente. Resumindo, “A moratória” conta a história do fazendeiro de café Joaquim, muito afeiçoado à terra e descendente de uma família tradicional de cafeeiros, mas o qual acaba sendo levado à ruína por maus negócios em época de crise. É casado com Helena e tem dois filhos, Marcelo e Lucília; esta acaba por se tornar o elemento chave da peça, devido a sua atuação como provedora da casa, humilde, mas persistente em sua tarefa de recuperação econômica e anímica da família. Antes de suas terras irem à praça para saldar a dívida, o patriarca Joaquim era muito prestigiado e seus familiares não tinham preocupações com dinheiro; agora, com a crise, são obrigados a mudar-se para a cidade e vivem com dificuldades. A história acaba girando em torno de Joaquim e, mais ainda, acentua sua insólita esperança em retornar a suas terras; tem setenta anos de idade e seu único orgulho acaba sendo seu nome. A crise da “máquina” da República Velha não permitiu a venda do café, a colheita não foi boa, a chuva tardou e o governo não fixou um teto mínimo para o produto, restando agora só a espera de poder recuperar a fazenda, situação encarnada juridicamente na palavra “moratória” que, todos sabiam, não viria. No final, esgotada a possibilidade de voltar o tempo áureo daquela propriedade, com a moratória recusada pelas autoridades, todos acabam tendo de se conformar, caindo sobre Lucília a responsabilidade de recuperar a situação familiar. Lucília é a filha solteirona que vê seu casamento com Olímpio, um antigo pretendente, frustrado pelo autoritarismo paterno. Não se entrega aos sonhos e às esperanças do pai, que acha poder reaver a fazenda. É ela que, com força e convicção, recupera a dignidade da família, costurando furiosamente para ganhar algum dinheiro para a sobrevivência de todos. É Lucília que procura lutar pela realidade bruta, protegendo o pai contra as intempéries; em determinado momento, ela diz a ele: “Não! Chega! Vamos enfrentar de uma vez a realidade.” Além disso, a questão do tempo foi percebida pelo autor como a possibilidade de trabalhar o antes e o depois. É por isso que o cenário foi divido em duas partes: à esquerda, passa-se a história em tempos de riqueza (até 1929, 1930); à direita, está a história no tempo presente dos personagens, falência (em 1932). É por isso que alguns valores se repetem, como os quadros nas paredes e o relógio: heranças de um tempo passadiço. A máquina de costurar em que Lucília trabalha está no centro do cenário do lado direito. Somente o leitor tem acesso às cenas simultâneas, muitas vezes um recurso cênico agradável ao espectador. E quanto à temática, há assuntos diversos, como já vimos alguns, a chuva, o preço de venda do café, e mais a relação íntima entre o homem e as coisas. No entanto, em nenhum desses temas há o sintoma do romantismo: não há despedidas dramáticas ou desespero; é como se a falência também secasse a emoção e a obra se tornasse dura, pesada. Após o clímax da peça, o momento em que a verdade é colocada em pauta, vem a resignação pelo fim da “era de ouro”, do ouro verde, desfecho descrito com simplicidade pelo autor, para deixar clara a melancolia em que todos se encontram. De modo geral, todos os personagens continuam com seus caracteres imutáveis, eles não têm uma mutação de caráter ou de atitude muito significativa, a única, porém, que sofre mudança é Lucília, a qual, de moça ingênua e simples, torna-se madura e carrega a dignidade da família quase que sozinha. Na recomendação do autor para o que deve ser o fim da peça, destaca-se esta “didascália” – ou indicação – [As vozes transformam- se em um murmúrio e as luzes apagam definitivamente.] Esta peça de Jorge Andrade é ímpar quanto ao momento em que foi escrita, ou seja, em meados dos anos 50: ela instaura o modernismo cênico no sentido de materializar concretamente o que o tempo do texto nos indica; o autor trabalha tempo/espaço simultaneamente. E assim, nessa propriedade rural e nesse tempo de secura, as pessoas que compõem essa família vivem seu drama como metonímia – contiguidade – do drama de muita gente que viveu nessa época. Talvez esse tempo não esteja longe de nossa atualidade porque, como se diz, às vezes, a História se repete.

 

 

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